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Não, a Rússia não vai desacoplar seu módulo orbital da ISS

Apesar das ameaças da Rússia, diretor da Roscosmos Dmitry Rogozin não pode desacoplar o módulo orbital da ISS, por uma série de motivos

23/03/2022 às 10:10

A Guerra contra a Ucrânia afetou duramente a Rússia, tanto por uma campanha que se arrasta por mais tempo do que o previsto, quanto pelas inúmeras sanções impostas ao país em diversos setores. Ironicamente o programa espacial do país, que tradicionalmente seria imune a conflitos políticos, foi estrangulado pelo diretor da Roscosmos Dmitry Rogozin, que adora meter os pés pelas mãos.

Um burocrata sem nenhuma experiência aeroespacial, que assumiu o comando da Roscosmos por ser amigo próximo do presidente Vladimir Putin, Rogozin cancelou praticamente todos os projetos de parceria com outras nações, incluindo um contrato já pago pela OneWeb, concorrente da Starlink, para lançar a última leva de sua constelação de satélites de órbita baixa.

Visão dorsal do Segmento Orbital Russo (ROS) da ISS, em foto tirada da cápsula Crew Dragon Endeavour após desacoplar da estação, em 8 de novembro de 2021 (Crédito: NASA)

Visão dorsal do Segmento Orbital Russo (ROS) da ISS, em foto tirada da cápsula Crew Dragon Endeavour após desacoplar da estação, em 8 de novembro de 2021 (Crédito: NASA)

Faltando três dias para o lançamento, a Roscosmos embarreirou o projeto, exigindo como condição que o Reino Unido removesse sua participação da OneWeb, sendo que o governo britânico salvou a companhia da falência em 2020. Lógico que tal pedido não seria atendido, e não foi.

Como resultado, os russos não só embolsaram a grana, como ficaram com os 36 satélites que já estavam na base de lançamentos de Baikonur, no Cazaquistão, país esse aliado da Rússia. A OneWeb os considera perdidos, pois perdeu totalmente o rastro dos componentes.

De qualquer forma, a companhia já se acertou com a SpaceX, sua concorrente direta, para os lançamentos finais; Elon Musk, claro, conta a grana dos rivais e agradece aos russos.

O atual estado do programa espacial russo é de um pária completo, mas Rogozin acredita piamente que a Rússia pode se virar completamente sozinha no espaço, talvez contando com ajuda da China, oficialmente em cima do muro quanto à questão da Ucrânia. Tal atitude é movida basicamente por orgulho, visto que a União Soviética foi o primeiro país a chegar ao espaço, e conquistou uma série de feitos antes dos americanos (graças a Sergei Korolev), até a chegada à Lua.

Isso explica uma série de ameaças publicadas por Rogozin nas redes sociais direcionadas à Estação Espacial Internacional, visto que o diretor da Roscosmos bate na tecla de remover a Rússia dos acordos de cooperação há algum tempo, devido a desentendimentos sobre o Programa Artemis, e ressalvas feitas às cápsulas Soyuz.

A grande verdade é que o programa espacial russo está capengando há um bom tempo, mas é preciso manter as aparências de qualquer maneira. Com a invasão à Ucrânia e a onda de sanções contra a Rússia, Rogozin começou a vociferar ameaças rotineiras quanto à saída iminente da Rússia da ISS, mencionando inclusive que o Segmento Orbital Russo (ROS), a porção controlada pela Rússia na estação, será... desacoplada.

A conta oficial da Ria Novosti, agência de notícias controlada pelo governo russo, chegou a publicar em seu canal no Telegram um vídeo, produzido pela Roscosmos, em que os cosmonautas russos separam o ROS do resto da ISS, deixando o astronauta norte-americano Mark Vande Hei para trás.


Claro que o vídeo é uma sátira às questões políticas em terra, mas o fato é que até então, países envolvidos em conflito nunca levaram suas desavenças para o espaço, por pior que a situação diplomática estivesse. O problema é que Rogozin não é um cientista, e sim um político, e vai fazer o que um político faz. Nisso, ele arrastou a Roscosmos e todo o programa espacial russo para o buraco.

De qualquer forma, há uma série de pontos a considerar, para entender por que a ideia de separar o módulo russo da ISS não é viável:

1. A União faz a Força

A ISS foi projetada para operar de modo interdependente, onde que os módulos não podem operar de forma independente, pois cada um executa uma função essencial. O ROS, por exemplo, é o responsável pela propulsão, controle de altitude e sistema de manobras para desviar de detritos, mas é o módulo principal, provido pelos Estados Unidos, que possui o giroscópio responsável por controlar e orientar as manobras.

Estação Espacial Internacional (Crédito: Divulgação/NASA)

Estação Espacial Internacional (Crédito: Divulgação/NASA)

Além disso, o módulo norte-americano é o que produz e redireciona a energia solar, captada pelos painéis, necessária para que o ROS possa funcionar adequadamente. Embora ambos possuam sistemas de suporte a vida e possam ser controlados por suas respectivas agências em solo, um não pode operar em sua totalidade sem o outro.

No improvável cenário de um desacoplamento, o módulo russo ficaria sem energia em pouco tempo, mesmo recebendo propelentes em missões das cápsulas de carga Progress. Já a ISS se tornaria uma estação estática, sem capacidade para manobrar, e no momento a Rússia não têm os meios para prover upgrades de emergência ao ROS. A NASA poderia fazê-los do seu lado, mas resta saber se haveria vontade política para isso.

