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Tecnologia: 4 coisas que melhoraram e 3 que ainda rastejam

Tecnologia é algo que nós amamos, mas reconhecemos que algumas simplesmente não evoluem. Vamos conhecer o que melhorou e piorou!

07/06/2022 às 19:30

Eu vou ousar e afirmar algo polêmico: Aqui no Meio Bit nós gostamos de tecnologia, e temos um leve viés em prol de soluções tecnológicas, admito. Mesmo assim tecnologia não é algo perfeito e acabado.

Lembra dessa desgraça? (Crédito: Ed g2s / Wikimedia Commons)

Em outros textos mostramos tecnologia do passado que não existe mais ou foi soterrada por camadas geológicas de interfaces amigáveis. Também já falamos sobre tecnologias que simplesmente desapareceram, como dados em fitas K-7 e câmeras digitais. Hoje vamos ver tecnologia que ainda existe, mas está muito melhor, e coisas que ainda estão na idade da pedra.

Tecnologias que melhoraram incrivelmente

1 – Bluetooth

Tudo fica melhor com Bluetooth, Bluetooth é o bacon dos protocolos de comunicação sem-fio, mas nem sempre foi assim. Introduzido (epa!) em 1998, o protocolo era um meio de comunicação serial voltado para fones de ouvido. Havia muito pouca inteligência envolvida, você precisava que o equipamento hospedeiro soubesse com quem estava se comunicando, antes de iniciar o pareamento.

Emparelhar equipamentos Bluetooth era um parto. Era como configurar uma porta serial COM:.  Aliás, era literalmente isso. A Microsoft ter ignorado o protocolo em sua infância também não ajudou.

Kit Bluetooth para usar com headphones normais. A alimentação era por aquele cabo P2 e sim, ele era imediatamente perdido assim que você tirava da caixa. (Crédito: Arquivo Pessoal)

Conectar equipamentos pouco-ortodoxos era basicamente impossível. Eu me tornei uma pequena lenda no mundo dos PDAs, ao conseguir a primeira conexão Bluetooth entre um celular e um Palm, no Brasil.

Hoje é possível usar equipamentos Bluetooth em mais de um dispositivo sem ter que ficar emparelhando, mouses e teclados funcionam sem problema algum e fones conectam de primeira. Depois de mais de 20 anos, Bluetooth finalmente funciona. Às vezes.

2 – Câmeras digitais

Eu sei, as câmeras digitais foram mortas pelos celulares, em sua imensa maioria, mas as profissionais estão firmes e fortes, e nesse meio-termo as câmeras populares atingiram plena maturidade. Nem sempre foi assim.

A tecnologia das câmeras digitais começou a se popularizar na década de 1990, e em 1994 a Apple lançou sua primeira câmera, a QuickTake 100, pelo equivalente em 2022 a US$1500.

O que você conseguia em termos de tecnologia, com essa grana? Não muito. Resolução VGA, 640x480, e 1MB de memória flash, capaz de armazenar até 8 (OITO!) imagens. A comunicação era via serial, e só funcionava com Macs, mas já era vantagem, a maioria das câmera usava conexão SCSI, e acredite, você não quer mexer com SCSI.

Casio QV-10. Era um horror, mesmo pra época. (Crédito: Reprodução Internet)

Em 1996 a Casio revolucionou o mercado com a QV-10, uma câmera digital que vendeu horrores apesar de ser um horror. Com resolução de 320x240 pixels, ela armazenava 96 fotos, mas dificilmente você tiraria tantas. Alimentada por quatro pilhas pequenas, a autonomia era de menos de uma hora. E vinha com um bug que se a bateria morresse enquanto você gravava uma imagem em Flash (levava 4s a cada foto) o equipamento brickava e só na autorizada para ressuscitarem.

Imagem feita com uma QV-10, tamanho original (Crédito: Reprodução Internet)

Essas câmeras todas tinham em comum a necessidade de software proprietário, que era sempre horroroso, lento e não-confiável. Havia um desejo de prender o usuário a um ecossistema fechado. Quando os cartões de memória surgiram, repetiu-se a estratégia, com a Sony empurrando o Memory Stick, e a Olympus empurrando o tal formato esquisito deles. Quando o SD-CARD e o Compact Flash ganharam a Guerra dos Formatos, tudo ficou mais fácil. Adeus softwares e formatos proprietários. Hoje acessar fotos de câmeras digitais é simples como espetar um cartão.

