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Switchblade e Bayraktar - duas palavras que assustam Putin

Bayraktar e Switchblade são dois drones que estão tirando o sono dos russos. Representam doutrinas bem diferentes, mas igualmente eficazes

24/03/2022 às 0:16

Switchblade e Bayraktar são dois nomes que estão aparecendo bastante nas manchetes sobre a guerra na Ucrânia, e são péssimas notícias para os russos, que parecem não ter aprendido nada com conflitos na Armênia, Iraque e Síria. 

Drone Bayraktar, o terror de Putin (Crédito: Internet / Editoria de Arte)

Os dois são drones, embora tecnicamente o AeroVironment Switchblade seja classificado como míssil. Suas histórias, como sempre, começam muito longe no passado. 

Os drones, ou UAVs, sigla em inglês para veículo aéreo não-tripulado surgiram quase simultaneamente aos veículos aéreos tripulados. Várias idéias foram testadas no comecinho do Século XX, mas como a tecnologia de rádio da época se resumia a barro fofo e pedra lascada, só na 1a Guerra Mundial ela amadureceu o suficiente para produzir protótipos viáveis.

Talvez o primeiro drone / míssil tenha sido o Kettering Bug, que voou em 1918. Era essencialmente um aviãozinho sem piloto, com um giroscópio e um temporizador. O giroscópio mantinha o bicho voando estável, em uma determinada direção. O estabilizador media o número de rotações da hélice, e com base em dados como velocidade do vento e distância do alvo, o drone era programado para quando tivesse percorrido a distância determinada, um mecanismo ejetava as asas e o drone caía sobre o alvo como uma pedra, com 82Kg de explosivos.

O tal Kettering Bug. Era até grandinho. (Crédito: Domínio Público)

Em teoria o Kettering Bug atingiria alvos a 120Km de distância, voando a 80Km/h. Na prática a idéia de bombas voadoras de baixíssima confiabilidade voando por sobre as cabeças dos soldados aliados não era muito atraente, e o Kettering Bug nunca entrou em produção, mas a ideia de UAVs era interessante o bastante para ser esquecida, e logo acharam uma utilidade para eles: Alvos.

Normalmente alvos aéreos eram faixas rebocadas por aviões, mas isso limitava os ângulos com que eles podiam ser atacados sem colocar em risco os pilotos dos aviões-rebocadores, e também havia o problema de você colocar um monte de novatos, com munição real e confiar que eles NÃO atingiram o rebocador sem-querer.

Em 1935 tiveram a idéia de adaptar controles de rádio nos biplanos de Havilland Tiger Moth, que foram batizados como a variante DH.82 Queen Bee. Eles eram extremamente populares nos treinos do pessoal da artilharia antiaérea, que tinham então a rara oportunidade de atirar contra alvos reais.

O Queen Bee acabou popularizando o termo drone, zangão em inglês. Com o tempo se se tornou genérico para designar qualquer tipo de UAV.

Winston Churchill acompanha o lançamento de um DH.82 Queen Bee. (Crédito: Domínio Público)

Mais tarde foram feitos experimentos com aviões adaptados para voar por controle remoto carregando explosivos. As Operações Aphrodite e Anvil usavam bombardeiros veteranos que tinham todo seu armamento e material não-essencial removidos. O interior era preenchido com Torpex, um explosivo 50% mais poderoso que TNT.

Câmeras de televisão eram instaladas, um sistema de controle-remoto por rádio permitia que o avião fosse controlado remotamente, por uma tripulação em um “avião-mãe” que acompanhava de uma distância segura.

Chegando ao alvo, o bombardeiro mergulharia, controlado remotamente e atingira o objetivo de forma devastadora. Ao menos na teoria. Na prática aviões eram derrubados, o sistema de controle remoto dava defeito, o tempo não ajudava ou simplesmente o operador errava o alvo.

O pior mesmo aconteceu em 1944. 

O procedimento era o avião-drone decolar com dois pilotos humanos, a tecnologia não era precisa o suficiente para decolagem remota. Depois de alguns minutos de vôo o controle era repassado para o avião-mãe, tudo era testado, os explosivos eram armados e os pilotos saltariam de paraquedas.

No dia 12 de agosto de 1944 os tenentes Joseph P. Kennedy Jr. Wilford John Willy terminaram os procedimentos em seu BQ-8, nome dado à versão modificada do B-24 Liberator. Transmitiram a palavra-chave dizendo que estava tudo bem, armaram os explosivos e se prepararam para saltar, mas do nada, dois minutos depois, o avião explodiu sem aviso.

Os B-17 da Operação Afrodite foram modificados com um cockpit externo, para facilitar a fuga dos pilotos. (Crédito: Domínio Público)

Os dois foram mortos imediatamente. Joseph era a escolha do patriarca dos Kennedy para ser seu sucessor político. O destino agora caía nas mãos de outros Kennedy servindo na Guerra, John Fitzgerald Kennedy.

A Alemanha também teve seus projetos de drones explosivos, mas quem aperfeiçoou a tecnologia foi o Japão,que resolveu todos os problemas dos drones kamikazi, criando o conceito de drone suicida tripulado. Compreensivelmente o resto do mundo preferiu continuar pesquisando controle-remoto.

