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FTC vai investigar compra da Activision pela Microsoft

FTC vai revisar compra da Activision pela Microsoft; mudanças nas regras de aquisições e processos antitruste podem melar o negócio

15 semanas atrás

A compra da Activision Blizzard pela Microsoft, por suntuosos US$ 68,7 bilhões, foi um dos três grandes processos de aquisição do mercado dos games realizados em janeiro de 2022, além da Take-Two pagando US$ 12,7 bilhões pela Zynga, e mais recentemente, da Sony desembolsando US$ 3,6 bilhões pela Bungie.

Contudo, a FTC (Federal Trade Commission, ou Comissão Federal de Comércio), um dos órgãos dos Estados Unidos que supervisiona o mercado, não está deixando nada passar, e anunciou que abrirá uma investigação para determinar se a fusão Activision/Microsoft configura um monopólio no setor de games, ou não.

Sede da Activision em Santa Monica, Califórnia (Crédito: Divulgação/Activision Blizzard)

Sede da Activision em Santa Monica, Califórnia (Crédito: Divulgação/Activision Blizzard)

Os últimos anos vêm sendo marcados por uma onda de consolidações no mercado de tecnologia e serviços, e as entidades reguladoras estão de olho nisso. O processo mais recente e escandaloso, dadas as proporções, foi a compra da ARM pela Nvidia por US$ 40 bilhões. O acordo recebeu oposição dos principais órgãos dos EUA, Reino Unido, União Europeia e China, que citaram diversos problemas, de concorrência desleal e espionagem industrial a ameaças à Segurança Nacional britânica.

Como consequência, a Nvidia já estaria em vias de abandonar a negociação, e o Grupo SoftBank (atual dono da ARM) estaria pondo em movimento planos para abrir o IPO da designer de chips, de modo a fazer grana.

A compra da Activision Blizzard deve receber a mesma atenção (indesejada pelas partes), dadas as dimensões do negócio, fechado em US$ 68,7 bilhões, que serão pagos em dinheiro. É o maior processo de aquisição em espécie da história, independente do setor, e o que atingiu a maior cifra do mercado de games até hoje. O negócio fez com que os US$ 7,5 bilhões que Redmond pagou pela Bethesda parecerem troco de pinga.

Os motivos pelos quais a Microsoft terá trabalho para justificar a compra para os reguladores são os mesmos que complicaram, ou melhor, inviabilizaram o acordo entre Nvidia e ARM. Nos últimos anos, a divisão Xbox vem adquirindo cada vez mais e mais estúdios, tanto para fortalecer seus serviços (Game Pass), quanto para garantir títulos como exclusivos de suas plataformas, inclusive de franquias estabelecidas como multiplataforma há muito tempo.

Será o caso de The Elder Scrolls VI, informalmente anunciado como um exclusivo Xbox/Windows, e o mesmo se encaminha para futuros jogos das séries Fallout, DOOM e Wolfenstein. No que tange à Activision, embora haja a promessa de cumprir contratos com a Sony, os referentes a Call of Duty mencionam apenas os títulos anuais de 2022 e 2023, além de uma sequência de Warzone, a ser lançada no próximo ano.

Daí por diante, a permanência da franquia no PlayStation dependeria de futuras negociações entre a Sony e a Microsoft, mas nada garante que a empresa de Phil Spencer, que segundo informes, poderá acabar com os lançamentos anuais de CoD, reclame apenas para si os próximos games.

O mesmo poderá ser aplicado para Overwatch 2, cujos sistemas compatíveis não foram revelados até o momento, e Diablo IV, que embora anunciado para Windows, PS4 e Xbox One, isso se deu há muito tempo (a atual geração de consoles sequer havia sido anunciada) e tudo pode mudar.

A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft pode não ser tão boa quanto muitos pensam (Crédito: Divulgação/Microsoft)

A aquisição da Activision Blizzard pela Microsoft pode não ser tão boa quanto muitos pensam (Crédito: Divulgação/Microsoft)

Do ponto de vista dos órgãos reguladores, a onda de aquisições das companhias de tecnologia, independente do setor, é uma séria ameaça ao livre mercado, pois não só limita o crescimento de empresas menores para alimentar a competição, visto que estas são compradas pelas maiores, como também coloca poder demais nas mãos de poucos conglomerados, que ficam livres para cobrar o quanto querem e colocar limitações de uso da forma que acham melhor, por não haver concorrência.

Basta olhar para como Apple, Google, Amazon e Facebook operam; as quatro gigantes tech estão na mira de todos os reguladores do planeta, acusadas de manterem um conveniente oligopólio do setor. A Microsoft estava até agora abaixo do radar, mas as recentes e enormes aquisições da divisão Xbox chamaram a atenção do governo dos Estados Unidos.

O temor (com motivos) é de que a Microsoft garantirá para os consoles Xbox, o Windows e o serviço Xbox Game Pass, que estaria em vias de ser lançado em outros dispositivos (TVs, dongles, etc.), a exclusividade de diversas franquias outrora multiplataforma, e quem quiser jogar terá que adquirir um de seus produtos, não tendo outras opções.

E com cada vez mais estúdios sendo comprados (e a Sony fazendo a mesma coisa), muitos entendem a onda das consolidações como alicerces de monopólios se formando. Até por esse e outros motivos, a FTC e o Departamento de Justiça dos EUA estão revisando as regras de aquisições e fusões, de modo a dificultar exponencialmente os processos de compra por grandes conglomerados.

Foi assim aparentemente que o acordo Nvidia/ARM foi para o vinagre, e o firmado entre Activision Blizzard e Microsoft é o próximo alvo.

Lina Khan, presidente da FTC, colocou a agência em modo Tolerância Zero com gigantes tech (Crédito: Graeme Jennings-Pool/Getty Images)

Lina Khan, presidente da FTC, colocou a agência em modo Tolerância Zero com gigantes tech (Crédito: Graeme Jennings-Pool/Getty Images)

Segundo o site Bloomberg, a FTC ficou com a tarefa de revisar e investigar os pormenores acerca da compra, visto que nos EUA, a tarefa pode ser atribuída à agência ou ao Departamento de Justiça, em comum acordo entre as partes. Entretanto, a comissão é tradicionalmente mais linha, e ficou bem mais avessa às gigantes tech depois que o presidente Joe Biden indicou a advogada Lina Khan como sua presidente.

Notória desafeto do Vale do Silício, vista por muitos como a versão norte-americana da presidente da Comissão Europeia Margrethe Vestager, que ODEIA as big techs externas à Europa, ela incomoda tanto que Amazon e Facebook moveram ações para impedi-la de analisar processos envolvendo o setor, o que não deu em nada. Até então o foco da FTC se concentrava nas duas, além de Apple e Google, mas agora a Microsoft também conseguiu seu "lugar ao Sol".

Segundo informes, a investigação da agência se concentrará em como a compra da Activision afetará o mercado, no possível cenário da Microsoft limitar o acesso de companhias rivais (Sony, Microsoft) às franquias do estúdio, para fortalecer o seu próprio negócio; há de se considerar que a divisão PlayStation ainda é a líder do setor de games, e uma parte signifitaciva da receita da Activision Blizzard vêm dos consoles da Sony, mas isso pode não durar.

No mais, a investigação movida pela FTC deverá estimular reações em outras regiões, especialmente da Comissão Europeia para a Competição, que muito provavelmente também está considerando impor limites à compra da Activision Blizzard pela Microsoft, que espera encerrar o processo de aquisição positivamente até 2023.

Claro, desde que o desfecho não seja similar ao acordo entre Nvidia e ARM.

Fonte: Bloomberg

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