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Resenha: Star Trek - Strange New Worlds

Star Trek é uma franquia de 56 anos, que vem renascendo. Agora, com Strange New Worlds, ela voltou às raízes

07/05/2022 às 20:50

Sempre digo que estamos vivendo a Era de Ouro de Star Trek, depois de um longo e tenebroso inverno, temos várias séries simultâneas, uma franquia de cinema e mais produções em andamento, mas nem tudo são flores.

A tripulação principal (Crédito: Paramount+)

Cada nova série tem seus problemas, os fãs mais antigos sempre demoram a aceitar as mudanças, mas eventualmente, por volta da 2ª temporada tudo já está nos eixos. Com Star Trek: Discovery não foi assim.

Discovery foi criada como uma versão de Star Trek para o público millenial, e sofre de todos os problemas associados. Toda ameaça é máxima, sempre a GALÁXIA está em risco. Todo mundo está repleto de dramas pessoais. Como um amigo comentou, todos os relacionamentos estão no 11.

Ninguém CONVERSA em Discovery, é sempre uma interação dramática, nunca dois personagens conversam naturalmente. Um casal em seus afazeres matinais? Quando um levanta para ir trabalhar, parece que está indo pra guerra.

Uma protagonista que passa o tempo todo demonstrando que não queria estar ali, e chora o tempo todo também não ajuda, mas o pior foi simplificarem Star Trek para uma nova geração. Na Jornada nas Estrelas Clássica, tínhamos algo essencial na boa ficção científica: A discussão de temas sociais através de metáforas e alegorias.

Em Let That Be Your Last Battlefield, a Enterprise encontra dois alienígenas envolvidos em uma luta mortal. São duas subespécies de um mesmo planeta, a única variação entre eles é que um tem o rosto preto do lado esquerdo e branco do lado direito, e o outro é invertido.

Star Trek podia ser sutil como um rinoceronte (Crédito: CBS)

Vemos os personagens despejarem todo tipo de discurso preconceituoso, explicando como o outro é geneticamente inferior, que nasceu para ser escravizado, etc, etc. A tripulação da Enterprise tenta explicar que, para eles, ambos são virtualmente idênticos.

É uma alegoria óbvia sobre racismo, e funciona maravilhosamente bem. Uma abordagem direta do tema viraria lição de moral, e o espectador médio mudaria de canal, mas com a roupagem da ficção científica, a mensagem foi passada. Em janeiro de 1969.

Discovery não consegue ter essa sutileza, e cansa ver os personagens quase parando tudo para explicar a lição de moral da semana.

Você NUNCA verá Michael Burnham falando isso. (Crédito: Paramount+)

Por isso tudo a maioria dos fãs se afastou, Trekkers acharam abrigo em The Orville, uma série que é uma enorme homenagem à Série Clássica. Lower Decks é ótima mas não tem muita consequência, por ser animação, e Prodigy, bem, Prodigy é Star Trek, mas para crianças. Faltava uma série adulta, não-depressiva. E Picard não conta, Picard é sobre Picard, não Star Trek.

Eis que no último episódio da primeira temporada de Star Trek: Discovery, os adultos chegam para botar ordem na casa. O episódio termina com o aparecimento da USS Enterprise, sob o comando de Christopher Pike.

Pike (Anson Mount) é o oposto de Michael Burnham, ele é muito mais James Kirk, é um oficial da Frota Estelar, comandando uma nave com uniformes coloridos, Spock e sua Primeiro-Oficial, interpretada por Rebecca Romijn. Eles participam da segunda temporada, provendo um necessário contraste, comparados com a tripulação movida a Lítio da Discovery.

No final, os fãs ficaram encantados com Anson, Ethan Peck (Spock) e o resto do elenco da Enterprise. Uma campanha em redes sociais atolou os produtores com pedidos de uma série, e não deu outra: Anunciaram Star Trek: Strange New Worlds, que soa meio como heresia, uma série de Star Trek, na Enterprise, sem o Capitão Kirk, mas ó Pike de Anson garantiu um voto geral de confiança.