Drones foram utilizados em todas as guerras desde então, e diversos modelos surgiram,incluindo o Lockheed D-21. Seu projeto foi iniciado em 1964, e era extremamente ambicionoso. Talvez ambicioso demais. Em 1964 nem a eletricidade havia sido inventada, e decidiram projetar um drone capaz de voar a mach 3.3+, 90 mil pés e que percorreria milhares de quilômetros sobre território inimigo, seguindo uma rota pré-programada. 

Lockheed D-21. Parece futurista HOJE. Foi projetado em 1964. Kelly Johnson ERA um alienígena. (Crédito USAF/ Domínio Público)

Em 30 de julho de 1965 desastre aconteceu. Testando o lançamento de um D-21 sendo levado por um M-21 (uma versão do SR-71 da CIA), o drone se chocou com o avião, ambos voando a mach 3.2. O SR-71 se desintegrou. Os tripulantes conseguiram ejetar, com o co-piloto morreu afogado. 

Operações como a Tempestade no Deserto e guerrinhas na Bósnia e no Afeganistão mostraram que drones podem ser excelentes, tanto para observação e coleta de inteligência, como para ações ofensivas, mas como sempre os americanos se deixaram levar pela sua megalomania. 

Drones para eles precisam de links de satélite, componentes dignos de ficção científica, custam uma fortuna e fazem de tudo, com recursos de vôo e pousos automáticos, seleção de alvo, extrema autonomia, etc. O resultado é que um MQ-9 Reaper, apesar de ser um excelente drone custa US$32 milhões a unidade. Em 2021 a Austrália comprou 12, e juntando equipamentos de apoio, centrais de controle, peças de reposição, treinamento, etc, o pacote saiu US$$1.65 bilhões. 

Isso inviabiliza o conceito de drone pra países mais pobres, ou ao menos é o que os EUA imaginavam, mas a imaginação do pessoal que passa o dia pensando em como matar o vizinho é sempre mais eficiente, e surgiram diversas alternativas, o Hezbollah mesmo antes de ser armado com drones iranianos, sondou várias vezes as defesas israelenses com drones feitos com peças de aeromodelos comerciais.

Em 2021, no arranca-rabo entre Armênia e Azerbaijão, esse último fez extenso uso do Antonov An-2, um biplano da 2a Guerra construído para pulverizar plantações. Eles modificaram o An-2 para ser controlado remotamente, ele era mandado para atrair fogo inimigo e expor as instalações anti-aéreas da Armênia.

Feito isso, drones “de verdade” Bayraktar lançavam mísseis e destruíam as defesas anti-aéreas do inimigo. Em alguns casos os próprios An-2 eram usados como drones-suicidas.

Lançado em 2014, o Bayraktar é produzido pela Turquia. Segue o princípio de fazer pouco mas fazer bem, sem pretensões de ser um mega-drone americano, mas o que ele faz, é excelente. 

Com autonomia de 27 horas, ele voa a 18 mil pés levando 150Kg de armamento, em geral quatro mísseis ar-terra. Ele pode atingir 25 mil pés de altitude, se estiver em missão de reconhecimento. Seu alcance é de 150Km, mas uma nova versão usando satélites ampliará isso para a distância que der para percorrer até o combustível acabar.

O Bayraktar ganhou até musiquinha

Os russos descobriram da pior maneira que um drone pequeno de material composto é danado de difícil de identificar nos radares, mas a Ucrânia quer mais, e vai receber.

Os Estados Unidos estão enviando para a Ucrânia boa parte de seu estoque de drones AeroVironment Switchblade, pricipalmente o Switchblade 300, mas também o Switchblade 600.

Como funciona o Switchblade? Bem, sabe aquela covardia do Battlefield 4, quando você dá um roadkill com o UAV e mata um soldado inimigo? Imagine um dronezinho minúsculo, lançado de um tubo. Ele pode voar por 15 minutos, atingir uma distância de 10 quilômetros, e quando necessário descer como um 737 chinês (too soon?) e atingir em cheio um alvo, detonando uma carga equivalente a uma granada de 40mm, destruindo veículos leves e pessoal.

Drone Switchblade 300. O nome vem das asas, que se dobram e ele cabe em um compacto tudo de lançamento. (Crédito: Crédito: Pfc. Sarah Pysher/2nd Marine Division / Domínio Público)

No Afeganistão os americanos usaram mais de 4000 Switchblades 300, e os soldados adoraram o brinquedo, a idéia de ter uma opção de monitorar o inimigo do ar, sob controle direto do pelotão, sem precisar contactar operadores remotos, e excelente. Se o drone ainda por cima faz cabum, melhor ainda.

Outra vantagem: O Switchblade 300 é muito barato, US$6 mil a unidade. Pesando 2.7kg, ele é totalmente levinho, o que também é excelente, soldados detestam carregar peso.

O Swtichblade 300 é tão versátil que pode até ser lançado do ar, de outros drones.

O que ele não pode é destruir tanques e blindados, nas não é essa sua proposta. Para isso é preciso algo com mais poder de fogo, como o Switchblade 600, que também será enviado para as forças armadas ucranianas.

Pesando 23kg (os soldados vão reclamar) o Switchblade 600 tem autonomia de 40Km e alcance de 80Km, Ele leva uma ogiva equivalente a um míssil Javelin, e é capaz de destruir qualquer tanque existente, atingindo-o a 185Km/h. 

O Switchblade é uma excelente evolução da idéia do kamikazi, separando o piloto do avião. Com isso os pilotos ganham pontos de experiência e vivem para voar no dia seguinte. Já os russos nos tanques, nem tanto.

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