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Games, a influência dos seus criadores e a guerra na Ucrânia

Diversos estúdios tem aproveitado sua influência para arrecadar dinheiro e ajudar de outras formas as pessoas afetadas pela guerra na Ucrânia

11 semanas atrás

Enquanto as tropas de Vladimir Putin avançam pela Ucrânia e governos de todo o mundo debatem sobre como interromper a invasão que já vitimou centenas de pessoas, algumas empresas têm se mobilizado para ajudar aqueles que mais tem sofrido com a ação russa. Entre elas temos vários estúdios de games que estão usando sua popularidade para de uma forma ou de outra influenciar o futuro da guerra.

This War of Mine e os horrores da guerra (Crédito/Divulgação/11 Bit Studios)

O movimento feito por algumas desenvolvedoras surgiu ainda em 24 de fevereiro, dia em que o território ucraniano passou a ser tomado pelo país vizinho. O primeiro posicionamento que chegou ao meu conhecimento foi o do 11 Bit Studios, empresa situada na Polônia e que ficou conhecida pelo This War of Mine, jogo esse que inclusive foi escolhido para integrar a grade curricular polonesa. Na ocasião eles anunciaram que pelos próximos dias todo o faturamento obtido pelo título e seus DLCs seria enviado para um fundo e depois doado para a Cruz Vermelha ucraniana.

Por se tratar de um título lançado em 2014, confesso ter pensado que o valor não seria muito significativo, mas de acordo com o estúdio, mais de US$ 715 mil foram arrecadados durante o período. A quantia foi bem superior, por exemplo, aos cerca de US$ 235 mil doados tanto pela  CD Projekt Red quanto pela Techland para uma organização que visa ajudar refugiados, a Polska Akcja Humanitarna.

Outra que optou por aproveitar sua enorme base de fãs foi a Bungie. Durante 48 horas os criadores de franquias como Halo e Destiny realizaram o Game2Give, um evento em que a quantia arrecadada seria enviada para entidades como a Voices of Children e DirectRelief. O resultado foi mais US$ 120 mil doados.

ETS2 - Ucrânia

Mod recria a Ucrânia no Euro Truck Simulator 2 (Crédito: Reprodução/ETS2 World)

Seguindo pelo mesmo caminho também temos a SCS Software. Talvez você não conheça esse estúdio tcheco, mas mesmo que não seja um apaixonado pelos seus simuladores de transporte, certamente já ouviu falar no Euro Truck Simulator 2 e no American Truck Simulator. Além de doar mais de 20 mil euros a diversas instituições de caridade, eles realocaram vários funcionários para trabalhar na criação de pacote de pinturas dedicado à Ucrânia e 100% das vendas será convertido em doações.

Em nota oficial, os representantes do estúdio disseram:

Apesar de as nossas equipes serem multinacionais, o núcleo da nossa companhia possui raízes na cidade de Praga, na República Tcheca. A história da nossa nação carrega uma memória de tristes acontecimentos que ressoam de maneiras muito similares com o que tem acontecido na Ucrânia nos últimos dias, semanas e meses. Vemos um paralelo muito próximo com o que aconteceu em 1938 e 1968, e isso nos deixa profundamente preocupados, cheios de emoções e dor por o mundo moderno ter que testemunhar tempos tão horríveis novamente.

Outra iniciativa que está prestes a ter início é um pacote de jogos independentes que será posto à venda no itch.io. Organizado por Brandon Sheffield, da Necrosoft Games , o valor obtido através da campanha será dividido entre o International Medical Corps e o Voices of Children. Foi por esta plataforma que outros fundos de arrecadação tiveram um enorme sucesso, com o Indie bundle for Palenstinian Aid tendo levantado quase US$ 900 mil e o Bundle of Racial Justice and Equality tendo se saído ainda melhor, conseguindo impressionantes mais de US$ 8 milhões!

Outras formas de ajuda e as notícias falsas

Porém, mesmo com todo o dinheiro arrecadado podendo contribuir muito para a situação, sabemos que ajudam desta forma costuma demorar a ser posta em prática. É por isso que algumas empresas e pessoas ligadas ao desenvolvimento de games tem procurado alternativas. Um exemplo é Astrid Mie, CEO do estúdio indie Triple Topping e que através do Twitter tem convocado os game designers que moram na Polônia ou países próximos a oferecerem aos colegas refugiados um lugar para dormir, além de comida e até acesso a WiFi.

Já os criadores da série S.T.A.L.K.E.R.: Shadow of Chernobyl e cuja sede se encontra na cidade de Kiev pediram que as pessoas ajudem quem precisa e apoiem as forças armadas ucranianas. Segundo a conta da GSC Game World, “através da dor, morte, guerra, medo e crueldade desumana, a Ucrânia perseverará, como sempre fez.