Por fim, as travas que mantém o módulo russo ligado ao americano são fixas dos dois lados, e não depende apenas dos cosmonautas fechar uma escotilha, soltar os parafusos e dar tchau. Para um desacoplamento completo e seguro, é preciso que os astronautas do outro lado também colaborem, e isso só seria possível em um cenário onde todos chegariam a um acordo, o que claro, não vai acontecer.

E geralmente, astronautas são alheios a questões políticas, como bem mostraram os recém-chegados cosmonautas russos à ISS:

Cosmonautas russos chegam à ISS usando uniformes amarelos com faixas azuis, cores da bandeira da Ucrânia; Moscou disse se tratar de "coincidência" (Crédito: Reprodução/Roscosmos) / Rússia

Cosmonautas russos chegam à ISS usando uniformes amarelos com faixas azuis, cores da bandeira da Ucrânia; Moscou disse se tratar de "coincidência" (Crédito: Reprodução/Roscosmos)

Claro, há quem diga que os uniformes foram um problema de timing por parte de Moscou, que projetou para o dia da missão, 18 de março, uma comemoração pela capitulação da Ucrânia, enquanto celebraria em simultâneo os 8 anos de tomada da Crimeia, concluída no dia 18 de março de 2014.

O governo russo nega que os cosmonautas, que tinham direito de decidir pela cor dos uniformes, fizeram uma mensagem de apoio à Ucrânia, se limitando a dizer que "às vezes, amarelo é só uma cor".

2. A boa e velha burocracia

A ISS é regida por um documento chamado Acordo Intergovernamental para a Estação Espacial Internacional (cuidado, PDF), assinado em 1998 pelas 15 nações responsáveis pelo projeto. O IGA, como é conhecido, foi inicialmente acordado em 1988 entre EUA, Europa, Canadá e Japão, mas com o fim da União Soviética, o governo norte-americano considerou essencial trazer a Rússia para o acordo.

Os motivos eram dois: o primeiro e mais crítico, garantir que os técnicos russos continuassem trabalhando em pesquisa aeroespacial e atividades civis, ao invés de permitir que eles oferecessem seus conhecimentos militares, especialmente em ICBMs, a outras nações. O segundo, que era secundário, era manter o legado soviético pioneiro em exploração espacial.

Os primeiros acordos entre EUA e Rússia foram firmados em 1992, e concretizados no IGA em 1998. O documento determina que cada módulo, gerido por sua nação de origem, seja reconhecido como parte do país correspondente. Basicamente, o ROS é parte legal do território da Rússia, assim como o americano é território dos EUA, e daí por diante.

Mesmo com a Rússia sendo "dona" do seu módulo na ISS, o país possui deveres legais que deve cumprir para a manutenção da estação, assim como os EUA e as 13 demais nações, Bélgica, Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Japão, Holanda/Países Baixos (é complicado), Noruega, Espanha, Suécia, Suíça e o Reino Unido.

Enquanto a Roscosmos pode quebrar contratos comerciais com empresas como a OneWeb, sem maiores represálias do que as atuais, a Rússia se remover da ISS, com ou sem desacoplamento do ROS, criaria um conflito internacional e um incidente diplomático sem precedentes, o que renderia ao país a pecha de persona non grata na exploração espacial em projetos de larga escala com outras nações, que perduraria por décadas.

Se a situação da Rússia no espaço já não é boa, ficaria ainda pior, com praticamente ninguém, fora os suspeitos habituais, como a China, aceitando fazer parcerias com Moscou, no que diz respeito à exploração do Cosmos.

3. Putin manda, não Rogozin

Este é o ponto principal. Rogozin tem carta-branca do governo russo para fazer o que lhe der na telha, referente a acordos e contratos comerciais da Roscosmos com outros países e empresas externas, mas quando o assunto são tratados internacionais, ele não tem poder de decisão nenhum.

Todas as resoluções de alto nível, incluindo uma possível saída da Rússia dos acordos de cooperação com a ISS, independente disso envolver o desacoplamento do ROS, passam por instâncias superiores do governo, que obviamente, ficam sob a palavra final do presidente Vladimir Putin.

Dmitry Rogozin (esq.) e Vladimir Putin conversam em voo rumo ao cosmódromo de Vostochny, em foto de 4 de setembro de 2021 (Crédito: Alexey Druzhinin/Sputnik/AFP/Getty Images) / Rússia

Dmitry Rogozin (esq.) e Vladimir Putin conversam em voo rumo ao cosmódromo de Vostochny, em foto de 4 de setembro de 2021 (Crédito: Alexey Druzhinin/Sputnik/AFP/Getty Images)

Resumindo, nada será decidido que contrarie sua vontade. Ao mesmo tempo, não dá para prever o que se passa na cabeça de Putin no momento, mas é muito provável que a Roscosmos e a ISS não ocupem sua atenção, esta voltada à campanha de invasão à Ucrânia, que não está saindo como o planejado.

Voltando à questão do orgulho, é certo que Putin gostaria que a Rússia voltasse aos tempos de pioneirismo no espaço dos tempos da União Soviética, e não depender de nenhuma outra nação, principalmente desafetos, para continuar com o legado, exceto colaborações de aliados políticos, de novo, com a China sendo o candidato a parceiro inevitável no futuro.

No mais, é certo que Moscou terá que lidar com problemas mais mundanos a curto prazo, desde o colapso econômico, que afetará duramente a população à perda de potencial bélico. A Uralvagonzavod, principal empresa fabricante de tanques, paralisou sua produção por falhas na cadeia de suprimentos.

No que tange à Roscosmos, ela não deve estar em uma forma melhor que isso, para manter o ritmo saudável de missões. E sair dos acordos que envolvem a ISS não ajuda em nada.

Fonte: Ars Technica

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