Agora, finalmente, depois de atrasos de COVID, Strange New Worlds chegou, com a promessa de ser uma série mais leve, otimista, episódica, explorando questões atuais usando metáforas e alegorias, sob o manto da ficção científica. Basicamente Star Trek: Strange New Worlds é a Jornada nas Estrelas criada por Gene Roddenberry, 56 anos atrás.

A nova antiga Enterprise está linda! (Crédito: Paramount+)

Essa é uma proposta complicada, uma imensa responsabilidade, esse conceito de série alienar os fãs de Discovery, e terá que passar pelo crivo de gerações que entendem a Série Clássica e A Nova Geração como seus livros sagrados.

Pois bem, crianças, eles conseguiram! Os magníficos bastardos conseguiram. Strange New Worlds é tudo que prometeram e muito mais.

O primeiro episódio, convenientemente chamado de Strange New Worlds, começa com Christopher Pike em uma cabana em Montana, isolado do mundo, tendo apenas a companhia de uma amiga da Frota. Ele precisa decidir se volta para o serviço ativo, depois de uma experiência traumática.

Trocaram o monitor 4:3 do Kirk por uma tela gamer ultrawide (Crédito: Paramount+)

Como ele não atende o telefone, recebe a visita do Almirante Robert April, o 1.º comandante da USS Enterprise e antigo capitão de Pike. April explica que a Número Um, a 1.ª Oficial de Pike desapareceu durante sondagens de um planeta, e que ele vai tirar a Enterprise do estaleiro antes do tempo, para que Pike vá atrás dela.

Meio relutante Pike aceita a missão.

A nova antiga Enterprise sofreu modernizações, os visuais dos Anos 60 não funcionariam mais nos tempos de hoje, ela está bem mais espaçosa, mas sem a praga dos controles e painéis holográficos da Discovery. Os sons são os mesmos, fãs da velha guarda reconhecerão cada apito.

Na ponte logo de cara encontramos Celia Rose Gooding, como a Cadete Uhura, cheia de jovialidade mas competente até o talo, nos primeiros cinco minutos já vemos que ela é muito mais do que a telefonista da nave.

Na enfermaria, quem comanda é o Dr. M'Benga (Babs Olusanmokun), que apareceu em dois episódios da Série Clássica. Ele é auxiliado pela Enfermeira Chapel, a ótima Jess Bush. O relacionamento médico-enfermeira é ótimo, mesmo quando um alienígena que deveria permanecer desacordado levanta e Chapel tem que sair correndo atrás dele pela nave, em uma cena que se fosse em Discovery envolveria drama, alerta vermelho e gente implorando pro sujeito se render.

M'Benga e Pike são velhos amigos, uma tradição em Star Trek, que Discovery como sempre ignorou (Crédito: Paramount+)

Ele acaba sendo capturado depois que encontra Uhura no turboelevador, ela puxa papo falando sobre um esporte do planeta do sujeito (ela é especialista em xenoculturas) e a enfermeira Chapel aplica um sedativo quando ele não estava olhando.

Após isso elas se olham, se apresentam e se cumprimentam. Sem drama, colegas de trabalho se conhecendo no emprego novo.

O Capitão Pike, Spock e a Número Um Interina, La'an Noonien-Singh (Christine Chong) descobrem que a Número Um e outros tripulantes da USS Archer são prisioneiros de uma das duas fações que disputam o controle do planeta.

Eles haviam sido atraídos por uma assinatura de dobra espacial, que era o sinal de que uma espécie era evoluída o bastante para um Primeiro Contato com a Federação, mas na verdade a tal fação criou uma Bomba de Dobra, e pretendia aniquilar os inimigos.

Depois das clássicas idas e vidas de um bom episódio de Star Trek, Pike acaba cara a cara com a líder de uma das facções. Ele explica que a Bomba de Dobra que a facção dela criou só foi possível porque seus cientistas analisaram dados de uma batalha da Federação alguns anos atrás, e que eles não deveriam usar uma tecnologia tão avançada.

