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BBS - Como foi viver a era das grandes navegações

BBS é um conceito anterior à Internet, era uma rede temporária via linha discada, que agregou entusiastas nos primórdios da microinformática

19/04/2022 às 4:10

BBS é uma sigla em inglês para Bulletin Board System, Sistema de quadro de avisos. O nome começou como CBBS, o C de Computerized, mas como Donald Knuth sempre fala, esses prefixos, principalmente o “e” tendem a cair. O nome BBS pegou, e entrou para a história, mas o que é um BBS afinal?

O tempo dos BBS era mais ou menos assim, infelizmente com menos Ally Sheedy (Crédito: Wargames/MGM)

Para entendermos o BBS, precisamos entender o cenário da microinformática no começo dos Anos 90, e para isso temos que ir mais ainda no passado.

Hoje mesmo SuaMãe™ usa termos como download, site, PDF, notebook. Computadores não são mais máquinas exóticas existindo em empresas gigantescas e filmes de ficção científica, mas nem sempre foi assim.

Apesar de o BBS ser um conceito antigo, ele veio muito depois da chamada revolução dos microcomputadores, que “oficialmente” começou em janeiro de 1975, com esse brinquedo aqui, o Altair 8800.

O Altair 8800 é só a parte de cima, embaixo é o controlador de disquete (Crédito: Michael Holley /wikimedia commons)

Ele era vendido montado ou na forma de kit, era um computador baseado na CPU 8080, um chip de 8 bits com 4500 transístores. Uma CPU Ryzen 9 5950X tem 19,2 bilhões de transístores. Como era de se esperar o Altair não rodava Crysis muito bem.

Aliás, a rigor ele não rodava nada. Não tinha sistema operacional, não vinha com nenhuma linguagem. Toda a entrada de dados era via painel frontal, selecionando bits um a um, ou via terminal serial, vendido à parte. Mesmo assim foi um sucesso, pelo módico preço de US$2560,00 (valores de 2022) você comprava um kit e montava seu próprio computador.

Em julho do mesmo ano dois sujeitos chamados Paul Allen e Bill Gates ofereceram para a MIPS, a empresa que fazia o Altair um interpretador de linguagem BASIC, que passou a ser vendido em conjunto com uma placa de expansão. Dizem que os dois fundaram uma empresa de informática razoavelmente bem-sucedida depois disso.

Apple I. Hoje um desses vale uma fortuna (Crédito: Ed Uthman / Wikimedia Commons)

Em 1976 veio o Apple I, também vendido como kit ou montado, e já era uma máquina mais completa, com teclado e monitor, e em 1977, o Apple II. Outros fabricantes também lançaram suas máquinas, como o Commodore PET. Gradualmente o público dos computadores domésticos foi mudando de nerds hardcore de universidades para nerds curiosos e adolescentes.

Na Europa em 1980 foi lançado o ZX-80, primeiro computador da venerável família Sinclair. Crianças usavam a desculpa de que um computador ajudaria nas tarefas escolares, e era “o futuro” e ganhavam seus ZX-80s, 81s e mais tarde Spectrums, com milhares de jogos, e softwares de todos os tipos.

Em 1981 surgiu o IBM PC, voltado para o mercado corporativo, mas logo clones melhores e mais baratos atraíam usuários domésticos. Cada um com sua tribo, PCs, Apples, Sinclair, TRS-80 e Amiga, que era obviamente o único computador de verdade entre todos. Você pode discordar, mas estará errado.

Eram os grandes rivais entre a molecada, mas o TK90X era claramente superior (Crédito: Arquivo pessoal)

A principal forma de interação entre os entusiastas eram as revistas de informática. Às vezes nas seções de cartas alguém divulgava um fã-clube, e raramente um evento presencial. Nos colégios e universidades os nerds com interesses comuns acabavam se aproximando, amizades eram criadas, era comum marcar visitas na casa de um, e todo mundo levava seus micros, softwares que tinham conseguido, revistas, etc. Sim, a pirataria rolava solta.

Essas micro-comunidades eram eminentemente locais, basicamente círculos de amizade. Como também eram locais os computadores. Redes eram um conceito reservado para empresas grandes, hoje na sua casa você provavelmente tem mais computadores conectados do que 99% das empresas nos anos 80.

Não existia o conceito de online, não para nós pobres mortais. Se hoje um computador sem internet é visto como algo defeituoso, inútil, antigamente o estado natural de um PC era ser uma solução em si mesmo, dependendo completamente dos softwares em disquetes ou no HD. O principal protocolo de comunicação era o DPLDPC (disquete pra lá, disquete pra cá).

