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Dono da Itapemirim é acusado de golpe com venda de criptomoeda cryptour

A crise do Grupo Itapemirim, que suspendeu atividade de sua linha aérea, envolve acusações de que o presidente deu golpes em investidores usando uma criptomoeda

Pedro Knoth

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A crise que afeta o Grupo Itapemirim desde sexta-feira (17), quando a empresa suspendeu as atividades de sua companhia de aviação, a ITA Linhas Aéreas, acabou de piorar. A companhia está sendo acusada por uma série de investidores de usar uma criptomoeda para aplicar golpe em esquema de pirâmide. Segundo as vítimas, Sidnei Piva de Jesus, presidente da Itapemirim, promoveu o token cryptour, lançado em julho pelo grupo de logística e transporte, mas não devolveu os R$ 400 mil investidos na moeda digital.

Dono da ITA Linhas Aéreas e do Grupo Itapemirim é acusado de não devolver valores investidos em criptomoeda (Imagem: Gustavo Aguiar/ Wikimedia Commons)

Ao lado da Itapemirim, os investidores acusam as empresas Extrading Exchange & Trading Platform e Future Design Solutions (FDS) de não devolverem o dinheiro depositado na cryptour. Eles também reclamam que perderam acesso ao site da exchange para pedir o resgate do investimento, ou saber qual foi o destino dos valores.

Cryptour teria retorno de 3.600%

Em uma apresentação de negócios da cryptour obtida pelo site Congresso em Foco, a moeda digital aparece como um projeto do Grupo Itapemirim para atrair tanto a comunidade de criptoativos quanto o mercado de turistas. Seria possível trocar milhas pelos tokens da ITA Linhas Aéreas, cuja vantagem seria o fato de que eles não expiram. A companhia aérea também aceitaria os ativos digitais como uma forma de pagar por passagens.

O Grupo Itapemirim estimava emitir 30 milhões de tokens da cryptour, com valor de US$ 1 por moeda. Ou seja, o grupo empresarial esperava assim a prospecção de US$ 30 milhões, sendo que a cada 30 dias seriam disponibilizados ao mercado um lote com 1 milhão de tokens. Para cada compra de um ativo digital, era prometido o retorno de 600% nos primeiros seis meses, o que se multiplicaria por seis em um ano — uma valorização de 3.600%. O programa ainda previa um bônus de 21% a cada três indicações feitas, quando o investidor convencia amigos ou parentes a depositarem valores no negócio, como uma pirâmide.

Com a cryptour, o grupo Itapemirim esperava uma arrecadação a médio prazo de US$ 1 bilhão. Para atingir o valor, era esperado que pelo menos 2% de adesão do mercado de turismo. Mais tarde, a companhia esperava listar a CTOUR — cryptour — na Binance, principal bolsa de criptoativos do mundo.

Slide da apresentação da cryptour a investidores (Imagem: Congresso em Foco)

Apesar da apresentação conter indícios de ligação entre o Grupo Itapemirim e a cryptour, Sidnei Piva nega os laços da própria empresa com a moeda digital. O presidente do Grupo Itapemirim também nega uma relação entre a companhia e as empresas Extrading Exchange & Trading Platform e a Future Design Solutions (FDS). Mesmo assim, o site oficial da cryptour está sob propriedade da FDS, de acordo com o buscador de registro de domínios Whois.

Ao Congresso em Foco, Sidnei Piva afirmou:

Entrei em um golpe como vários […] Temos um boletim de ocorrência na delegacia especializada.

Entretanto, um dos principais porta-vozes da CTUR, que inclusive aparece ao lado de Sydnei Piva nos vídeos do canal oficial da cryptour no YouTube, contradiz o presidente do grupo. Luiz Tavares, que aparecia como diretor comercial da Extrading, afirma que a moeda é sim uma iniciativa da Itapemirim e de Sidnei Piva.

“É 85% do Piva e 15% da Future Design Solutions Ltda”, contou Luiz Tavares ao Congresso em Foco. Ele também nega ser o diretor comercial da Extrading, como aparece nos vídeos do YouTube. “Fui colocado assim nos vídeos por sugestão do Furlan [Adilson Furlan, vice-presidente da Itapemirim] para passar credibilidade. Sou um empresário na área de tecnologia com uma empresa em Dubai, a Connect Black.”

A Connect Black, contudo, não possui um CNPJ e nem um site que demonstre que Tavares é dono da empresa, e muito menos que ela está presente em Dubai.

Compra da cryptour não tinha contrato

Ao comprarem a criptomoeda da Itapemirim, os investidores sequer precisavam assinar um contrato, como funciona na maioria dos casos em que isso é feito por meio de uma corretora. Outra estranheza é o fato de que o pagamento pelos tokens era feito diretamente na conta da FDS, sócia da Itapemirim no lançamento da moeda.

A FDS foi alvo de uma operação realizada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO) de Sorocaba em conjunto com o Ministério Público de São Paulo (MPSP). A empresa é acusada de organização criminosa, estelionato e indícios do crime lavagem de dinheiro. A operação resultou no na prisão do dono da Future Design Solutions, José Carlos de Mello Mas, e no bloqueio de bens de sua esposa, Nathalie Brites Mandelli. José Carlos é apontado como sócio de Sidnei Piva no lançamento da cryptour.

Justamente em setembro, quem comprou tokens da Itapemirim começou a ter dificuldade para receber o dinheiro de volta. Além de não haver contrato, os valores eram transferidos via Pix para o CNPJ da FDS.

As vítimas do esquema de pirâmide de criptomoeda da Itapemirim se reuniram em um grupo de WhatsApp para trocar informações sobre o caso e tentarem encontrar uma saída para amenizar o prejuízo. Um dos investidores, que pediu sigilo, disse:

“Vamos procurar a polícia e prestar queixa contra o dono da Itapemirim e contra os donos das outras empresas. É uma vergonha se aproveitarem da boa fé das pessoas que acreditaram na imagem na Itapemirim para tirar dinheiro da gente.”

Em nota ao Congresso em Foco, o Grupo Itapemirim negou participar em qualquer esquema envolvendo a cryptour ou outros tokens digitais. A empresa afirma que já teve um projeto nesse sentido, mas que ele nunca chegou a sair da fase de lançamento. A Itapemirim se diz vítima de estelionato praticado por terceiros, que se aproveitaram de sua imagem para criar um ativo digital.

Com informações: Congresso em Foco