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Rússia abate satélite com míssil e cria dia ruim para a ISS

Sistema anti-satélites cria nuvem de destroços lançados em direção à ISS; Rússia não é a única nação a testar o recurso

16/11/2021 às 11:30

A Rússia causou um novo climão com os Estados Unidos, desta vez envolvendo a Estação Espacial Internacional (ISS) no rolo. Nesta segunda-feira (15) os seus 7 tripulantes, sendo 4 americanos, um alemão e dois russos, tiveram que se abrigar nas cápsulas Crew Dragon e Soyuz, enquanto passavam por um "campo inesperado" de destroços espaciais.

A nuvem de detritos teria sido causada por um teste russo de um sistema antissatélites, que abateu com um míssil um exemplar antigo de seus próprios instrumentos, o que foi considerado pela NASA e o Departamento de Estado como um "teste irresponsável". Os russos, como esperado, minimizaram o ocorrido.

A ISS passou por maus momentos (Crédito: Divulgação/NASA)

A ISS passou por maus momentos (Crédito: Divulgação/NASA)

De acordo com as informações fornecidas pela NASA, o procedimento não foi causado por uma manobra prevista da ISS, quando esta passa por um campo de detritos já mapeado. Os astronautas e cosmonautas tiveram que se abrigar às pressas, na possibilidade que uma colisão danificasse a ISS, e eles fossem obrigados a evacuá-la e voltar para a Terra.

Ainda que o incidente tenha ocorrido sem maiores problemas, o comando da missão em terra e o pessoal em órbita, que foi autorizado a voltar para a estação, ficaram em alerta máximo pelo resto do dia. Na sequência, os técnicos da NASA trataram de descobrir o que causou a nuvem de destroços.

Não muito depois disso, surgiram os primeiros indícios de que a Rússia teria conduzido mais um teste de sua plataforma antissatélites, que vem sendo conduzida de forma mais ativa desde 2015. Uma análise revelou que os fragmentos estavam posicionados onde deveria estar um antigo satélite espião soviético, o Kosmos-1408, lançado originalmente em 1982. Segundo análise, ele vinha perdendo altitude e estava a 450 km de altitude.

Entre 5:00 e 8:00 da manhã do dia 15, horário de Brasília, a Rússia teria lançado um míssil antibalístico A-235 PL-19 "Nudol", que vem sendo usado também nos testes recentes, para abater o velho satélite. A explosão criou uma nuvem de detritos que entrou no caminho da ISS, visto que a trajetória até então era segura.

Aqui você tem uma ideia do que é um míssil Nudol:

Segundo a NASA, a destruição do Kosmos-1408, um satélite que pesava mais de 2 t, criou cerca de 1.500 fragmentos rastreáveis e outras centenas que não puderam ser rastreados. Compreensivelmente, o governo dos EUA não ficou nem um pouco feliz com isso.

Em entrevista a jornalistas, o porta-voz do Departamento de Estado Ned Price deu uma declaração bem áspera:

"A Federação Russa conduziu de forma imprudente um teste de destruição de um de seus próprios satélites, usando um míssil antissatélite de ascensão direta (...). Esse teste aumentará significativamente o risco para astronautas e cosmonautas na Estação Espacial Internacional, bem como o de outras atividades em voos espaciais tripulados. O comportamento perigoso e irresponsável da Rússia põe em risco a sustentabilidade do espaço sideral a longo prazo."

Já Bill Nelson, diretor da NASA, disse o seguinte em um comunicado:

"Com sua longa e célebre história em voos espaciais tripulados, é impensável que a Rússia coloque em risco não apenas os astronautas americanos e internacionais parceiros da ISS, mas também os seus próprios cosmonautas, bem como os taikonautas a bordo da estação espacial da China."

A agência espacial russa Roscosmos, por sua vez, não fez muita questão de esconder o teste, e tratou de minimizar os danos causados por ele:

"A tripulação da Estação Espacial Internacional realiza seus trabalhos regulares de acordo com o programa de voo.

A órbita do objeto, devido ao qual a tripulação foi forçada hoje a se transferir para espaçonaves, de acordo com os procedimentos padrão, afastou-se da órbita da ISS. A estação está na 'zona verde' (segura)."

As teorias da conspiração estão a todo vapor, claro. Há quem diga de que o teste foi deliberado, mirando um satélite que "com muita sorte", inutilizaria a ISS e forçaria os malditos ianques e nações da Europa a dependerem da futura ROSS (Russian Orbital Space Station) e da chinesa Tiangong-3 (TSS), quando quisessem mandar equipes de astronautas para permanecerem em orbita. Vale lembrar que a Rússia se recusou a participar do Programa Artemis (China idem), e sairá da joint venture da ISS em 2025.

O mais provável é que as consequências do abate do Kosmos-1408 não tenham sido sequer consideradas pelo programa espacial russo, e o teste em si foi mais uma de suas rotineiras demonstrações de força aos Estados Unidos e resto do mundo.

E verdade seja dita, os camaradas não são os únicos a jogar Missile Command na vida real de vez em quando.