Porém, uma guerra costuma ser um terreno bastante propicio para a disseminação de informações falsas e com as redes sociais dando voz para tanta gente, era de se esperar que muitas mentiras se espalhassem rapidamente. Curiosamente alguns jogos têm sido utilizados para isso, com os vídeos falsos feito com simuladores de guerra tendo aparecido em diversas contas de pessoas com milhares de seguidores ou até mesmo em programas de televisão.

Entre as barrigadas que mais se destacaram neste início da invasão russa tivemos o exemplo abaixo. No vídeo podemos ver o que seria uma batalha em que um caça da força aérea de Putin é abatido por um piloto ucraniano que alcançaria rapidamente o status de lenda, O Fantasma de Kiev. O problema é que este é apenas um trecho do jogo Digital Combat Simulator World — ou simplesmente, DCS World.

Preocupada com a maneira como essas informações falsas podem ser utilizadas, a Eagle Dynamics pediu para que as pessoas não criem e/ou compartilhem vídeos assim, pois “fake news desta natureza são sérias demais para serem deixadas de lado e precisam ser denunciadas por aqueles que sabem o que procurar.

Admitindo que por mais que a dificuldade em diferenciar um jogo de algo que aconteceu no mundo real possa ser considerado algo positivo por eles e por quem gosta de videogames, “à luz da situação atual que se desenrola na Ucrânia, é fundamental evitar a geração de imagens que possam ser mal interpretadas e potencialmente colocar vidas em perigo.

Outra que fez um pedido semelhante foi a Bohemia Interactive, responsáveis pelo desenvolvimento do Arma 3. Depois de um vídeo feito nesse jogo viralizar no Twitter e fazer muitos acreditarem se tratar de uma filmagem de um bombardeiro russo fugindo da artilharia antiaérea ucraniana, a desenvolvedora tcheca pediu para as pessoas tomarem cuidado e afirmou estar em contato com veículos de mídia para confirmar ou não a utilização do simulador em algumas gravações.

Little Orpheus nos coloca na pele do russo Ivan Ivanovich (Crédito: Divulgação/The Chinese Room)

E no meio de toda a confusão e perdas que a guerra tem gerado, há pelo menos um jogo que já teve o seu lançamento bastante prejudicado, o Little Orpheus. Desenvolvido pelo pessoal da The Chinese Room (Dear Esther, Amnesia: A Machine for Pigs, Everybody's Gone to the Rapture), esse jogo de plataforma com foco na narrativa foi lançado no Apple Arcade em 2020, mas só agora chegaria ao PC e consoles.

Inspirado em obras como Viagem ao Centro da Terra, Flash Gordon e A Terra que o Tempo Esqueceu, o enredo se passa em 1962, nos colocando no papel de um cosmonauta russo que encontra um mundo perdido no interior do nosso planeta. Porém, “à luz dos recentes eventos mundiais”, a editora Secret Mode considerou que o tema poderia incomodar algumas pessoas e por isso decidiu suspender o lançamento por tempo indeterminado.

E essa tentativa de não ter o seu nome vinculado ao lado russo da guerra também pôde ser observado na Wargaming. Criadores de jogos como World of Tanks, World of Warplanes e World of Warships, o estúdio fundado em Belarus e atualmente situado no Chipre possui diversos funcionários em Kiev e para contribuir, fez uma doação de US$ 1 milhão à Cruz Vermelha ucraniana. Além disso, eles estariam fornecendo moradia, adiantamentos de salários e apoio para mais de 550 funcionários e seus familiares que continuam sendo afetados pelos ataques.

Contudo, mesmo com esse declarado apoio à Ucrânia e à sua população, o diretor criativo do World of Tanks, Sergey Burkatovskiy, não teve receio de apoiar a ofensiva russa em seu Facebook. Por lá ele se mostrou favorável “as operações das Forças Armadas da Federação Russa, a DPR (República Popular de Donetsk) e a LPR (República Popular de Luhansk).

A resposta dada pela Wargaming foi rápida, com o game designer deixando de fazer parte do quadro de funcionários da empresa e o aviso sendo bem claro aos demais que trabalham para eles: se quiserem ficar do lado dos invasores, que estejam prontos para arcar com as consequências.

Atualização: a GSC Game World divulgou um emocionante vídeo criado para responder como o pessoal do estúdio está e após dizer que as semanas anteriores aos ataques parecem ter acontecido há anos, eles afirmam que o desenvolvimento do S.T.A.L.K.E.R. 2 foi deixado de lado. No momento o foco da empresa está em proteger seus funcionários e os familiares deles. A promessa é que um dia eles voltarão ao trabalho, quando a vitória ucraniana ocorrer.

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