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NASA captura um eclipse. Em Marte

Um eclipse é sempre algo legal de se ver, ainda mais quando se usa ciência avançada para isso, e o eclipse é filmado em outro mundo

22/04/2022 às 20:09

Mesmo no Século XXI, um eclipse ainda é um fenômeno que mobiliza multidões, por mais conhecidos e explicados os mecanismos que causam os eclipses, eles ainda mantêm uma aura mística. Hoje não acreditamos mais que eles prenunciam a queda de Impérios (exceto o povo da astrologia), mas ainda há dificuldade em acreditar que algo tão majestoso é natural.

DSCLP (Crédito: editoria de arte / Universe Sandbox)

Um velho meme perpetuado pela população protestante nos Estados Unidos diz que uma prova da existência de Deus é a posição da Terra em órbita do Sol. Dizem que se a Terra estivesse 10 metros mais próxima do Sol, todos morreríamos queimados, e se fosse 10 metros mais distante, morreríamos congelados.

Isso, claro, é uma bobagem, esse conceito só funciona em um Universo com uma Terra Plana e onde ninguém inventou o conceito de escada, fora que a órbita da Terra é elíptica, no ponto mais próximo chegamos a 146 milhões de quilômetros do Sol, no mais distante, 152 milhões. 

Felizmente a turma que espalha a fake news acima não conhece outro factoide bem mais espinhoso e complicado de explicar, e o máximo que os cientistas conseguem chegar em termos de consenso, é que é apenas uma coincidência:

Eclipse solar total de 21 de agosto de 2017 (Crédito: NASA/Gopalswamy)

Os eclipses do Sol são especialmente dramáticos na Terra, pois a Lua cobre exatamente o disco solar. O diâmetro aparente dos dois astros é o mesmo. Isso não ocorre em nenhum outro lugar do Sistema Solar. A explicação em si, é simples: A Lua tem um diâmetro 400 vezes menor do que o Sol, mas o Sol está 400 vezes mais distante, assim o tamanho dos dois é quase o mesmo.

Nem sempre foi assim, no passado a Lua estava bem mais próxima, e nos eclipses cobria o Sol totalmente, os dinossauros cientistas não conseguiam estudar a coroa solar durante os eclipses. No futuro, com a Lua se afastando da Terra a 3,78 cm por ano, eclipses totais serão coisas do passado. 

Outros planetas, nem isso. Vênus e Mercúrio não possuem luas, e por causa da atmosfera espessa e opaca, mesmo que Vênus tivesse uma lua, você jamais conseguiria ver um eclipse da superfície. Ou estrelas. Ou na verdade qualquer coisa, estaria ocupado morrendo horrivelmente na temperatura de 470 graus Celsius. 

A nada hospitaleira superfície de Vênus — sim, já estivemos lá (Crédito: Don Mitchell / CCCP)

Gigantes gasosos possuem um bom número de luas, e passam por eclipses frequentes, mas como o Sol está bem mais distante, eles são menos dramáticos, a sombra que projetam é pequena, e você não conseguiria ficar de pé na superfície deles anyway, a parte “gasosos” meio que explica o porquê.

Em Plutão, que é sim um planeta (perguntem ao Jerry Smith), tem uma lua de tamanho substancial e eclipses, mas por questões de mecânica orbital, Plutão tem eclipses por dois ou três anos, depois passam 120 anos sem nenhum.

Para o afegão médio, eclipses são imprevisíveis, eram considerados sinais dos céus, e influenciavam o resultado de batalhas. Mas os astrônomos da antiguidade, que tinham tempo para observar o céu por décadas, começaram a perceber padrões, tanto eclipses do Sol como da Lua aconteciam em intervalos regulares. 

Incas apavorados com um eclipse da Lua. Descrito por Garcilaso de la Vega, circa 1737 (Crédito: JCB Library)

Não tão simples quanto o movimento planetário, mas gradualmente constataram que eclipses ocorrem em duas temporadas de 35 dias, duas vezes ao ano, que eclipse do Sol só acontece com a Lua Nova, Gente muito mais inteligente que a gente usou geometria e trigonometria e chegou a fórmulas para calcular com precisão um eclipse.

Em um mundo ideal, na Terra teríamos um eclipse por mês, quando a Lua passasse na frente do Sol, em kerbin, no Kerbal Space Program, é assim que funciona, mas como o plano orbital da Terra em torno do Sol é inclinado, e o plano orbital da Lua em torno da Terra também é inclinado. Juntando isso tudo, temos umas contas bem chatinhas, a ponto do primeiro computador do mundo, o Mecanismo de Antikythera ter, entre outras funções, a capacidade de calcular eclipses.

Hoje isso é tão trivial que a NASA tem um site listando todos os eclipses solares, de 2000 Antes de Cristo até o ano 3000. O que é menos trivial é aplicar esse conhecimento para outros mundos, mas a NASA é a NASA.

Os astrônomos têm tabelas de eclipses em Marte, e usam isso para programar seus robôs e tentar capturar o evento. Com a vantagem de dificilmente estar chovendo no dia. 

A única desvantagem é que como Marte está mais distante do Sol do que a Terra, o Sol aparece menor no céu. Junte a isso as luas marcianas serem pedregulhos, e o resultado não é espetacular. Fobos tem 27 quilômetros de diâmetro, Deimos só tem 15. A nossa Lua tem 3474 quilômetros de ponta a ponta. 

Mesmo assim em 2004 o robozinho Opportunity conseguiu fazer fotos de um eclipse de Fobos, e após um de Deimos:

Outros eclipses marcianos foram capturados, e em 2019 a sonda Curiosity fez um vídeo com Fobos cruzando na frente do Sol, lindo mesmo.

Fobos em Marte, 2019 (Crédito: NASA)

Fobos parece uma batata espacial, é pequeno demais para que as forças gravitacionais o transformem em uma esfera. Sua gravidade superficial é 1/1719 da terrestre, se você pular com força, escapa para o espaço. É um excelente lugar para uma futura base. 

Nesta foto feita pela câmera HiRise, orbitando Marte, vemos Fobos em detalhe.

Fobos, fotografado em 2008. (Crédito: NASA / JPL)

Agora, em 2 de abril de 2022, ocorreu mais um eclipse em Marte. Fobos passou na frente do Sol por alguns segundos. Preparada para tudo estava a Perseverance, o mais novo e avançado robô da NASA no planeta vermelho.

Com câmeras de alta resolução e capacidade de vídeo, o eclipse foi capturado em toda a sua glória, para deleite da comunidade astronômica, veja:

Não sabemos se eclipses marcianos serão significativos no futuro, talvez ninguém preste atenção, mas também é possível que toda uma nova mitologia seja criada, com histórias inventadas para divertir crianças, povoando o céu com criaturas místicas e aventuras, tão como fizemos na Terra, milhares de anos atrás.

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