Empresa encerra suporte para olhos biônicos e deixa usuários “no escuro”

Second Sight, que fabricava dispositivos oculares para implante, decide mudar de ramo e para de oferecer suporte a clientes de prótese de retina

Ana Marques
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A evolução da tecnologia permitiu à medicina realizações incríveis ao longo dos anos — por exemplo, um dispositivo ocular que devolve, ainda que parcialmente, a visão humana já não é mais algo inalcançável. E muitos pacientes são gratos por recuperarem qualidade de vida com o uso de olhos biônicos. Mas o que fazer quando a tecnologia por trás do “milagre” se torna obsoleta? Essa foi a questão que mais de 350 clientes da Second Sight tiveram que enfrentar nos últimos anos.

Olhos (Imagem: Victor Freitas/Unsplash)
Próteses de retina dão visão artificial parcial para pessoas cegas (Imagem: Victor Freitas/Unsplash)

Uma reportagem do IEEE Spectrum contou a história de usuários de olhos biônicos que, de repente, se encontram literalmente no escuro, após o desligamento não programado de suas próteses. Todos clientes da Second Sight Medical Products.

A empresa norte-americana é responsável pela prótese de retina Argus I e Argus II. Os dispositivos eram utilizados para melhorar a visão de pessoas diagnosticadas com casos severos de retinite pigmentosa, uma degeneração rara e progressiva da retina, que quase sempre é hereditária. Entretanto, em 2019, a Second Sight descontinuou seu implante e não deu nenhum suporte à sua base de clientes com implantes Argus.

“Eu estava prestes a descer as escadas e, de repente, ouvi um pequeno ‘bip, bipe, bipe’”, contou uma usuária dos olhos biônicos ao Spectrum. O som escutado por Barbara Campbell era um aviso sobre o desligamento do sistema do Argus II. Logo depois, ela perdeu as manchas de luz que conseguia ver e usar como guia graças ao dispositivo, voltando a ficar totalmente no escuro, enquanto fazia baldeação em uma estação de trem.

No site da companhia, há uma área dedicada a vídeos com depoimentos de pacientes que fizeram a cirurgia para colocar o dispositivo. O próprio material exaltava a importância dos implantes para a vida das pessoas — discurso que é visto em diversas partes do site — mas a maioria dos vídeos foi retirada do ar, e apenas as capas são acessíveis.

No “Sobre Nós”, a empresa afirma que a empresa tem “vinte anos de impacto reconhecido” e traz a missão de “desenvolver tecnologias de neuroestimulação para melhorar a vida de pessoas chegas, enquanto apoia os usuários atuais”.

Além disso, o Argus II trazia como benefício a possibilidade de atualizações de software, um procedimento não invasivo, para melhorar o desempenho do implante. “À medida que a tecnologia melhora, seu implante Argus II também melhora — sem a necessidade de cirurgia adicional. Aproveite a flexibilidade de programação e a capacidade para futuras atualizações de hardware e software”, prometia a empresa.

Na prática, entretanto, o apoio não é mais oferecido.

Second Sight quase faliu e agora planeja mudar de área

Em 2019, a Second Sight decidiu deixar de lado as próteses de retina. Com a pandemia de COVID-19, em 2020, a companhia quase foi à falência. Entretanto, agora seu foco é outro mecanismo para prover visão artificial para pessoas cegas — o Orion, uma prótese cortical visual, ainda em fase de estudos clínicos.

Ao Spectrum, um dos clientes da empresa contou que soube da descontinuação do Argus porque foi atrás da empresa após rumores “preocupantes”. Ao ligar para a terapeuta de reabilitação visual que o acompanhava, Ross Doerr soube que ela e toda a equipe havia sido demitida, e ainda ouviu um “a propósito, suas atualizações não vão chegar”.

