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Quando a Ciência fez cinema: o incrível salto de James Bond

Ciência faz aviões voarem, foguetes irem ao espaço e cura doenças sérias, mas além disso ela também faz cinema de qualidade!

01/04/2022 às 17:24

Ciência e cinema não são uma combinação que a maioria das pessoas associa. Claro, há todo o clichê do cientista louco, mas na hora de fazer cinema o cidadão comum não percebe quanta ciência há envolvida. 

Um belo salto (Crédito: United Artists)

Temos toda a Ciência e Engenharia das câmeras digitais, a química dos filmes em película, dá para passar o dia inteiro listando tudo que a Ciência contribui para o cinema, mas no nosso caso em especial pudemos ver na tela o fruto da física e matemática aplicadas, em uma cena empolgante que se imortalizou nos anais do cinema.

O ano era 1974, o filme era 007 Contra o Homem Com A Pistola De Ouro. Os produtores estavam tentando criar manobras e cenas excitantes para o filme, até que em uma reunião o piloto-dublê Joie Chitwood sugeriu a Guy Hamilton, o diretor, uma manobra chamada Salto Astro Espiral, que havia sido feita em Houston, em um evento chamado The American Thrill Show, uma espécie de show de acrobacias com carros.

Is good to be the Bond (Crédito United Artists)

Guy Hamilton gostou da idéia, apresentou-a para Albert R. Broccoli, o produtor do filme, que por sua vez contratou na hora Jay Milligan, o piloto do salto original. Foi uma rasteira total em Chtwood, mas Hollywood (eu sei!) é assim. 

A tal manobra nunca havia sido usada em um filme, e era impressionante: um carro acelerava em direção a uma rampa inclinada, girava 360 graus e caía em outra rampa com inclinação oposta. Qualquer piloto decente, ao ouvir a descrição da manobra diria ser impossível. E era, exceto para um computador.

O auge da computação gráfica em 1968. Não, não era raytracing (Crédito: CAL)

O Salto Astro-Espiral surgiu graças a  Raymond R. McHenry, que trabalhava no Laboratório Aeronáutico de Cornell. Em 1968 ele e sua equipe estavam escrevendo softwares em FORTAN simulando o comportamento de veículos. Eles tinham uma pequena frota de carros repletos de sensores para validar seus modelos. Um dia, um show itinerante comandado por Joie Chitwood  chegou na cidade. McHhenry contratou alguns dos pilotos para realizar manobras ousadas, dar cavalos de pau, andar em duas rodas e similares, para colher dados e aperfeiçoar seu software.

Conversa vai conversa bem, surge a velha vontade do salto espiral, algo que todo mundo queria fazer mas sabia ser impossível. McHenry decide tentar modelar um salto em seus IBM 390 com cartão perfurado. 

IBM 360. Em geral vinham com até 1 MB de memória, podiam ser expandidos para até 8 MB. Não rodava Crysis. (Crédito: IBM/Wikimedia Commons)

A base do sistema de McHenry eram as Equações de Euler envolvendo o movimento de corpos rígidos. Elas consideram torque, aceleração, momento de inércia e várias outras variáveis para prever o comportamento de corpos rígidos em movimento.

O projeto foi um sucesso, o público adorou a manobra mas foi algo muito local, no máximo visto na televisão rapidamente e esquecido, mas James Bond eternizaria esse pequeno triunfo da Ciência…

Os produtores foram avisados que não era só uma questão de montar uma rampa parecida. McHenry foi chamado e toda a matemática teve que ser refeita. O carro era um AMC Hornet X, que precisava ser modelado. Para manter o centro de gravidade o mais central possível, o carro foi modificado e a coluna de direção ficou no meio, ao invés da esquerda do veículo.

Partes do chassis foram ampliadas, para redistribuir o peso, e uma roda rígida foi instalada no meio do eixo traseiro, para aumentar o torque e possibilitar o salto.

A equipe de McHenry computou matrizes com mais de 10 variáveis independentes, até chegar aos valores ideias: 40 milhas por hora (ca. 64 km/h) de velocidade, 1450 kg de massa, 200 graus por segundo de rotação, além da inclinação das rampas, distância entre elas, etc, etc e mais, etc.

Chegado o dia, 1.º de junho de 1974, a equipe agora está no interior da Tailândia. No interior do Hornet, espremido entre dois manequins vestidos como Bond e o Xerife Pepper, está o piloto de acrobacias Loren “Bumps” Willert, concentrado em manter o velocímetro exatamente em 40 milhas por hora (ca. 64 km/h).

A cena custou uma fortuna mas os produtores tinham bala na agulha. Dsclp. (Crédito: United Artists)

Era hora de ver se a Ciência estava correta, ou se ele teria que ser pescado do fundo do canal. Bem, a Ciência estava corretíssima, o Hornet executou um lindo 360, caindo na rampa do outro lado perfeitamente. O diretor estava em êxtase, toda a equipe aplaudia, incluindo a plateia de 100 jornalistas que os produtores haviam trazido da Europa, em um 747 fretado para testemunhar o salto.

Claro, jornalistas sendo jornalistas, quando o filme saiu vários que presenciaram o salto elogiaram os “efeitos especiais” da cena.

A manobra entrou para o Livro Guinness, e rendeu até um paper (cuidado, PDF) de Raymond McHenry detalhando o processo. É irônico que há uma turma ludita que diz detestar o uso de computadores no cinema, e preferir os velhos efeitos práticos, mal sabe essa turma que um dos maiores efeitos práticos só foi possível graças a muita Ciência e muitas horas de computação.

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