3 – Reconhecimento de Voz

Todo fã de Jornada nas Estrelas ou 2001 – Uma Odisséia no Espaço sempre sonhou em conversar com seu computador, ou pelo menos falar com ele, mas fora esforços em centros de pesquisa, quase nada chegou ao consumidor final, e parecia um problema bem complicado.

Uma das primeiras vezes em que essa tecnologia chegou ao consumidor final foi com o IBM Via Voice, apresentado em 1993 e lançado oficialmente em 1997.

No mesmo ano foi lançado o Dragon Naturally Speaking, software também usado para transcrever texto ditado. Ambos eram horríveis. Você precisava de um ambiente perfeitamente silencioso, microfone headset de qualidade, e era preciso treinar os softwares. Eu li um capítulo inteiro de 3001, de Arthur Clarke, para que o Via Voice me entendesse. Às vezes.

Dá pra configurar Alexa pra atender por "Computer". É muito Star Trek! (Crédito: Paramount Pictures)

O acerto ficava na casa de 90%, e era impossível misturar dois idiomas, o que, para ditar textos de tecnologia, tornava os softwares inúteis.

O Via Voice teve sua última versão estável lançada em 2005, o Dragon, em 2015, mas sua empresa-mãe, a Nuance, ainda existe e vende soluções de reconhecimento de voz. Não que eu precise. Hoje temos reconhecimento de texto ditado no Windows, iOS e Android, e o funcionamento é incrivelmente bom. Já cheguei a usar o celular para capturar discursos em ucraniano, converter para texto e traduzir, impressionante a resiliência do Presidente Zelensky, quando afirmou que “A Ucrânia resistirá à Rússia nem que isso exija todas as embreagens granola do povo pensão alimentícia e sua coragem”.

Quando a tecnologia de reconhecimento de voz engatinhava, a Motorola lançou um celular com Windows CE que tinha um recurso revolucionário: Era possível “discar” com voz, sem treinamento. Eles conseguiram comprimir os modelos de ondas sonoras de números (valei-me São Fourier) e criar um modelo genérico que funcionava muito bem, mas ainda assim era mais fácil teclar o número do que falar em voz alta.

Hoje temos assistentes virtuais em todo canto, URAs que nos infernizam nos call centres, tornando impossível falar com um humano, Siri, Google, Alexa (você não, Cortana) controlando lâmpadas cafeteiras e agendas. Claro que nossos computadores não são tão sencientes quanto os de Jornada nas Estrelas, mas talvez mais espertos. Eu configurei minha Alexa em inglês, pedi para calcular o último dígito de Pi, como na cena clássica em Star Trek. Ela começou a calcular, interrompeu e respondeu “ahá, boa tentativa, mas eu já sei que Pi é um número transcendental, sem solução”.

4 – Mapas e GPS

Não vou voltar ao tempo do Guia Rex, que todo mundo tinha no porta-luvas do carro, vamos recuar apenas até a tecnologia GPS dos dispositivos portáteis da Garmin, que depois se transformaram em guias autônomos com mapas digitais. Para a turma com menos dinheiro ou atrás de mais flexibilidade, havia a possibilidade de brinquedos como este:

Bonitinho, né? Me recuso a jogar fora. (Crédito: Arquivo pessoal)

Sim, é um receptor GPS, portátil, conectado via Bluetooth (eu falei que tudo fica melhor com Bluetooth). Quando devidamente conectado, ele faz uma coisa, e bem: Envia um stream de dados de geolocalização, dizendo onde ele (acha que) está. Seu celular, pc ou ICBM é que tem que se virar, e aí o bicho pegava.

Alguns softwares de Nokia e Windows Mobile funcionavam com o GPS externo, mas os mapas eram básicos e quase sempre inexistentes. Não havia serviço de nuvem com atualizações, e pra gente aqui na selva, não chegava nada.

Hoje temos Waze, Apple Maps, Nokia ainda (acho) e o Google Maps, todos com um monte de recursos, mapas offline (configure, economiza muita banda) e roteamento. Acompanhamos situação de trânsito em tempo real, vemos onde nosso Uber está e achamos todos os botecos das proximidades.