A forma mais comum de mover muitos arquivos entre dois PCs era através de um cabo LapLink, comunicando via portais seriais RS232C (Crédito: Reprodução Internet)

Ser um usuário de computador, ou micreiro, como éramos chamados, significava que você era um sujeito esquisito mas que tinha uma ferramenta extremamente útil quando alguém precisava digitar um trabalho de faculdade. Vivíamos em ilhas isoladas, com no máximo alguns habitantes, até que surgiu o BBS.

De uma forma rudimentar, o primeiro BBS é do começo dos Anos 70, funcionando em terminais de computador na região da Baía de São Francisco, funcionando com moedas e conectando via modem com um mainframe. O serviço funcionava essencialmente como um serviço de anúncios classificados.

O primeiro BBS como conhecemos hoje surgiu em 1978, chamava-se CBBS. Nessa época, usuários usavam modems rudimentares, conectados via um acoplador acústico, aquele negócio para encaixar o telefone, como vimos em Wargames.

Um acoplador acústico. Ninguém vivo usou um desses (Crédito: Lorax / Wikimedia Commons)

Uma curiosidade: na época do filme ninguém mais usava acopladores acústicos, mas o diretor pensou que funcionaria para “explicar” a conexão telefônica.

Esse era o segredo do BBS: não precisava de uma linha de dados dedicada, qualquer um com um modem e uma linha telefônica conseguia se conectar a um servidor remoto, mas tecnicamente o BBS ainda era uma rua sem-saída.

Enquanto isso o conceito de BBS foi inevitavelmente importado pelo Brasil. Demorou, mas chegou. Em 1984, pelas mãos do carioca Paulo Sérgio Pinto, que escreveu seu próprio servidor em FORTRAN, e usava um modem manual. Ou seja: todo dia, das 20h às 24h ele ficava de plantão esperando usuários ligarem, usarem o serviço e se desconectarem.
O serviço era usado principalmente pelos amigos do Pinto, mas a semente foi lançada. Outros serviços de BBS foram criados por entusiastas, agora usando modems automáticos, como o Fórum-80, Mandic, Hot-Line, Unikey, Digital Highway, Infolink e tantos outros.

Modem US Robots 14400. Nem todo mundo tinha uma linha telefônica limpa o suficiente pra atingir essa velocidade (Crédito: Khaosaming / Wikimedia Commons)

Em um curioso caso de democratização, qualquer um com um modem e uma linha telefônica podia montar seu próprio BBS, só caía no problema de se tornar popular demais e a linha ficar sempre ocupada.

Esse era o principal problema dos BBSs. Além de estarmos vivendo a Reserva de Mercado, onde o raro hardware nacional era caríssimo e tudo decente vinha de importabando, também era o tempo da telefonia estatal. Linhas telefônicas custavam o equivalente a milhares de reais, eram consideradas patrimônio e declaradas no Imposto de Renda.

Pouca gente tinha dinheiro para comprar e manter dezenas de linhas, as assinaturas dos BBS não compensavam, muitas das vezes. E também havia o problema do custo da ligação, para fugir dele a maioria dos acessos era feitos nos finais de semana e entre meia-noite e 6 da manhã, para cair no chamado Pulso Único, ao invés da cobrança por minuto. Mas… o que dava para fazer no BBS?

Tela de entrada do Amiga Underground, um BBS ainda existente, acessível via TELNET (Crédito: Carlos Cardoso)

Um BBS típico tinha uma seção de downloads, com softwares, documentos, fanzines e até livros, além de fotos, em sua maioria educativas. Não havia o conceito de vídeo digital, nem músicas, ao menos no começo, e de qualquer jeito um MP3 levaria uma eternidade para ser baixado. Se existisse, ele só foi aparecer em 1995.

Mesmo as imagens, em formato PCX na maioria das vezes (O JPEG só seria inventado em 1992) demoravam para ser baixadas. Nada da festa hoje em dia quando baixamos digo baixam coletâneas completas do OnlyFans. Era uma foto só de cada vez, em geral da Cindy Crawford. Aquela cena clássica d’Os Simpsons é bem realista.

Mas nem só de safardanagem vive o Homem. Usávamos o BBS para baixar e compartilhar drivers, e principalmente para interagir com outras pessoas, outros usuários. Nossa pequena aldeia global, que era o círculo de amigos agora havia crescido para gente da cidade inteira. Mesmo alguns corajosos de outras partes do Estado, que encaravam pagar as altas tarifas de DDD.

Essa interação poderia ser online, na sala de chat, mas o mais comum era a troca de mensagens assíncronas. Vários padrões surgiram mas o vencedor foi o formato QWK, criado em 1987 por Mark "Sparky" Herring.

