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Resenha: Top Gun Maverick — Deixando o passado para trás

Top Gun Maverick é a esperada continuação do filme de 1986, que marcou uma geração e cimentou Tom Cruise como... Tom Cruise

23/05/2022 às 23:35

Top Gun foi o Star Wars de sua geração, e essa geração já tinha assistido O Império Contra-Ataca. Um filme repleto de testosterona que por algum motivo chamado Tom Cruise era igualmente atraente para as meninas. Foi um fenômeno que ninguém conseguiu antecipar, e irrita aviadores navais até hoje.

Yes, é Tom Cruise realmente decolando de um Porta-Aviões em um F-18 (Crédito: Paramount Pictures)

Top Gun passa uma imagem glamurosa, até demais do que é ser um piloto de caça, com aventuras, festas, uniformes impecáveis e pilotos imortais (exceto o Goose), não fala das longas horas de estudos, treinos exaustivos, tensão, medo e incerteza.

Talvez por isso no curso do United States Navy Strike Fighter Tactics Instructor program, havia uma caixinha onde qualquer piloto que fizesse uma referência a Top Gun deveria depositar US$5,00, que no final do curso seriam convertidos em cerveja, mas a verdade é que secretamente todos eles adoravam Top Gun.

A grande diferença para a realidade é que não existia um troféu Top Gun, era um curso, não um concurso. Se houvesse um prêmio provavelmente todo mundo teria se matado antes do final do curso, tentando obter o primeiro lugar.

O Tenente Pete Mitchell faz jus a seu nome de guerra, Maverick, que significa um sujeito independente, não-ortodoxo, que escreve as próprias regras. Os nomes de guerra em Top Gun, aliás, são uma beleza à parte.

Todo mundo tem nomes legais, como Iceman, Jester, Ghost. Na realidade nomes de guerra de pilotos são pura zoeira. Alguns exemplos:

  • CYNDI — Check You're Not Dumping, Idiot. O sujeito fez uma aproximação para pousar num porta-aviões com a válvula de alijamento (dump) de combustível aberta. Encheu o convés de querosene;
  • Marilyn — Nome de guerra do Capitão M. Monrowe;
  • Alphabet — O nome do sujeito era Varsonofy Krestovozdvizhensky;
  • Banjo — Busted Ass-Naked Jacking Off (bota no Google);
  • Brokeback — O nome do sujeito era J. P. Mountain.

A regra principal é que você nunca escolhe seu próprio nome de guerra.

Claro, isso não vale para Top Gun, nem para Top Gun Maverick, um filme com a nada invejável tarefa de suceder um filme perfeito. O Top Gun original tem romance, tensão, ação, um inimigo implacável e desumanizado, na forma dos caças inimigos de um país indeterminado (é a Rússia).

No roteiro dizem que o inimigo é a Melhor Coréia, mas é a Rússia (Crédito: Paramount Pictures)

Maverick tem em Iceman um rival, e seu maior desafio é vencer a si mesmo, aprender a trabalhar em equipe, ao mesmo tempo em que supera a morte de Goose, seu melhor amigo. No último momento ele se recupera, salva todo mundo, salva o dia e derruba três caças inimigos.

Top Gun, como já disse, é um filme perfeito, um blockbuster com uma trilha sonora perfeita de Harold Faltermeyer, e músicas igualmente perfeitas como Take My Breath Away, do Berlin, e Danger Zone, de Kenny Loggins, que provoca picos de adrenalina em qualquer criatura remotamente humana viva ou morta por menos de 15 dias. O resultado foi uma bilheteria mundial de quase US$1 bilhão em valores de 2022. O campeão absoluto, número 1 em 1986.

Top Gun Maverick deveria ter sido lançado em 2019, mas uma tal de COVID atrasou a pós-produção, depois os cinemas foram fechados, e só agora o filme foi lançado. Nesse meio-tempo Tom Cruise se recusou a lançar o filme em serviços de streaming, e fez ele muito bem.

