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Polaris: O mais ambicioso programa espacial privado de todos os tempos

Polaris Dawn é o programa espacial privado de Jared Isaacman, que pretende avançar o conhecimento humano e abrir caminho para exploradores.

12 semanas atrás

Polaris é algo que a gente só via em filme, é algo tão ficção científica que nem dá pra acreditar que está acontecendo. Jared Isaacman, o playboy, bilionário, filantropo e gênio ok, cara bem esperto, que bancou a Inspiration 4, primeira missão orbital privada tripulada, anunciou um programa espacial inteiro.

Duvido que vá ter tanta janela, mas tudo bem (Crédito: Polaris)

Dizem que o Espaço modifica a gente. Vários astronautas viraram pastores, ou passaram a se dedicar a atividades filantrópicas, promovendo uma visão bem mais Star Trek da Humanidade. Realmente, a visão do planeta inteiro, entender que todas as pessoas que já viveram, viveram naquela bola azul deve ser algo avassalador.

Jared Isaacman teve a mesma epifania, ele sempre foi entusiasta de espaço, e tem uma força aérea particular com 70 aviões, além de pilotar seu próprio Mig-29, comprado de Paul Allen, finado fundador da Microsoft. Depois da Missão Inspiration 4, ele voltou mudado, ou mais precisamente teve sua visão confirmada.

Ele se tornou investidor e parceiro da SpaceX, com isso os custos dos vôos ficam mais em conta.

Estima-se que a Inspiration 4 custou a Jared US$200 milhões, o que daria US$50 milhões por passageiro. Mais barato do que a NASA paga para a SpaceX, e beeem mais barato que os US$90 milhões que os russos estavam cobrando quando eram o único carreto do mercado.

Agora com o Programa Polaris, a SpaceX entra como parceira, reduzindo os custos e aumenta as ambições.

Jared planejou um programa espacial com mais três missões: a primeira, Polaris Dawn, já será bastante ambiciosa, e deve, se tudo der certo, voar até o final de 2022.

Polaris Dawn

O conceito é ampliar as fronteiras do vôo tripulado comercial. Pela primeira vez uma cápsula Dragon deixará a órbita baixa terrestre, se aventurando longe no espaço. O objetivo é quebrar o recorde da Gemini XI, que em 1966 orbitou a Terra com um apogeu de 1368 km. Fora as missões Apollo, é o mais distante da Terra que humanos já estiveram.

A Polaris Dawn pretende estudar os efeitos da radiação sob o corpo humano, em elevadas altitudes. Nessa órbita eles cruzarão pelo Cinturão de Van Allen, o que também servirá para testar os sistemas da Dragon e sua proteção contra radiação e campos eletromagnéticos.

Altitude relativa da Polaris Dawn em relação à Estação Espacial Internacional (Crédito: Universe Sandbox)

Na missão irão Jared Isaacman, como comandante. O piloto será Scott Poteet. Ex-piloto da Força Aérea dos EUA, com mais de 400 horas de vôo em combate, ele é amigo e colaborador de Jared.

Junto irão duas especialistas de missão. Uma delas é Sarah Gillis, que começou na SpaceX como estagiária, e hoje é engenheira-chefe de operações, responsável pelo treinamento de astronautas e certificação no manuseio das cápsulas Dragon.

A outra especialista de missão da Polaris Dawn é Anna Menon. Ela trabalhou 7 anos na NASA antes de ir para a SpaceX, onde é engenheira-chefe de operações espaciais. Ela coordena a construção das Dragons e também cuida da parte de comunicações.

Anna tem um diploma de Matemática e um mestrado em Ciências na área de Engenharia Biomédica, e embarca na Polaris Dawn como Oficial Médica Chefe. Esperemos que mais como uma doutora Crusher do que uma Pulasky. A Doutora de Orville também tá valendo.

Anna é casada com Anil Menon, Coronel da Força Aérea e candidato a astronauta da NASA. Ele deixou um emprego na SpaceX para isso, e está no começo de seus dois anos de seu treinamento.

Ironicamente, há um sério risco de Anna passar na frente e ir ao espaço antes do marido, o que com toda certeza irá gerar um climão ótimo na residência dos Menons.