O QWK era um formato de arquivo que agregava todo o sistema de mensagens do BBS. Ele gerenciava os fóruns assinados pelo usuário, que funcionavam como uma espécie de mailing list local. Cada BBS tinha sua própria lista de fóruns de discussão, com temas indo de suporte até Star Trek, eventos, séries de tv, culinária… era possível acessar os fóruns online, mas praticamente todo mundo preferia baixar o “pacote QWK”, que trazia todas as mensagens novas dos fóruns, além de suas mensagens privativas. Desconectada a linha telefônica, o pacote QWK era aberto em um leitor -o mais popular era o UniQwk, de autoria de Júlio Botelho- e você respondia às mensagens com calma. Terminado, você gerava um pacote compactado com suas respostas, e enviava para o BBS, quando de sua próxima conexão.

Tela de abertura do UniQWK (Crédito: Carlos Cardoso)

Parece complicado, e era. Só que computadores naquela época eram máquinas naturalmente complicadas. Todo mundo que lembra de coisas como portas COM, IRQs e DMAs tem pesadelos com hardwares que exigiam que você re-configurasse todas as outras placas. PCs eram coisa de fuçadores, os mais leigos formatavam os próprios disquetes, e se você acha isso pouco, peça pra um millenial fazer isso.

Os BBS funcionavam como uma espécie de clube secreto, uma mini-maçonaria. Você não falava que participava, pois seus amigos e parentes não entenderiam. No máximo reclamam que você monopolizava a linha telefônica nas madrugadas. Qualquer tentativa de demonstrar um BBS para gente normal, era fracassada.

Em um país onde a leitura é desestimulada desde o jardim de infância, um hobby onde 99% do tempo era passado lendo e escrevendo não tinha como se tornar popular.

Um belo dia, os BBSs deixaram de ser ilhas e se tornaram um arquipélago. Foi criada a FIDONET, uma rede que conectava BBSs. Funcionava assim: Meu BBS tinha fóruns locais e fóruns globais. Um fórum global era compartilhado com outros BBSs. Todo dia o SysOp (System Operador, a criatura mais odiada do BBS) gerava um pacote de mensagens agregando tudo dos fóruns globais.

Fido, o mascote oficial da Fidonet (Crédito: Reprodução Internet)

Ele então usava um modem para discar para um BBS que recebia o pacote e separava as mensagens de acordo com o BBS destinatário. Essas mensagens eram acumuladas com outras recebidas durante o dia, e em um determinado momento o BBS receptor agregava as mensagens em vários pacotes e automaticamente ligava para cada um dos BBSs destinatários, enviando (e recebendo) pacotes de mensagens.

Versões mais avançadas faziam roteamento inteligente. Um BBS no Rio recebia mensagens de vários BBSs locais, conectava com um BBS de São Paulo e esse roteava as mensagens, em uma série de ligações locais, o que saía bem mais barato.

Em essência era o mesmo que seu computador ou celular está fazendo neste exato momento, apenas milhões de vezes mais lento, e mais caro.

Com a FIDONET tivemos o primeiro vislumbre de um mundo maior, mas a grande revolução foi a Internet, possibilitada pelos BBSs, que a abraçaram mesmo sabendo que seria sua sentença de morte.

Em 1989 surgiu o Alternex, o primeiro provedor de Internet do Brasil. Era uma iniciativa do Ibase, uma ONG criada por Herbert de Souza, o Betinho, irmão do Henfil. Pouquíssima gente tinha conta no Alternex, eles só abriam acesso para os próprios funcionários ou conhecidos. Na época eu consegui acesso por trabalhar em um sindicato da CUT, então tínhamos uma conta oficial.

Home da Alternex em 1998 (Crédito: Archive.org)

Não era exatamente user friendly, digamos que você que se virasse configurando o famoso Trumpet Winsock, discadores, etc. Não havia browser gráfico, a World Wide Web estava em sua infância. As principais interações eram através de email e com protocolos de gerenciamento de documentos como Gopher e seu sistema de buscas Veronica. Arquivos eram baixados e subidos via FTP, tudo em linha de comando em terminais Unix. Eventualmente clientes gráficos começaram a aparecer para Windows, mas nessa época a Internet ainda era essencialmente texto.

O pouco acesso WWW era feito através de um navegador chamado Lynx, em modo texto. Surpreendentemente ele existe até hoje. Em 1994 dois sujeitos, Marc Andreessen e Eric Bina escreveram um navegador gráfico, o Mosaic, que mesmo com capacidades bem precárias era muito superior a uma interface 100% textual.

