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Como a pandemia da COVID-19 acabou salvando o QR Code

Soluções de pagamento contactless privilegiaram o QR Code, adotado com facilidade graças a uma mãozinha da Apple e do Google

12 semanas atrás

Pode não parecer, mas o QR Code já tem 28 anos. Criado para ser uma versão melhorada do código de barras tradicional, ele foi projetado para permitir a anexação de muito mais informações, mas sua adoção foi muito lenta, por uma série de fatores. Até meados dos anos 2010, sua utilidade era questionável.

Hoje, o QR Code viabiliza uma série de operações, inclusive de compra e venda por meios digitais sem contato direto, graças em parte à pandemia da COVID-19. A Apple, e posteriormente o Google, também têm sua parcela de culpa no sucesso do código.

QR Code em celular Android (Crédito: Pixabay/Pexels)

QR Code em celular Android (Crédito: Pixabay/Pexels)

O QR Code foi desenvolvido em 1994 pelo japonês Masahiro Hara, na época engenheiro da Denso Wave, uma divisão de componentes da Toyota. Ele foi desenvolvido como um código 2D (bidimensional), que pode ser lido na horizontal e vertical, com capacidade de armazenar vastas quantidades de informação, de caracteres a números, código binário e alfanumérico, e claro, kanjis.

Por padrão, um código de barras comum só pode ser lido em um sentido (unidimensional) e guarda apenas código binário. Para agilizar a leitura, o código conta com quadrados pretos em 3 dos 4 cantos, que cumprem a função de marcar o posicionamento para o leitor, agilizando o processo.

Os pixels internos podem ser rearranjados para codificar a informação armazenada, e dependendo da versão do QR Code, possuem capacidade máxima conforme o seu tipo: 7.089 números, 4.296 códigos alfanuméricos, 3 kB em código binário, ou 1.817 kanjis (ocupando mais espaço, de 13 bits/caractere).

Em média, um QR Code guarda 200 vezes mais informação que um código de barras, armazenando informações precisas sobre o produto a ele relacionado, como data de fabricação, procedência, ingredientes/peças, etc.

Ao perceber que o padrão é muito útil, o Denso Wave nunca impôs as patentes que possui, permitindo que o QR Code fosse adotado e adaptado por qualquer um, de forma livre, desde que observadas as documentações ISO e JIS. No Japão ele sempre foi popular, tendo sido empregado para rastreio de produtos e pagamentos, mas no ocidente, ele começou a pegar tração quando os celulares se tornaram mais populares.

QR Code sendo fixado em caixa de papelão (Crédito: Kampus Production/Pexels)

QR Code sendo fixado em caixa de papelão (Crédito: Kampus Production/Pexels)

Na época dos teclados alfanuméricos e internet móvel movida a carvão, digitar o endereço de um site manualmente era um martírio. Nesse aspecto, os QR Codes facilitavam e muito a navegação em uma época precária, em que cada minuto a mais representava menos dados para usar, e o custo não era nada amigável.

No ocidente, e especialmente nos Estados Unidos, houve uma exposição excessiva dos QR Codes em cenários e usos que não acrescentavam nada ao recurso, nem justificavam sua adoção. Jornais, revistas, outdoors, camisetas, comerciais na TV, sites, todos adotaram o código unicamente pela novidade, mas poucos se atentaram a implementar utilidade real. De que adianta colocar um QR Code que redireciona para seu blog, apenas na página do mesmo?

Quando o iPhone foi lançado em 2007 e o Google introduziu o Android em 2008, aliados ao alcance em rápida expansão das redes 3G, não fazia mais muito sentido usar um código empregado apenas como um encurtador de URLs, quando você podia fazer todo o processo mais rapidamente. Além disso, era preciso selecionar um app leitor compatível, visto que a leitura não era um recurso padrão nos dispositivos móveis.

Muitas empresas e sites passaram a ver no OCR uma tecnologia mais eficiente para usar a câmera e ler dados, embora ela seja muito mais complexa de ser aplicada, e o QR Code acabou sendo posto de escanteio desse lado do mundo, quase que exclusivamente por ser "tecnologia velha", o que é uma tremenda idiotice.

Ainda assim, uma pesquisa realizada em junho de 2011 constatou que apenas 6,2% dos donos de celulares nos EUA haviam escaneado um QR Code naquele mês, metade desse número em jornais e revistas, na época em que ambos setores estavam sofrendo com perda de receita. Nesse cenário, a adoção dos códigos QR faziam parte de uma estratégia desesperada, em que jogavam de tudo na parede e esperavam para ver o que colava.