De algo relegado a nerds batendo cabeça com seus Nokias e suas telas minúsculas, hoje a tecnologia dos mapas em celulares extinguiu algo que acontecia comigo com notável freqüência: Me perder visitando outra cidade.

Tecnologias que não melhoraram nada

1 – Impressoras

Não dá pra falar de tecnologia ruim sem elas. Desde o tempo em que impressoras matriciais embolavam papel e arrancavam a rimalina (aquelas bordas destacáveis com furinhos, Meio Bit também é Cultura) às modernas lasers que embolam papel e exigem uma cirurgia toráxica para remover o obstáculo, impressoras são um inferno à parte.

Eu nunca, NUNCA tive uma impressora jato de tinta que não reclamasse na hora de puxar papel. Desde a Canon BJ 600 até a Epson que estou usando hoje, todas são frescas com papel. E nem vou entrar no campo dos cartuchos com DRM e outras marmotagens dos fabricantes.

Na parte do software, mesma coisa. Antigamente você espetava sua impressora na porta paralela, um driver básico recebia os dados, mandava pra danada, the end. Hoje você tem que baixar um pacote de centenas de megabytes, criar conta online, serviços de nuvem, mandar seus arquivos pra Nárnia e, com sorte, esperar que eles caiam na sua impressora.

O serviço de instalação e configuração da HP é TENEBROSO, e a Epson não fica atrás. Uma utiliza uma interface web que exige uns 8 anos de experiência em Análise de Sistemas e engenharia eletrônica. O outro tem um conjunto de drivers dignos do Windows 95. OK, 98.

Nas impressões via WIFI, em 1/3 dos casos, os jobs vão pra Nárnia. Somente por sorte chegam na impressora. Aí o papel prende.

2 – Atualização de Software

Antigamente isso não era problema; todo software era pirata, e atualização era quando algum amigo trazia uma cópia mais recente. Quando migramos pra legalidade, ficou evidente que o Windows não tinha nenhum sistema, mesmo rudimentar de atualização. Fazia sentido quando não existia internet, mas isso se manteve quando o mundo se tornou online. O Windows Update surgiu como tecnologia para atualizar componentes do sistema, mas e os softwares do usuário?

A Microsoft Store prometia ser uma ferramenta para agregar softwares do Windows, mas simplesmente não deu certo. As “Apps” Windows eram completamente diferentes dos softwares nativos, as limitações de desenvolvimento draconianas, e ninguém aderiu.

Patch my PC. Pega algumas, mas não todas as atualizações. (Crédito: Reprodução Internet)

O resultado é que em 2022 você tem que depender de aplicativos como o Patch My PC, para identificar e atualizar os softwares que estão defasados. Com o agravante que nem todos os softwares instalados são reconhecidos.

Enquanto isso, no Linux, atualizar todos os softwares instalados se resume a:

sudo apt-get update <enter>
sudo apt-get upgrade <enter>

ou você enfia isso num CRON, e esquece.

3 – Roteadores WIFI

WIFI é mais uma tecnologia que eu (velho é a mãe!) acompanhei desde o nascimento. AH, o primeiro roteador a gente nunca esquece, eu tinha um D-Link bem vagabundo. A interface era precária, mas funcionava. Com o tempo surgiram roteadores e padrões mais avançados, com recursos como firewalls, DMZs, a excelente proteção por MAC ADDRESS que ninguém usa mas deveria, e compreensivelmente os serviços ficaram mais complexos e complicados.

Projetos como o excelente DD-WRT trouxeram vida nova para hardwares antigos, não-suportados e vulneráveis, mas como toda aplicação Open Source, a interface é tenebrosa. Não que outros roteadores sejam muito melhores.

Essa interface é horrenda! (Crédito: D-Link)

Acabamos num dilema: Ou o roteador tem uma interface gráfica simples e agradável, mas que oculta a maior parte dos recursos úteis, ou tem uma interface horrenda, com milhares de opções, que permite configuração completa mas aterroriza completamente o usuário leigo.

Falta aos roteadores o refinamento pelo qual passaram os celulares, mas quem liga para isso? Sobra pro sobrinho configurar tudo por R$50,00 mais o Uber...

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