Maverick é para ser visto na tela grande, com seqüências aéreas de tirar o fôlego, mas o filme é muito mais do que um espetáculo visual.

A fotografia do filme é linda (Crédito: Paramount Pictures)

Normalmente esses filmes são feitos para “corrigir o passado”, trazer uma versão mais politicamente correta da história, como o mesmo assim ainda delicioso SHAFT, da Netflix. Top Gun Maverick não é isso. O mundo mudou, sim, mas Maverick não aprendeu nada.

Ele não está mais velho e mais sábio. Ele continua o mesmo sujeito arrogante, desinteressado, que só quer saber de voar seus aviões. Sem se qualificar para promoções, ele ainda é um Capitão de Mar e Guerra, enquanto todos os seus colegas prosseguiram com suas carreiras. Iceman chegou a Comandante da Frota do Pacífico.

Maverick ainda é o melhor no que faz, mas o que ele faz está se tornando obsoleto. Drones irão substituir pilotos, e ele não está ficando mais jovem. Mesmo assim não dá para dizer se Maverick está se sentindo ameaçado.

Maverick não sente nada, ele está em uma zona oposta à uma zona de perigo, ele está em uma zona de conforto com seus aviões, e servindo como piloto de testes da Marinha, até que é chamado para uma missão, que será sua última.

Ele precisa treinar um grupo de pilotos para uma missão impossível (viu o que eu fiz aqui?), destruir uma usina de purificação de Urânio de uma nação rebelde (é o Irã, eles colocaram cenário com neve pra confundir, mas é o Irã), mas a usina está em um vale que só pode ser alcançado voando através de um cânion.

Um grupo de pilotos marrentos como ele (Crédito: Paramount Pictures)

Felizmente em Top Gun Maverick Tom Cruise estava acostumado a voar em seu T-16 através do cânion Beggar’s e acertar ratos Womp, que não são muito maiores que as portas de 2 metros que seus mísseis precisam atingir para explodir a usina.

Sim, essa fase do filme é basicamente Star Wars, e lembra totalmente uma missão do Tom Clancy's H.A.W.X., mas... QUEM SE IMPORTA?

Maverick tem pouquíssimo tempo para treinar seus pilotos, e ainda tem que lidar com Rooster, o filho de Goose. Rooster odeia Maverick com todas as suas forças, nunca o perdoou por ter matado seu pai, e mesmo totalmente inocente, Maverick ainda se sente culpado pela morte de Goose. Ah sim ele também sacaneou Rooster em outro momento.

Top Gun Maverick é superficialmente um filme de ação, mas também é um filme sobre mortalidade, sobre acertar pontas soltas, fazer as pazes com o passado. Não é questão de fingir que ele não aconteceu, Maverick fez isso ao se afastar de Rooster e deu no que deu.

O grande crescimento de Maverick no filme é aprender que ele pode sim ser um professor, que todo seu conhecimento instintivo pode ser ensinado. Sua vida parou depois da morte de Goose, sem filhos, sem família, o melhor de todos em uma atividade específica, mas a que preço?

No final Maverick se vê obrigado a acompanhar os alunos na missão suicida, e pela primeira vez ele se despede sem saber se irá voltar, o que confunde sua antiga, bem antiga namorada, Penny. Sim, a filha do Almirante mencionada no primeiro Top Gun.

Ela é interpretada por Jennifer Connelly, um excelente motivo pra derrubar toda a Força Aérea do Irã (sim, é o Irã!) e voltar pra casa, mas irá Maverick voltar? Ou fará o sacrifício supremo, salvando Rooster, sabendo que o futuro está seguro, nas mãos de uma nova geração de pilotos?

Ai ai... Jennifer Connelly... desde Labirinto. Paul Bettany é um homem de visão (Crédito: Paramount Pictures)

Perguntas e Respostas

Tem saudosismo do primeiro filme?

