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Os NPCs dos jogos sonham com ovelhas elétricas?

Para filósofo, chegará o dia em que os NPCs terão consciência das suas existências e se isso acontecer, até que ponto seus direitos deverão ser respeitados?

21/06/2022 às 11:31

Quando se trata de inteligência artificial, existe uma pergunta — que pode ser estendida aos NPCs dos games — que muitos consideram difícil de ser respondida: esses “seres” devem ser respeitados por nós? Pois um tecno-filósofo deu uma opinião interessante (e até polêmica) sobre o assunto que de tempos em tempos é abordado por alguma obra de ficção científica ou ganha as manchetes pelos mais diversos motivos.

NPCs e a consciência

We don't need no education... (Crédito: Divulgação/Quantic Dream)

O debate sobre uma inteligência artificial senciente ressurgiu recentemente após um engenheiro do Google revelar a sua experiência com o  LaMDA (Language Model for Dialogue Applications). Impressionado com a capacidade da máquina em manter uma conversa coerente, Blake Lemoine tentou chamar a atenção do mundo para o que a Gigante de Mountain View havia criado e independentemente do sensacionalismo gerado em torno da história, ela colocou algumas pessoas para pensar.

Entre esses curiosos está Katie Wickens, autora no site PC Gamer e que decidiu conversar com o australiano David Chalmers. Professor de Filosofia e Ciências Neurais na New York University, ele já publicou diversos artigos relacionados a consciência e tecnologia, sendo uma das referências quando se trata de como a inteligência artificial deverá ser tratada no futuro.

Para Chalmers, chegará o dia em que os NPCs (personagens não-controláveis, na sigla em inglês) terão consciência das suas existências e quando isso acontecer, a maneira como os encaramos precisará mudar completamente.

“Penso que suas vidas são reais e que eles merecem direitos,” defendeu o acadêmico. “Penso que qualquer ser consciente merece direitos ou o que os filósofos chamam de status moral. Suas vidas importam.”

Ainda de acordo com Chamers, conforme a ideia do metaverso se espalhar e nossas vidas se tornarem mais dependente desses espaços virtuais, o nosso contato com a inteligência artificial se tornará constante. Por isso, ele acredita que “se você simula um cérebro humano em silício, você terá um ser consciente como nós,” logo, “isso sugere que esses seres merecem direitos.”

No caso do metaverso (ou mesmo dos MMOs), a ideia de personagens que continuarão realizando suas atividades mesmo quando não estivermos presentes torna a discussão ainda mais complicada e nos leva a outra questão: seria justo considerarmos que as “vidas” desses NPCs menos importantes que as nossas?

Guild Wars 2 e a IA em um mundo persistente (Crédito: Divulgação/ArenaNet)

A primeira reação a esta pergunta pode ser um tanto obvia, mas e se eventualmente chegarmos a um ponto em que a inteligência artificial tenha consciência da sua existência? Será que continuaremos tratando esses personagens como seres inferiores? Será que não teremos a menor empatia pelos seus sentimentos?

Para a maioria das pessoas, não faz a menor diferença se um soldado tombou ao seu lado durante a invasão de uma base inimiga ou se atropelamos meia dúzia de NPCs durante uma fuga no GTA. Normalmente enxergamos esses personagens como meros figurantes, um amontoado de zeros e uns que estão ali apenas para povoar nossos mundos virtuais, com suas vidas, ou melhor, existências, valendo pouco ou nada.

Isso muda um pouco quando temos uma maior proximidade com alguns personagens, com os RPGs sendo provavelmente o melhor exemplo de como podemos nos apegar a eles. Ao nos oferecer algum nível de liberdade nas interações, jogos assim podem nos passar a sensação de que o comportamento, a história e as atitudes dos NPCs são tão reais que estamos lidando com seres vivos, seres que faremos o possível para proteger ou pelo menos não desagradar.

Isso aconteceu comigo, por exemplo, enquanto jogava a trilogia Mass Effect. Quanto mais conhecia a personagem Tali'Zorah nar Rayya, mais eu me interessava por ela, pelo seu passado e pelas opiniões que ela tinha a dar. Em nenhum momento tive a ilusão de que aquela quairian possuía consciência, mesmo assim eu me importava por ela, queria tê-la sempre ao meu lado durante as missões ou enquanto explorava o universo do jogo.

Portanto, se somos capazes de nos preocupar em não perder um “amigo” durante uma missão suicida em um jogo ou de nos emocionar enquanto o HAL 9000 dá seus últimos “suspiros”, mesmo estando cientes que suas consciências são "ensaiadas", o que faríamos caso a inteligência artificial consiga chegar ao nível deles se tornarem seres pensantes?

Será que as chacinas num Grand Theft Auto continuarão sendo tão divertidas e teremos atitudes tão inconsequentes, mesmo sabendo que os NPCs temem por suas vidas? Será que continuaríamos indiferentes a seus temores, simplesmente porque o lugar deles seria prontamente substituído por outra inteligência artificial?

Talvez essa nossa falta de empatia com um bando de personagens aleatórios se deva a própria irrelevância deles, por sabermos que se explodirmos uma senhorinha na rua usando uma granada, provavelmente encontraremos alguém idêntico na próxima esquina. No fundo, sabemos que todas aquelas marionetes estão ali apenas para fazer número, para encher um grande mundo aberto que existe simplesmente para a nossa diversão.

Portanto, até por uma questão ética, talvez nunca cheguemos a ver a implementação de uma inteligência artificial tão avançada nos jogos. Mesmo com algumas pessoas podendo se incomodar com a ideia de acabar com a existência de um NPC senciente, obviamente existirão muitas outras que não darão a mínima importância às súplicas de quem estiver do outro lado do cano da nossa arma, mesmo com ela tentando nos cativar contando uma convincente história sobre o seu passado e reagindo de maneira realista à nossa conversa.

Séries como Westworld ou o jogo Detroit: Become Human estão aí para mostrar como as máquinas poderão ser tratadas por nós, inclusive quando elas se comportam e maneira tão… humana. Alguém poderá argumentar que ambas são obras de ficção, mas basta olharmos para os inúmeros casos de como as pessoas são menosprezadas pelos mais variados (e estúpidos) motivos para entender que o futuro não parece muito bonito para os cérebros humanos simulados em silício.

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