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Ucrânia quer que Rússia seja “expulsa” da internet, o que não parece boa ideia

Governo da Ucrânia pede que domínios .ru e endereços IP russos sejam "desligados", mas é pouco provável que pedidos sejam atendidos

Emerson Alecrim

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De empresas estrangeiras que estão deixando de oferecer produtos ou serviços a banimentos no esporte, a Rússia vem sendo boicotada por conta dos ataques à Ucrânia. Para o governo ucraniano, sites russos também deveriam ser “desligados”. Mas, no entendimento de especialistas no assunto, essa não é uma boa ideia.

Equipamento de rede (imagem ilustrativa: Martinelle/Pixabay)
Ucrânia quer que Rússia seja “expulsa” da internet (imagem ilustrativa: Martinelle/Pixabay)

“Cortar” sites .ru e endereços IP

A ICANN (Corporação da Internet para Atribuição de Nomes e Números, na sigla em inglês) é uma organização sem fins lucrativos que, entre outras atribuições, gerencia a distribuição de domínios de topo (TLD, na sigla em inglês), a exemplo das terminações .com, .net e .org (e tantas outras).

Na condição de representante da Ucrânia na ICANN, Andrii Nabok se uniu a Mykhailo Fedorov, ministro da transformação digital do país, para enviar uma carta à entidade pedindo que TLDs ligados à Rússia sejam revogados temporária ou permanentemente, o mesmo valendo para os seus respectivos certificados SSL.

Isso faria sites com terminações como .ru, .рф e .su deixarem de ser encontrados a partir de servidores de DNS — na prática, esses endereços ficariam inacessíveis a muitos usuários.

Teoricamente, um site afetado pela medida poderia continuar sendo acessado se o seu endereço IP for informado no navegador. Mas Fedorov declarou que pedirá ao RIPE NCC (Registro Regional de Internet para a Europa, Oriente Médio e partes da Ásia Central) que indisponibilize endereços IPv4 e IPv6 das organizações russas ligadas à entidade, bem como bloqueie o país nos servidores raiz de DNS.

Além de páginas web, essa decisão afetaria vários tipos de serviços online. De modo geral, o objetivo é deixar a internet na Rússia tão inoperante quanto possível para barrar a “máquina de propaganda russa”. É o que Nabok dá a entender:

Esses crimes atrozes foram possíveis principalmente devido à máquina de propaganda russa que usa sites de modo contínuo para espalhar desinformação e discurso de ódio, promovendo a violência e ocultando a verdade a respeito da guerra na Ucrânia.

A Ucrânia está sendo fortemente atacada pela Rússia. Diante disso, todo e qualquer esforço do país para encerrar a guerra é compreensível, inclusive no âmbito da internet. Mas, para muitos especialistas, “desligar” parte da internet na Rússia não é uma solicitação que ICANN e RIPE NCC devem atender.

Bill Woodcock, diretor-executivo da Packet Clearing House, organização sem fins lucrativos que dá suporte operacional e de segurança à infraestrutura crítica da internet, usou o Twitter para explicar o porquê de considerar essa ideia ruim.

Basicamente, Woodcock afirma que a conectividade ficaria irregular na Rússia, mas que esse problema afetaria principalmente a população, não membros do governo ou militares.

Além disso, Woodcock entende que a revogação de endereços IP quebraria mecanismos de segurança no roteamento dentro das redes russas, situação que deixaria civis no país mais vulneráveis a ataques do tipo man-in-the-middle, em que há intercepção de dados entre origem e destino.

Em tese, esse tipo de boicote também poderia dificultar o acesso da população russa a notícias internacionais, deixando-a sujeita somente às informações passadas pelo governo, destaca Woodcock.

Paul Twomey, ex-presidente da ICANN, tem uma opinião parecida. Também no Twitter, ele afirmou a Woodcock:

Manter a camada de protocolo operando na Rússia é o melhor jeitor de garantir que sites que levam visões diferentes para o público russo sejam efetivos.

As reações da ICANN e do RIPE NCC

A ICANN confirmou o recebimento da carta, mas se limitou a informar que o seu conteúdo está sendo analisando. O entendimento geral é o de que a entidade não irá atender à solicitação da Ucrânia por não haver grande apoio à medida e pelo fato de, historicamente, a ICANN não se envolver com esse tipo de conflito.

Na lista de discussão ICANN At-Large, Erich Schweighofer, administrador na Comissão Europeia, reconheceu a situação delicada da Ucrânia, mas fez uma declaração defendendo a neutralidade do órgão:

Remover a Rússia da internet não irá ajudar a sociedade civil nessa país rumo a uma mudança democrática. A ICANN é uma plataforma neutra, não tomando posição nesse conflito, mas permitindo que estados ajam de acordo, por exemplo, bloqueando todo o tráfego de determinado país.

Até o momento, o RIPE NCC não fez nenhum pronunciamento sobre o caso, mas deu sinais de que irá rejeitar o pedido ao aprovar uma resolução no início desta semana que afirma que “meios de comunicação não devem ser afetados por disputas políticas internas, conflitos internacionais ou guerras”.

Com informações: ZDNet, Ars Technica.