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Como acalmar ondas sem ser o Aquaman? Use óleo

Ninguém pensa que é possível acalmar mar bravio, e menos gente ainda sabe que isso é possível, usando... óleo.

17/11/2021 às 20:48

Vamos chegar no óleo, calma, mas antes precisamos entender o problema: Navios e barcos por milênios sofrem com ondas, mar agitado, e mesmo que não seja um vagalhão, é um incômodo e um risco. Fora apelar pro Cacique Cobra Coral, há muito pouco a fazer, seria extrema arrogância do Homem achar que poderia controlar a natureza. Ou não?

Aqui já não adianta. (Crédito: A Tempestade Perfeita - Warner Brothers)

Nossa história começa na Grécia Antiga, quando um pescador anônimo reparou um fenômeno interessante: Quando havia óleo na água os mergulhadores que coletavam ostras conseguiam enxergar com mais clareza; mais luz atravessava a interface ar-água.

Com o tempo eles começaram a fazer experimentos. Mergulhavam com a boca cheia de azeite, e iam soltando aos poucos. O azeite se espalhava e a luminosidade aumentava.

Pescadores que usavam arpões aproveitaram o truque, percebendo que a água ficava mais transparente, e podiam ver os peixes com mais facilidade. Essas técnicas foram observadas e registradas por vários cientistas e historiadores, como Aristóteles, Plutarco e Plínio.

A técnica foi difundida e redescoberta em várias regiões do mundo, com vários tipos de óleo sendo usados, como azeite, óleo de peixe, linhaça e gordura de baleia.

Era essencial para os antigos navios um bom estoque de óleo de tempestade. (Crédito: Reprodução internet)

Aparentemente o óleo reduzia as ondulações do mar, o que aumentava a visibilidade.

O fenômeno foi redescoberto com o surgimento dos grandes navios de madeira, que durante suas longas viagens passavam por atividades como os cozinheiros jogarem o óleo de cozinha velho no mar.

Os capitães perceberam que isso afetava as ondas à volta do navio, tornando o mar mais calmo.

Em 1757 Benjamin Frankin, o Reed Richards da época estava na Inglaterra numa missão diplomática. Entre as várias viagens curtas de navio, ele percebeu que no mesmo trajeto, com clima semelhante, a viagem era sempre agitada, mas em duas ocasiões o navio parecia muito mais tranqüilo. Apontando isso para o capitão, ele explicou que estava jogando óleo de cozinha na água para acalmar o oceano.

Relato de 1770, do uso de óleo de oliva para acamar ondas (Crédito: reprodução internet)

Bom cientista que era, Franklin começou a pesquisar a técnica. Ele descobriu que pescadores portugueses costumavam derramar uma ou duas garrafas de azeite (provavelmente português) no rio Tejo, para acalmar a arrebentação e partir para o mar de forma mais tranqüila.

Franklin testou o truque do óleo em vários lagos ingleses, chegou a encomendar uma bengala com um compartimento secreto, para poder brincar que tinha poderes mágicos e conseguia acalmar as ondas nos lagos.

A bengala mágica de Ben Frankllin (Crédito: Museu da Sociedade Filosófica Americana)

Ele escreveu um longo trabalho científico que foi lido em uma reunião da Royal Society, em 1774. Incrivelmente era a primeira vez que a técnica do óleo havia sido estudada cientificamente, mas depois disso todo mundo passou a se interessar. Um bom relato foi publicado no Proceedings of the American Philosophical Society,(cuidado, PDF) Vol. 23, No. 123 (Jul., 1886), pp. 383-388, escrito pelo Tenente A.B. Wyckoff, da Marinha dos Estados Unidos.

Nessa apresentação o Tenente Wyckoff catalogou 100 relatos de uso de óleo para acalmar ondas, desde o paper de Benjamin Franklin. Desses somente quatro tiveram resultados negativos.

A Explicação do óleo

O efeito não funciona com todos os óleos. É preciso que a molécula seja polarizada. Nesse caso, ele vai se conectar a uma molécula de água da superfície. As outras moléculas de óleo vão se espalhar, procurando moléculas se água para se conectar.

Rapidamente temos um enorme filme de óleo, com espessura de uma molécula, espalhada separando a água do ar, e como a molécula de óleo é bem mais pesada que a de H2O, e em conjunto apresenta viscosidade bem maior que a água, o vento não consegue romper a superfície laminar do líquido.

Só com água o vento desloca partes da água, gerando turbulência, que se acumula e acaba provocando ondas. Com o óleo, aquela parte do mar só consegue se mover como um todo, demandando muito mais energia.

Uma única colher de chá consegue acalmar meio acre de área em um lago.

É mais ou menos como quando você joga uma lona na piscina, e mesmo flutuando ela é bem pesada de mover, se for aberta.

O efeito do óleo contra ondas foi se tornando menos significativo quando os navios ficaram maiores e mais rápidos, era possível navegar de forma confortável mesmo durante tempo razoavelmente ruim, e a própria “poça” de óleo não conseguia mais acompanhar (soprada pelo vento e correntes) os navios.

Mesmo assim havia um caso onde o óleo não só ainda era usado, mas também era obrigatório: Botes Salva-Vidas.

Vários códigos navais de vários países exigiam que nos kits dos botes houvesse uma lata de “Óleo de Tempestade”. E desenvolveram até uma técnica específica. Um dispensador de óleo era preso a uma “âncora marítima”, que soa como pleonasmo mas é uma espécie de funil ou pára-quedas preso a uma corda na proa do barco. Ele é puxado pela corrente, e como é bem mais leve, exerce tensão, estabilizando o salva-vidas.

Uma âncora marinha, sem dispenser (Crédito: Ed Dunens / Wikimedia Commons)

Colocando o dispensador na âncora, fica garantido que sempre haverá uma camada de óleo em volta do barco.

O chamado óleo de tempestade permaneceu obrigatório em várias nações até pouco tempo atrás. Na Marinha Inglesa ele só deixou de ser obrigatório em 1994.

Agora, a surpresa: Não ser mais obrigatório não quer dizer que marinheiros tenham abandonado a técnica, e até hoje, em 2021 você encontra vários sites vendendo o óleo de tempestade E o dispenser.

Um galão de óleo de tempestade e um dispenser. (Crédito: Toplicht)

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