Enquanto os privilegiados do Alternex começavam a explorar a Web, outros mais privilegiados ainda ganhavam acesso através da Embratel, na época estatal. Surgiu uma casta de VIPs que recebiam as contas de acesso, inacessíveis aos reles mortais. Quando os BBSs tentaram entrar no mercado de provedores, foram barrados.

Folha, no Lynx e Meio Bit no Mosaic. Dá pra dizer que não estão funcionando tão bem quanto antigamente (Crédito: Carlos Cardoso)

A Embratel tinha um plano de liberar 10 mil acessos de internet discada por ano, e monopolizar o mercado. Na palavra do então Presidente do Sindicato dos Funcionários da Embratel, “A Internet é importante demais para ficar na mão de empresas privadas”. Por sorte Sérgio Motta, então Ministro das Telecomunicações bateu com o chouriço na mesa e disse que vai ter provedor privado SIM!

As operadoras de backbones começaram então a vender links, e os BBS se tornaram provedores. Ainda com o serviço de BBS, mas com acesso internet também.

Tudo muito humilde no começo, provedores com 100 linhas de acesso discado compartilhavam um link de 64Kbps. Dá pra imaginar que ninguém fazia muito streaming de 4K HDR, se bem que nenhuma dessas palavras sequer existia.

A internet textual ainda teve uma sobrevida com o MIRC, e os Instant Messengers (oh-oh) chegaram quase ao ponto de inventar as redes sociais. Os fóruns locais dos BBSs foram substituídos por newsgrupos da Usenet e por listas de discussões, como o saudoso Yahoo Grupos. Alguns BBSs com usuários mais fiéis, como o Infolink e o Mandic sobreviveram por mais algum tempo, mas com a chegada de novos usuários migrando direto para o lado provedor.

Outros tempos. Não ria! (Crédito: Arquivo pessoal)

De um grupo de amigos que aos trancos e barrancos conseguiram se conectar ao BBS, configuraram seus PCs, descobriram um novo mundo online, os provedores se tornaram isso, provedores de um serviço, sem alma, sem rosto. Provedores tinham suporte, mas não tinham um SySop para botar ordem na casa, aplacar as brigas, resolver as encrencas.

Era tradicional em quase todo BBS um encontro periódico entre os usuários. No velho Unikey via gente até de Petrópolis para conversar e beber cerveja. Os grupos eram os mais ecléticos possíveis. Sem pensar muito um encontro do Unikey envolvia pelo menos um engenheiro ferroviário, dois milionários, uma geneticista, um monte de programadores, advogados a granel e até um garoto de 13 anos que vinha com os pais, e era tratado como um igual, pois todo mundo havia se conhecido através de um nickname em uma tela.

Com a popularização da Internet surgiram os encontros de usuários do MIRC, mas não eram a mesma coisa. Eram encontros sempre de uma fração dos usuários de uma sala, ninguém vai vir do Acre para encontrar um pessoal em São Paulo. Fora as salas bem regionais, nenhum encontro conseguia reunir uma fração considerável de usuários, e a própria volatilidade do serviço não facilitava a criação de amizades duradouras.

O bom e velho MIRC, mas bom mesmo era pra pegar arquivos educativos (Crédito: Reprodução Internet)

Não vou ser ingrato dizendo que não conheci pessoas incríveis e não fiz amizades eternas nas listas de discussão, que por anos mantiveram vivo o espírito dos fóruns dos BBS, mas não era a mesma coisa. Não havia mais a sensação de pioneirismo, de estar desbravando um território novo.

Hoje uma nova rede social, um novo serviço, um novo site é só isso, mais do mesmo. O pessoal da velha guarda compartilha da mesma atitude blasê da molecada que já nasceu com um celular na mão, e que acha que qualquer coisa abaixo de 300Mbps de link é digna de homens das cavernas.

Não vou fazer discurso saudosista, dizendo que antigamente que era bom. Não era. Bom é abrir uma Amazon Prime ou Netflix e escolher entre milhares de filmes, assistindo até na rua. Bom é ter acesso instantâneo a uma razoável fração de todo o conhecimento acumulado da Humanidade, ou a boa parte de todas as fotos da Luciana Vendramini.

Levamos muito tempo até chegar no futuro, e ele é maravilhoso, mas nem por isso há problema em olhar para trás de vez em quando e admirar a longa e tortuosa estrada até aqui.

De resto, se você é um jovem que acha o presente “meh”, siga meu conselho: Não se prenda ao passado, aproveite o presente e saboreie a curiosidade de imaginar que o futuro está sendo inventado neste exato momento, em um laboratório bilionário, ou em uma garagem.

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