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Linux - o respeito ao perfil de uso é importante, sim senhor.

16 anos atrás

Você prefere um médico que aprendeu a digitar textos no Word e mandar e-mails, para se dedicar totalmente ao aprendizado e melhoria do seu ofício e revisão de técnicas cirúrgicas, ou prefere um médico preocupado com o lançamento do novo kernel de um sistema operacional e explorar tudo o que pode ser feito nele? Um deles vai abrir seu joelho em 2 dias.

O que me parece, em princípio, é que há um equívoco entre os defensores do software livre e no Linux na abordagem de quem é o usuário comum. Se a pessoa teve a curiosidade de perguntar qual distro ela deveria tentar primeiro, escolha a que você acha melhor e indique. Não adianta dizer: tem o sabor A e o B. Tem também o Aa, BA, C, D, E... você vai ter que tentar alguns deles e ver qual gosta mais. Pare! A pessoa não está interessada em aprender sobre o sistema operacional ou como ele funciona e testar 5 distribuições diferentes. Não há tempo pra isso e não é prático mudar de sistema operacional 5 vezes, nem mesmo usando um VMWare da vida, já que cada distro parece algo completamente novo (sabemos que não é, mas vai convencer um leigo). Ele ou ela possuem prazos em seus ramos de atividade que não permitem ficar testando e fuçando um sistema operacional. Eles precisam dele para acessar o hardware e fazer algo mais, simples assim.
Se um advogado resolve usar Linux no escritório dele, pede para o responsável pelo seus sistemas: quero Linux, o nosso prazo é x e são 20 máquinas. Ele tem dúzias de processos na mão e não quer realmente saber, e de fato não precisa, o kernel usado ou qual a interface. Ele precisa redigir 50 petições até o fim da semana e ponto final. Não é importante para ele saber a filosofia do Linux, mas ele mata você se não puder imprimir o documento de forma correta.

Muitos fórums de discussão, tanto no Brasil quanto no exterior, vejo xiitas tecnológicos condenando as pessoas que tem dificuldade com um sistema operacional não-Windows e preferem usar o que já conhecem. Julgam-os com alguns adjetivos indecorosos como incapazes, incompetentes, ignorantes, preguiçosos, indiferentes, apáticos, desinteressados ou simplesmente burros demais para trabalhar com um sistema operacional inteligente e que não saber configurar a impressora ou uma porta serial é porque essa "gentalha" não merece um sistema não-Windows e serão condenados eternamente ao mundo de ignorância e insegurança.

São palavras fortes, eu sei. Mas em todos esses anos, já tive acalorados debates com gente assim e é muito complicado convencê-los que o sistema operacional deve se adaptar ao humano, não o contrário. As pessoas têm no Linux uma oportunidade ímpar de permitir a tipos completamente diferentes de usuários, usufruir de um sistema operacional: o que gosta de estudar o Linux, aprender sobre o sistema e suas funcionalidades e o usuário que não quer o Linux no caminho dele para produzir alguma coisa. A usabilidade das distros melhorou muito de uns anos para cá e espero realmente que continue a melhorar. Achar que qualquer um deva saber configurar uma rede ou um firewall é assumir que qualquer um deva saber como construir um navio. A maioria sabe utilizar as dependências do navio. Outros, sabem operá-lo em nível mais alto e outros, podem ir na casa das máquinas mudar uma ou duas peças, mexer no controles de engenharia com desenvoltura e ainda operar o navio.

Algo interessante também é observar que quanto mais facilidades, como automação de tarefas e simplicidade de comandos, há uma aceitação do usuário comum e rejeição pelos power users. O primeiro, quer plugar uma câmera digital, uma impressora e uma webcam e eles simplesmente se auto-instalarem e quando ligar um programa apropriado, eles funcionarem. Já o outro, quer saber exatamente quais os drivers estão sendo instalados, versão, onde, e quais processos serão chamados por ele, tendo total controle para desabilitar esse ou aquele recurso. A comunidade Linux fica bastante dividida entre as interfaces Gnome e KDE, por exemplo. Uns dizem que o Gnome foi simplificado demais e trata os usuários como antas e que o KDE é muito melhor. Outros dizem que a complexidade do KDE afasta os usuários comuns, mas é adorado por quem é profissional ou usuário experiente do sistema. Essa é uma discussão muito tola e problemas como melhor suporte de drivers parecem ficar em segundo plano.

Talvez o que falte aos profissionais e alguns desses pseudo-defensores do software livre, é mais humildade em aceitar as diferenças e preferências dos usuários. Se uma pessoa gosta de algo diferente e você não concorda, não a condene ou faça desdém. Argumentos são sempre melhores, mas esteja preparado para aceitar a derrota. Sacuda a poeira e tente novamente em outra oportunidade.

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