A abertura, ao som de Danger Zone, é uma recriação moderna do filme original de Tony Scott, uma bela homenagem ao falecido diretor e uma forma de colocar a adrenalina de todo mundo na temperatura correta.

Tem Tomcat?

No trailer aparece um Tomcat voando, e o único país que ainda voa Tomcats, usando peças compradas no mercado negro e gambiarras, é o Irã (eu falei que era o Irã). Então, tem Tomcat voando sim.

Tem vôlei homoerótico?

Não, dessa vez é um jogo de futebol americano na praia, mas bem família, com as pilotos mulheres participando. Para tristeza de Quentin Tarantino.

Tem Fat Amy?

Não. Top Gun Maverick defende que o piloto é mais importante do que a máquina, então nada de F-35, aquele Playstation com asas. Eles voam o Boeing F/A-18E/F Super Hornet, ainda um excelente caça multipropósito, mas que não é páreo para os Sukhoi Su-57 do inimigo.

Sim, nesse universo onde há montanhas com pinheiros no Irã, os russos venderam Su-57 para seus aliados.

Eles juram que isso é o Irã, sem chamar de Irã, claro (Crédito: Paramount Pictures)

NOTA: Sim, eu sei que tecnicamente há montanhas com pinheiros no Irã, mas não grandes florestas e definitivamente não perto do Golfo Pérsico. A menos que o ataque tenha sido lançado do Mar Cáspio, e o fato de terem feito um porta-aviões chegar lá por si só daria um filme bem interessante.

Teerã, no inverno. Sério (Crédito: Reprodução Twitter)

Tem Tom Cruise correndo?

É um filme do Tom Cruise, claro que tem cena dele correndo.

Tem cena pós-créditos?

Não.

Tem voos de verdade e é um filme realístico?

Boa parte dos voos é de verdade, com os atores passando por um bom treinamento para voar de carona nos F-18, mas não caia no papo de que "não há CGI". Tem sim, bastante computação gráfica, toda cena em que alguém aparece no assento da frente, é CGI. Algumas manobras perigosas demais foram feitas com computação gráfica, e com certeza os russos não emprestaram Su-57s para a produção brincar.

As táticas e situações também são exageradas, mas e daí? É um filme-pipoca, não um documentário do History Channel, naquela realidade alternativa onde o History passa documentários históricos.

O Su-57 é lindo. Se funciona, são outros 500 (Crédito: Vladmir Putin)

Tem aquele papo de que antigamente era melhor os jovens hoje são todos floquinhos de neve?

Felizmente não. Claro que há uma boa dose de saudosismo em Top Gun Maverick, mas não é um filme saudosista. É um filme que celebra o passado, sua importância e a necessidade de seguir adiante.

Conclusão:

Quem nunca viu Top Gun, não faz a menor idéia do que seja, mas quer assistir a um ótimo blockbuster de avião pewpewpew, vai adorar. Tom Cruise continua tão cativante quanto era TRINTA E SEIS anos atrás. Ele vende Maverick perfeitamente, nós acreditamos que ele é um Jedi.

O perigo soa real, os caças inimigos de 5ª geração parecem ameaçadores. Quer dizer, pareceriam mais se a Guerra na Ucrânia não tivesse mostrado que a tecnologia russa é puro vaporware, mas não é culpa do filme.

O destino de Maverick em certo momento nos preocupa, e de qualquer forma, é uma despedida perfeita para o personagem e para todo o mito em torno de Top Gun.

Top Gun Maverick é um raro filme que não é um remake, não é um reboot, e não é uma simples continuação. É a resolução de uma história, amarração de pontas soltas, é nosso herói cavalgando rumo ao sol poente.

Obrigado Maverick, obrigado Tom Cruise. You've never lost that loving feeling!

Cotação:

5/5 Jennifer Connellys.

Onde assistir:

Nos melhores cinemas, e em alguns mais ou menos, mas não espere streaming, isso é filme pra telão!

Trailer:

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