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De olho no blockchain, Square Enix vende estúdios ocidentais

Após o Embracer Group anunciar a compra da Crystal Dynamics, Eidos Montreal e a Square Enix Montreal, editora japonesa afirma que investirá em blockchain

02/05/2022 às 10:39

Na época das grandes aquisições feitas pelas fabricantes de consoles, uma empresa que vem aumentando bastante o seu portifólio é a Embracer Group. Fundada na Suécia em 2011, ela nasceu como Nordic Games Licensing e após adquirir nomes como THQ, Dark Horse Comics, Gearbox Entertainment e Koch Media, chegou a hora do conglomerado investir em diversos estúdios da Square Enix.

Lara Croft terá uma nova casa (Crédito: Divulgação/Crystal Dynamics)

O anúncio pegou muita gente de surpresa por diversos motivos, a começar pelos nomes envolvidos no negócio: Crystal Dynamics, Eidos Montreal e a Square Enix Montreal. Isso quer dizer que a empresa japonesa deixará de comandar todos os estúdios ocidentais que possui, além de perder mais de 1.100 funcionários espalhados por oito países.

Contudo, talvez o mais importante na aquisição do Embracer Group seja a confirmação de que franquias como Tomb Raider, Thief, Legacy of Kain e Deus Ex passarão a ser suas. Além disso, o acordo também fala sobre a troca de controle para outras 50 marcas de catálogo, mas ainda não sabemos quais são elas.

Por enquanto, a Square Enix afirmou que continuará publicando jogos para as séries Just Cause, Life is Strange e Outriders. Contudo, a maior curiosidade recai sobre o futuro dos direitos de licenciamento que os japoneses possuem para jogos da Marvel, como Vingadores e Guardiões da Galáxia. Como eles eram feitos pelos estúdios ocidentais da companhia, é possível que a editora também os tenha incluído na venda.

Mas independentemente dos títulos que fazem parte dessa baciada de aquisições feitas pelo Embracer Group, o valor fechado para o negócio é outro aspecto que tem chamado atenção. Com empresas sendo vendidas por vários bilhões de dólares nos últimos anos, os US$ 300 milhões a serem pagos à Square Enix parece uma pechincha. A título de comparação, só a compra da Gearbox poderá ultrapassar a marca de US$ 1,3 bilhão, enquanto a Saber Interactive custou US$ 525 milhões aos suecos.

Quando renasce a esperança por um novo Legacy of Kain (Crédito: Reprodução/Dmitry Desyatov/ArtStation)

Quanto as franquias que já sabemos que trocará de mãos, apenas a Tomb Raider tem o seu futuro revelado, com o próximo jogo estrelado pela Lara Croft estando em desenvolvimento na Crystal Dynamics, com a Unreal Engine 5. Fica, portanto, a expectativa para que os novos donos finalmente desenterrem séries tão adoradas como a Legacy of Kain, mas que, principalmente, façam isso corretamente.

O que também está confirmado é o envolvimento da Crystal Dynamics na criação do novo Perfect Dark. Embora a marca pertença à Microsoft, o estúdio vinha ajudando a The Initiative no projeto e através do Twitter foi confirmado que a parceria continuará, mesmo após a venda. Para os fãs da franquia, essa deve ser vista como uma boa notícia, já que a subsidiária da Gigante de Redmond perdeu várias figuras importantes nos últimos meses.

Square Enix e os jogos blockchain

Yosuke Matsuda, presidente da Square Enix

O presidente da Square Enix, Yosuke Matsuda (Crédito: Divulgação/Square Enix)

Mas enquanto as pessoas que gostam das séries adquiridas pelo Embracer Group estão renovando suas esperanças, aquelas que admiram as marcas que continuarão com a Square Enix já começam a olhar para o futuro da empresa com alguma desconfiança.

Em comunicado enviado à imprensa, a Square Enix afirmou que graças a esse negócio estará mais preparada para se adaptar a maneira como o mercado tem mudado. Segundo eles, “a transação permite o lançamento de novos negócios, avançando com o investimento em campos como blockchain, inteligência artificial e nuvem.” A nota afirma ainda que esse movimento vai de encontro à política de otimização estrutural da empresa que visa o médio prazo.

Em abril o presidente da Square Enix já tinha revelado em entrevista ao Yahoo Japan o desejo da empresa em explorar os jogos “play to earn”. Segundo Yosuke Matsuda, “até agora, na maioria dos jogos, nós fornecemos o conteúdo como um produto finalizado e os jogadores jogam esse conteúdo.” Ele então concluiu dizendo haver alguns jogadores que “querem contribuir para tornar os jogos mais interessantes ao criar configurações e maneiras de jogar.”

Assim como outras empresas do ramo, Matsuda tem defendido que tendências como blockchain, NFTs, microtransações e criptomoedas poderão ajudar no crescimento autossustentável dos jogos, com o público podendo lucrar com suas “contribuições”. Contudo, a posição do executivo tem sido criticada por parte dos consumidores e por desenvolvedores de jogos, principalmente os independentes.

A revolta de Naka

Balan Wonderworld - Square Enix

O decepcionante Balan Wonderworld (Crédito: Divulgação/Square Enix)

Para aqueles que não concordam com esse caminho que começa a ser feito pela Square Enix, o problema está no risco de a empresa deixar em segundo plano aquilo que é considerado o mais importante para nós, que é a qualidade. Curiosamente, a revelação por parte da companhia japonesa de que pretendem investir em blockchain o dinheiro da negociação chega justamente após uma dura crítica feita por Yuji Naka.

Diretor do Balan Wonderworld, o game designer usou suas contas nas redes sociais para falar sobre o tumultuado desenvolvimento do jogo publicado pela Square Enix em 2021. Aguardado ansiosamente como um sucessor espiritual do Nights into Dreams e do Sonic Adventure, o título não foi perdoado pela crítica e na época cheguei a lamentar a maneira como a carreira de Naka estava se deteriorando.

Ao ser questionado sobre o que havia dado errado na produção, o sujeito que foi um dos responsáveis pela criação do Sonic disse que não se manifestaria e sugeriu que sua aposentadoria podia estar próxima. O problema é que por ter entrado com uma ação na justiça contra a Square Enix, ele estava impedido de falar.

O que levou o game designer a tal atitude foi o fato de ter sido removido do projeto cerca de meio ano antes dele ser concluído. Segundo Naka, quem pediu o seu desligamento foi o produtor, o chefe de marketing, o chefe de som e o diretor administrativo do Balan Wonderworld, com dois motivos tendo sido apresentados: o primeiro teria sido a utilização de uma música rearranjada por um Youtuber, com o japonês preferindo a original; já o segundo estava relacionado ao desempenho do jogo, com o diretor exigindo mais tempo para o título ser aprimorado.

Afirmando lamentar por aqueles que compraram o que classifica como um “inacabado Balan Wonderworld”, Yuji Naka ainda declarou que quando está criando um jogo, é natural que faça correções para torná-lo bom. Como exemplo ele citou o Sonic the Hedgehog, projeto que alterou até duas semanas antes de ser concluído, o que permitiu que o jogador não morresse mesmo se o personagem ainda carregasse consigo apenas um anel.

Por tudo isso, Naka disse em seu desabafo que a Square Enix não se importa com os games. Talvez haja um pouco de exagero (e muito de amargura) em suas palavras, mas se considerarmos o que tem surgido sobre a empresa nos últimos meses, fica difícil não concordar com tal sua opinião.

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