Derrubar satélites não é exclusividade da Rússia

Hoje há pelo menos 4 nações que contam com sistemas ASATs (Adaptative Satellite Access Technologies, ou Tecnologias Adaptativas de Acesso a Satélites), termo usado para sistemas dedicados a incapacitar satélites, independente do método, incluindo destruição total. E a tecnologia envolvida não é nem um pouco nova.

No fim dos anos 1950, os EUA investiram pesado em formas de abater satélites soviéticos espiões, impulsionado pelo medo causado na população (e militares) após o lançamento do Sputnik-1, em 1957.

O primeiro abate simulado de um satélite registrado, foi realizado em 1959 com um protótipo modificado do 199B, ou "Bold Orion", um míssil balístico lançado de um bombardeiro Boeing B-47 Stratojet, originalmente desenvolvido como uma arma estratégica multifunção.

Bold Orion instalado em um B-47 (Crédito: Reprodução/U.S. Air Force Space and Missile Museum) / rússia

Bold Orion instalado em um B-47 (Crédito: Reprodução/U.S. Air Force Space and Missile Museum)

Equipado com um estágio adicional chamado Altair, que usava combustível sólido, ele atingiu um alcance de 1.770 km, o suficiente para alcançar o Explorer 6, a uma altitude de 256 km, passando a 6,4 km de distância do alvo.

Ainda que fora de alcance de um míssil comum, o teste foi considerado um sucesso porque a Força Aérea dos EUA considerou o uso de ogivas nucleares para derrubar satélites, não pelo cabum, mas sim por conta do pulso eletromagnético emitido pela explosão, capaz de inutilizar componentes eletrônicos dentro de seu raio de alcance.

Enquanto isso, os soviéticos também testavam soluções similares. Em 1960, o engenheiro Vladimir Chelomey, inventor do primeiro modelo soviético de um motor pulsojato, recebeu aval de Nikita Khrushchev para desenvolver seu sistema, baseado no ICBM UR-200, criado para abater satélites e alvos navais, que nunca saiu da fase de testes.

Sob a direção de Sergei Korolev, o programa espacial russo desenvolveu um sistema de interceptação usando o foguete Polyot, testado com sucesso em 1968. Em 1970, os soviéticos registraram a primeira interceptação real de um alvo em órbita, lançado especificamente para os testes.

A façanha foi obra do sistema chamado IS, de Istrebitel Sputnikov, "destruidor de satélites". Ele foi o primeiro ASAT de fato, desenvolvido especificamente para abater satélites inimigos. Ele usava uma carga de fragmentação.

O IS era bem esquisito, mas funcionou (Crédito: Reprodução/RussianSpaceWeb.com) / rússia

O IS era bem esquisito, mas funcionou (Crédito: Reprodução/RussianSpaceWeb.com)

Durante a Guerra Fria, tanto os EUA quanto a URSS consideravam as tecnologias de interceptação de satélites uma necessidade menor, mas não passível de ser completamente descartada. As pesquisas diminuíram com o tempo, até que em 1976, Moscou conseguiu convencer o secretário-geral Leonid Brezhnev de que o programa americano dos ônibus espaciais visava o lançamento de armas orbitais. Com isso, os trabalhos em torno do sistema IS foram intensificados.

Nos EUA, as pesquisas visavam agora lançamentos de caças modificados, o que os russos prontamente copiaram e tiveram êxito antes, com testes realizados em 1982. Como resposta, foi desenvolvido o sistema ASM-135 ASAT, que usa um míssil lançado de um F-15. O único teste bem sucedido se deu em 1985, ao abater o satélite Solwind P78-1, a 555 km de altitude.

O programa foi descontinuado em 1989.

Míssil ASM-135 ASAT é lançado de caça F-15 em 13 de setembro de 1985, no teste que abateu o satélite Solwind P78-1 (Crédito: Paul E. Reynolds/USAF)

Míssil ASM-135 ASAT é lançado de caça F-15 em 13 de setembro de 1985, no teste que abateu o satélite Solwind P78-1 (Crédito: Paul E. Reynolds/USAF)

Oficialmente, os EUA não testam sistemas ASAT desde 2008. Um ano antes, a China conduziu o seu primeiro teste do tipo, que foi bem sucedido, e voltou a testar seus sistemas em 2013 e 2018. A Índia conduziu um lançamento em 2019, se tornando a 4ª nação com armamento capaz de derrubar satélites espiões.

Dessas, a Rússia vem realizando testes recentes de forma mais constante, em 2015, 2016, 2018 (duas vezes) e 2020. O mais recente é só mais um e dificilmente será o último, ainda que tenha causado um mau estar com a NASA e o governo dos EUA, por colocar a tripulação a bordo da ISS em relativo perigo.

De qualquer forma, o espaço pode não ter dono, mas isso não quer dizer que as nações que tem os meios de atazanar os outros não o farão, seja usando satélites para espiar o vizinho, ou respondendo a invasão com mísseis. E azar de quem for pego no fogo cruzado.

Fonte: NASA, BBC, Ars Technica

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