Jared Isaacman, Scott Poteet, Sarah Gillis e Anna Menon. (Crédito: Polaris Dawn)

OK, dramalhão do For All Mankind à parte, há um dos objetivos da missão Polaris Dawn que é especialmente ousado: Jared planeja realizar a primeira caminhada espacial em uma missão privada ao espaço.

Isso mesmo: em algum momento eles vão abrir a escotilha, e dois astronautas flutuarão no espaço livres leves e soltos, presos por um cordão umbilical à Dragon.

Isso significa que a SpaceX está desenvolvendo um traje espacial completo. O traje de vôo usado nos vôos normais da cápsula é feito para manter o astronauta vivo por algum tempo, em caso de despressurização, mas eles não são autônomos, não possuem sistemas de refrigeração nem as juntas são preparadas para um ambiente de vácuo.

Com zero atmosfera, o ar no traje espacial o infla, deixando o traje extremamente rígido. Juntas especiais permitem que os astronautas movam seus membros, mas mesmo assim é algo incômodo e desajeitado. COMO a SpaceX planeja resolver esse problema? Ninguém sabe.

Os astronautas da Inspiration 4 em seus trajes espaciais (Crédito: Inspiration 4/SpaceX)

Há outro detalhe: A Dragon não tem uma câmara de descompressão. A cápsula não foi projetada para caminhadas espaciais. Então todos os quatro tripulantes da Polaris Dawn terão que usar os trajes espaciais com upgrade, e a cápsula inteira será despressurizada. Enquanto os dois estiverem bundeando no espaço, outros dois ficarão em seus assentos, ou mais provavelmente na escotilha, olhando a Terra e se maravilhando com aquela oportunidade única.

O tempo todo amostras biológicas serão recolhidas, e os astronautas passarão por testes médicos e cognitivos.

Outra parte importante da missão: A Polaris Dawn será equipada com um sistema de comunicação por lasers, que se tudo der certo conseguirá travar nos satélites da constelação Starlink, provendo conexão permanente com excelente largura de banda, ao contrário da Inspiration 4, que só ficava ao alcance da SpaceX por 8% da órbita, mais ou menos. O resto tinham que depender de retransmissores de banda limitada, fora que a NASA é bem murrinha em emprestar sua rede de antenas.

A segunda missão, que ainda não tem nome então batizo de Polaris II — A Missão está nebulosa, Jared não quer definir nada ainda. Diz ele que ela irá ampliar o que for aprendido com a Polaris Dawn, provavelmente irão testar aprimoramentos nos trajes espaciais e procedimentos, e quem sabe tentar um vôo de longa duração. Há quem sugira um vôo de circunavegação lugar em trajetória de retorno livre, mas isso é improvável.

O escudo térmico da Dragon é PICA, mas não é projetado para aguentar a velocidade de uma reentrada de uma missão lunar. Em teoria a SpaceX poderia melhorar o escudo, mas com a Starship investir na Dragon não faz mais sentido.

E por falar na Starship, ela é a terceira e última parte do Programa Polaris.

O primeiro vôo tripulado de uma Starship, que deve acontecer (de novo, se tudo der certo) até o final de 2023 terá Jared e seus astronautas como tripulantes. Isso é um nível de confiança no produto que raramente se vê. E não, Branson e Bezos não contam, estamos falando do maior foguete já construído, um monstro que se explodir equivalerá a uma pequena detonação nuclear.

Starship e Super Heavy. Apenas monstruoso. (Crédito: SpaceX)

Aparentemente Jared quer ser pioneiro várias vezes, está colocando seu dinheiro e seu fiofó na roda. A Starship é uma nave que não tem um sistema de escape, ela é grande demais. Em teoria ela poderia se separar do foguete principal, em caso de problemas, mas essas coisas são rápidas demais, realisticamente falando, se algo der errado, babau.

É perigoso? Bastante, por mais que você teste planeje e contingencie, são milhares de toneladas de combustível. Na potência máxima os 33 motores Raptor do SuperHeavy, o primeiro estágio da Starship emitirão 230 GIGAWATTS de energia térmica, o equivalente à metade da malha elétrica dos EUA, ou 190 DeLoreans.

Imagine que você está em uma nave, na outra ponta disso. Domar esse poder bruto não é fácil, exige coragem, mas como dizia o lema dos Galaxy Rangers, sem coragem, sem glória.

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