O iPhone só ganhou suporte nativo a QR Codes com o iOS 11 (Crédito: Divulgação/Apple)

O iPhone só ganhou suporte nativo a QR Codes com o iOS 11 (Crédito: Divulgação/Apple)

 

A adoção do QR Code só começou a aumentar a partir de 2017, quando a Apple introduziu o iOS 11, este oferecendo finalmente suporte à leitura dos códigos com o app nativo de câmera. Não demorou muito e o Google copiou implementou o recurso, que deu as caras no Android 9 Pie, lançado em 2018.

A partir daqui, donos de dispositivos móveis se livraram do primeiro incômodo para usar QR Codes, que era ir atrás de um app compatível. Com o suporte nativo, basta abrir a Câmera e escanear, como deveria ter sido desde o início.

Com isso, diversas marcas passaram a ver potencial no padrão. O Snapchat, por exemplo, introduziu um modelo de QR Code próprio que os usuários podem criar, para permitir que outros os adicionem como amigos na rede social. Telegram, WhatsApp, Discord e vários outros também usam o padrão para login de conta.

Porém, a maré virou a favor do QR Code com a pandemia da COVID-19, com o ocidente descobrindo um uso para o padrão do qual o Japão faz desde sempre: operações financeiras sem contato. O distanciamento social obrigatório mudou as relações de compra e venda, e estabelecimentos foram obrigados a se adequar, quando manusear dinheiro ou cartões se tornou um risco para a saúde.

Mesmo no Brasil, o número de operações realizadas com o celular envolvendo QR Codes cresceu muito nos últimos anos, graças ao acesso facilitado a carteiras virtuais como PicPay e o serviço Pix do Banco Central, já que nem todos possuem contas bancárias para usar a aproximação ligada a cartões de crédito e débito. Sem surpresa, o pagamento com os códigos é bem maior por aqui do que o viabilizado por NFC.

A adoção ao Pix foi tão massiva, que a ferramenta está involuntariamente causando uma série de transtornos, incluindo um "boom" nos casos de sequestros-relâmpago e "saidinhas" dos bancos.

Pix (Crédito: Divulgação/Banco Central)

Pix (Crédito: Divulgação/Banco Central)

Mesmo estabelecimentos como restaurantes têm limitado bastante o contato durante os períodos de retomada, e usam o QR Code em diversas frentes, do pagamento ao cardápio, acessível diretamente nos dispositivos móveis, ao invés de usar o físico que passa de mão em mão, o horror, o horror.

Não obstante, um menu online é muito mais fácil de atualizar do que o físico, e o usuário que o acessa digitalmente terá informações precisas sobre o que ele pode pedir e quais pratos não estão disponíveis, ao invés de pedir algo no impresso e o garçom responder "tem, mas acabou". No fim das contas, isso ajuda na imagem do estabelecimento.

Claro, cada vez mais pessoas estão realizando compras online, não só pela comodidade, mas pela precaução em reduzir o contato e evitar o contágio pela COVID-19, mesmo em um cenário com boa parte da população imunizada, visto que as variantes do vírus continuam surgindo. E muitas vezes, o pagamento é realizado com QR Codes, seja no ato do pedido ou da entrega.

Ainda no quesito COVID-19, o QR Code também tem sido usado como código ligado às carteiras e passaportes vacinais, com uma grande vantagem sobre as versões físicas, eles são muito difíceis de serem falsificados. Assim, qualquer tentativa de manipulação dos dados é facilmente verificável.

Certificado de vacinação contra COVID-19 no app ConecteSUS (Crédito: Reprodução/DATASUS/Ministério da Saúde)

Certificado de vacinação contra COVID-19 no app ConecteSUS (Crédito: Reprodução/DATASUS/Ministério da Saúde)

QR Codes também são usados para acesso de exames médicos, no Brasil e em outros países, tanto pela praticidade quanto pera reduzir ao máximo o contato entre pessoas, para o estritamente necessário.

No fim, o QR Code será um novo hábito adquirido pela população por ser um recurso simples de implementar e suportado por praticamente todos os celulares modernos (com exceção dos que ainda usam versões de sistemas anteriores ao iOS 11 e Android 9), e pode ser implementado em uma série de recursos, e desta vez, ainda que devido às circunstâncias, todo mundo percebeu que é útil de verdade.

Fonte: Popular Mechanics

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