Argus II da Second Sight (Imagem: Divulgação/Second Sight)

Felizmente ele não teve nenhum problema com o equipamento, mas estava preocupado com o que aconteceria quando esse momento chegasse. Outro agravante, além da falta de melhorias prometidas, é que um sistema obsoleto como o Argus, sem manutenção ou acompanhamento apropriado, pode acabar trazendo complicações para a saúde a médio ou longo prazo — e sua remoção está longe de custar pouco.

Além disso, o investimento inicial foi alto demais para que o pensamento de retirar o implante seja plausível. O Argus II tinha preço cerca de cinco vezes maior do que outros dispositivos de neuromodulação, sendo vendido por US$ 150 mil, sem considerar os procedimentos cirúrgicos e a reabilitação com auxílio de um terapeuta. Os custos podiam chegar perto dos US$ 500 mil, no total.

Em sua nova etapa, a Second Sight está em negociações para se fundir com a biofarmacêutica Nano Precision Medical (NPM), mas os executivos da responsável pelo Argus não farão parte da liderança da nova empresa, e não quiseram comentar o caso quando procurados pela imprensa internacional.

Um alerta sobre tecnologias disruptivas

Enquanto a situação envolvendo a Second Sight pode dar dores de cabeça para a base de clientes da empresa, estimada em 350 pessoas, é válido pontuar que esta não é a primeira vez que algo do tipo acontece.

Em 2017, repercutiu o caso de uma mulher que era mantida viva com uma máquina chamada “pulmão de aço”, mas com a falta de peças para o aparelho, a paciente estaria fadada a enfrentar consequências fatais.

Essa tecnologia criada há quase um século, já virou peça de museu, sendo praticamente substituída por ventilação de pressão positiva, intubação ou ventilação bifásica, mas existiam raros pacientes que ainda dependiam do equipamento. A vítima de poliomielite em questão tinha 69 anos e era uma das últimas pacientes a usar a invenção. Mas sua condição se agravou quando a Respironics, da Philips, parou de fabricar uma componente essencial para o funcionamento da máquina.

Pulmão de aço (Imagem: Reprodução/Wikimedia Commons)

Com a grande repercussão, especialistas de outras empresas se mobilizaram para usar engenharia reversa e recriar a peça faltante com auxílio de impressora 3D. Mas de quem deveria ser a responsabilidade de reposição, afinal?

Com uma evolução cada vez mais rápida da tecnologia, “novos pulmões de aço” não devem ser vistos como uma exceção, à medida que invenções ficam obsoletas em muito menos do que um século (ou metade disso).

Pense na Neuralink, do bilionário Elon Musk, que deseja implementar um chip no nosso cérebro para tratamento de doenças como Alzheimer e depressão, mas que poderia realizar outras funções, como as de um smartwatch, por exemplo. O que acontece se Musk, de repente, decidir fechar a empresa para se dedicar somente à Tesla e à SpaceX? É algo a se pensar. Além disso, há diversas outras big techs de olho na área da saúde, como a Apple, que já contrata até médicos para sua equipe.

O caso da Second Sight acende o alerta sobre a importância do comprometimento de empresas de tecnologia com o suporte a pacientes. Para além da questão envolvendo a ética e os riscos durante o uso e exploração desses equipamentos, a manutenção de tais dispositivos dentro do corpo humano é algo que precisa ser um pilar na aprovação de equipamentos e softwares na área da saúde.

O que você pensa sobre tudo isso? 🧠

Ana Marques

Gerente de Conteúdo

Ana Marques é jornalista e trabalha com tecnologia há 6 anos. Formada pela UFRJ, já passou pelo TechTudo (Globo) e pelo hub de conteúdo do Zoom, onde cobriu eventos nacionais e internacionais, analisando celulares, fones e outros eletrônicos. Em 2019, iniciou a coluna semanal "Vida Digital" no site da revista Seleções (Reader's Digest). Antes disso tudo, cursou Farmácia e fundou uma banda de rock.

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