Ela não fica impressionada, diz que as palavras são bonitas mas o importante é ter um grande porrete, quem tem o porrete maior, vence. Isso foi uma referência direta à politica de Teddy Roosevelt, que dizia “Fale manso mas carregue um grande porrete”.

Spock lembra Pike que eles estão impedidos de interferir, pela Ordem Geral 1, mas Pike racionaliza que como o planeta já vai começar uma guerra por causa de tecnologia da Federação, eles já interferiram.

A líder não se comove, e manda seus soldados prenderem Spock e Pike. Este então aciona os comunicadores em modo de emergência (quem diria, eles têm Alexa no Século XXIII) e manda a Enterprise entrar em órbita baixa, e sobrevoar a cidade. Pânico generalizado se sucede, a Líder vai pra janela, em meio a sirenes de ataque aéreo. A Enterprise, em toda sua glória, é vista por toda a cidade.

Pike encerra: “Como você mesma disse, quem tem o maior porrete, ganha. No caso, esse sou eu”

O Capitão em seguida faz um belo discurso mostrando que a Terra já foi primitiva como eles, que tentamos resolver nossas diferenças com violência, o que levou a uma guerra civil, guerras eugênicas e uma Terceira Guerra Mundial. O discurso é transmitido para todo o planeta, com direito a vídeos das guerras terrestres, acho que ele anda com um pendrive pronto, caso precise.

Entre os vários clipes que Pike mostra, está a forca que os imbecis que invadiram o Capitólio ergueram. Quem disse que Star Trek precisa ser sutil? (Crédito: Paramount+)

Pike explica que eles podem entrar em guerra entre si, ou se unir à Federação e alcançar as estrelas. Pela primeira vez em cem anos, as duas partes beligerantes se encontram, iniciando o processo de paz.

Ao mesmo tempo em que Pike violou um monte de regras ao expor a Enterprise, e literalmente praticar diplomacia de canhoneira, algo que James Kirk também foi acusado de fazer, ele mostrou pro tal planeta que eles podiam cantar de galo nas terras deles, mas o Espaço era muito maior, com gente muito mais poderosa, mas principalmente, e no melhor espírito de Star Trek, ele deixa ao pessoal do planeta a escolha.

Em nenhum momento ele impõe a paz, Pike só mostrou o caminho. Star Trek, ao menos a Star Trek de Gene Roddenberry não é sobre impor sua vontade sobre os outros, não é sobre navinha pewpewpew, nem quem tem o maior exército.

Jornada nas Estrelas é sobre exploração, tanto do Espaço quanto de nós mesmos. É uma utopia onde abandonamos a ganância, a mesquinharia, a desconfiança e nos dedicamos a nos aprimorar, como indivíduos, como grupos, como sociedade.

Jornada nas Estrelas é sobre a fascinação da descoberta, é encarar os mistérios do Universo de mente aberta, aceitar um mundo de infinita diversidade em infinitas combinações, é usar Ciência e Tecnologia para acabar com fome, guerras, miséria e doenças.

Star Trek: Strange New Worlds ainda está em sua gênese, só tivemos um episódio, mas depois de tantos anos, consumindo tanto de Star Trek, posso dizer: Faz muito, muito tempo que não vejo um primeiro episódio tão bom, e tão Star Trek.

Talvez essa série seja uma resposta aos tempos tenebrosos que estamos vivendo. Talvez ela seja o que estava faltando na TV: Esperança. Otimismo. E quem diria que tudo que precisavam fazer era pegar Discovery e multiplicar por menos um.

Pike encerra sua entrada no diário de bordo com uma declaração de otimismo, e pontua com "Eu sou um homem de sorte" (Crédito: Paramount+)

Se há um ponto que ficou esquisito em Strange New Worlds foi a decisão de usar o máximo de objetos de cena originais. Os tricorders, comunicadores, o fone Bluetooth da Uhura, são os mesmos ou bem parecidos com os de 1966, e isso destoa completamente da estética moderna. Mesmo assim, que não mudem nada, a gente acostuma!

Star Trek: Strange New Worlds passa na Paramount+.

Cotação:

5/5 Pingos, que com certeza vão aparecer em algum momento.

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