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O estranho caso do submarino que bateu em uma montanha

O submarino USS Connecticut, da Marinha dos EUA teve uma surpresa ruim: Colidiu com uma montanha submarina, e por pouco não foi game over.

03/11/2021 às 17:23

O submarino USS Connecticut é um dos mais avançados da Marinha dos EUA. Comissionado em Dezembro de 1998, ele desloca 9137 toneladas, tem 107 metros de comprimento e movido por um reator nuclear que gera 43 Megawatts, ou 0.035 DeLoreans. Em 2 de Outubro de 2021 ele colidiu com uma montanha submersa.

Dramática reconstituição do acidente (Crédito: Carlos Cardoso / MeioBit)

O acidente ocorreu no Mar da China Meridional, dos 140 homens a bordo (Mulheres ainda não servem em submarinos de ataque, somente em lançadores de mísseis e balísticos) 11 se feriram, felizmente nenhum com muita gravidade.

Rastejando, o Connecticut levou uma semana para chegar até Guam, onde está sendo avaliado. A doca seca mais próxima fica no Hawaii. Talvez seja necessária mais uma viagem, para que ele seja reparado.

Não é a primeira colisão na história das forças de submarino, há casos clássicos na Guerra Fria, quando submarinos americanos, ingleses e soviéticos se estranharam. Em 1974, o SSBN James Madison estava saindo do porto na Escócia, para uma patrulha, quando descobriu da pior maneira que havia um submarino de ataque soviético esperando para segui-lo.

Em 1974 o submarino nuclear USS Pintado colidiu quase de frente com um submarino russo classe Yankee-1. (Crédito: Fas.org)

Eles descobriram quando o James Madison acertou em cheio o submarino soviético, que estava em condição de silêncio extremo. A colisão deixou uma marca de 9 metros no casco do submarino americano. Imediatamente os dois emergiram, verificaram os danos, soltaram o famoso “cada um paga o seu” e seguiram caminho.

Mesmo em 1993, pós-Guerra Fria, o USS Grayling bateu no submarino russo K-407 Novomoskovsk. Isso uma semana antes de um encontro de cúpula entre Clinton e Yeltsin, imagine o climão.

No caso do USS Connecticut, a colisão foi com uma montanha submersa, apesar da imagem clickbait de abertura. Idealmente isso não deveria acontecer, mas aparentemente a tal montanha não estava mapeada.

USS Connecticut (SSN-22) em dias mais felizes (Crédito: US Navy)

Mas... como alguém consegue não ver uma montanha?

A resposta é que submarino não tem janela, também não tem GPS (a maior parte do tempo) nem bússola. Submarinos têm mapas, e muita matemática.

Na superfície um submarino pode navegar da mesma forma que um navio, usando GPS, LORAN ou outros sistemas de navegação por satélite, podem se orientar por radiofaróis ou até mesmo pelas estrelas, com uma bússola indicando o Norte.

Debaixo d’água, como você está dentro de um tubo de metal, a bússola magnética não funciona, então usa-se uma Bússola Giroscópica, um equipamento baseado em um giroscópio, que se vale da rotação da Terra para manter uma posição fixa, que é usada para apontar para o Norte.

Essa é só a ponta do iceberg, vários outros equipamentos formam o que se chama “Sistema de Navegação Inercial”. O conceito é extremamente simples: Imagine que você comece sua jornada de um ponto específico. Com o a bússola Giroscópica, sabe em que direção está seguindo, outros instrumentos dão a velocidade.

Se você está navegando a 10km/h por duas horas em uma direção, em duas horas estará a 20km de onde começou. Traçando no mapa o ângulo de navegação, a velocidade e o período de tempo naquele curso, você tem uma boa aproximação de sua rota.

Sistema de Navegação Inercial SPIRE (Space Inertial Reference Earth) desenvolvido no MIT, nos anos 1950. (Crédito: Sanjay Acharya / Wikimedia Commons)

Claro, os sistemas de verdade levam em conta profundidade, velocidade das correntes, massa do submarino e dezenas de outras variáveis, com medições constantes de um monte de sensores.

Com o tempo obviamente as margens de erro vão aumentando, então é normal submarinos lançarem bóias de navegação, ou emergirem à profundidade de periscópio, erguendo antenas de navegação, que setam a posição via GPS. Com isso o navegador pode corrigir a posição no mapa, se necessário.

Comandantes não gostam de se expor, mesmo uma antena de navegação alguns minutos exposta é suficiente para ser identificada pelo radar inimigo. Bóias de navegação então, nem pensar.

Com isso há o risco de não se estar exatamente onde se imagina, e na pior das hipóteses você colide com alguma formação submarina, mesmo sabendo onde no mapa ela está.

E se não sabemos?

Submarinos evitam (ou tentam) colisões através do sonar. Eles escutam o mundo à sua volta, atrás de sons artificiais, especialmente motores. Um bom operador de sonar consegue identificar a quantidade de hélices, quantas pás em cada uma, a quantidade de rotações por minuto e com ajuda do computador, identificar individualmente alvos (para submarinos tudo é alvo), mesmo quando são navios diferentes do mesmo modelo.

O que se torna um problema visto que a maioria das montanhas, submersas ou não, são desprovidas de motores. No sonar passivo uma montanha submersa soa como um pedaço de solo submarino.

O sonar ativo conseguiria detectar a montanha, mas nenhum submarinista que se preze usa sonar ativo, exceto em último caso. É uma excelente forma de avisar ao inimigo que você está na área. E é simples de entender. Imagine o sonar ativo como alguém numa floresta com uma lanterna, procurando um inimigo.

Domo de sonar em um submarino russo Classe Delta (Crédito: Reprodução Internet)

Você consegue enxergar algumas dezenas de metros, com sua lanterna, mas somente uma pequena faixa de floresta. Já o inimigo, pode estar a vários quilômetros, ele enxerga com facilidade o facho da lanterna.

O USS Connecticut estava em uma área muito hostil a submarinos, e nem falo por causa dos submarinos chineses na área. A região é muito mal-mapeada, e em boa parte a profundidade média não fica abaixo de 85 metros, deixando submarinos sem espaço de manobra.

Dizem que conhecemos mais da superfície da Lua do que do fundo dos oceanos, e é verdade, mas convenhamos para observar a superfície da Lua é só olhar pra cima, de preferência de noite e com um telescópio.

Já o fundo dos oceanos está debaixo de um monte de água, tem peixes para atrapalhar, e chegar lá exige toneladas de equipamentos caros, qualquer espirro e a pressão mata você ou seus equipamentos caros. Mais gente andou na Lua do que chegou ao fundo da Fossa das Marianas.

Em alguns anos, vamos juntar as duas áreas, mandando um submarino para explorar o mar de Europa, satélite de Júpiter. Com certeza ele usará bastante sonar ativo, e o software terá que ser excelente, afinal de contas, mesmo sem ter que se preocupar com submarinos inimigos, ele explorará um mar onde todas as montanhas são não-mapeadas.

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