TV box pirata pode aumentar uso legítimo de Netflix, sugere estudo

Pesquisa nos EUA indica que, ainda que gerem tráfego pirata, TV boxes podem aumentar acesso a serviços legítimos de streaming

Emerson Alecrim
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Dispositivos do tipo TV box são o terror de canais de TV por assinatura e serviços de streaming, certo? Certo. Mas pode não ser assim o tempo todo. Um estudo conduzido por pesquisadores de duas universidades dos Estados Unidos indica que aparelhos de IPTV, mesmo quando ilegais, aumentam o uso legítimo de serviços como Netflix e YouTube.

TV Box para IPTV
TV Box para IPTV (imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Conduzido por Zachary Nolan, da Universidade de Delaware, e por Jonathan W. Williams e Haoran Zhang, ambos da Universidade da Carolina do Norte, o estudo em questão é um “working paper”. Isso significa que o trabalho está em discussão e ainda não foi submetido a uma revisão por pares, por exemplo.

Apesar disso, o levantamento feito pelo trio ajuda a mostrar que o problema da pirataria pode ser atacado com mais eficácia com soluções criativas, não só com disputas legais.

A pesquisa teve como base a plataforma Kodi. Esse é um sistema de media player, explicando rapidamente. O seu uso, por si só, não representa nenhuma atividade ilegal. O problema é que, a exemplo de outras plataformas, o Kodi pode ser configurado para acessar IPTV pirata.

Muitas TV boxes baseadas no Kodi chegam aos consumidores preparadas para acessar conteúdo pirata. Essa prática é tão difundida que já resultou em processos judiciais e campanhas antipirataria. Estas últimas já foram inclusive apoiadas pela Netflix.

De modo geral, os processos movidos por operadoras ou provedores de conteúdo alegam que dispositivos do tipo TV box prejudicam a receita de serviços legítimos. No entanto, como aparelhos do tipo também podem ser usados de modo legal, é difícil provar que eles causam danos econômicos expressivos.

É por isso que a pesquisa foi feita. Para tantos, os três pesquisadores analisaram dados de 10.337 domicílios nos Estados Unidos. Esses dados consideram consumo de internet e TV, além de análises de registros de cobrança. Aí veio a surpresa.

Kodi (imagem: divulgação/Kodi)
Kodi (imagem: divulgação/Kodi)

Uso de Netflix e YouTube aumentaram

O estudo completo tem 37 páginas, mas o método de análise não é de difícil compreensão. Começa, basicamente, com os pesquisadores comparando dados de domicílios que tinham TV boxes com residências que não contavam com esse tipo de dispositivo.

Aqui, o resultado é um tanto óbvio. A pesquisa constatou que famílias que usam TV boxes geram muito mais tráfego de streaming, ou seja, passam mais tempo acessando Netflix, Amazon Prime Video e afins.

A parte reveladora surge quando os pesquisadores analisam dados de domicílios que não tinham, mas passaram a ter uma TV box. O resultado mostra que, com a mudança, houve um aumento médio no tráfego de 2,88 GB por dia.

Dessa média, 0,52 GB corresponde a um tráfego oriundo da Netflix; 0,57 GB, ao YouTube. Os pesquisadores também notaram um aumento de tráfego relacionado a transmissões de IPTV irregulares, porém.

O resumo da ópera é este: dispositivos baseados no Kodi levaram a um aumento no consumo de conteúdo pirata, mas também elevaram o tráfego legítimo da Netflix (do YouTube também, mas desconsideremos o serviço por ele não exigir assinatura paga). É importante relembrar que os pesquisadores analisaram registros de cobrança para traçar esse cenário.

Netflix
Netflix (imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

TV box nem sempre é vilã

Uma pesquisa como essa não deve ser considerada uma verdade absoluta, até porque ela reflete momentos e circunstâncias específicas. Por exemplo, os dados das 10.337 residências analisadas levaram em conta um período de 16 meses entre 2017 e 2018. Muita coisa pode ter mudado de lá para cá.

Além disso, o levantamento considera apenas os Estados Unidos, mercado cujo comportamento pode destoar do Brasil e de outros países. Levemos em consideração também que, desde 2018, outros serviços de streaming de vídeo surgiram e mudaram o mercado.

De todo modo, esse trabalho serve para mostrar que a compra de uma TV box não está, automaticamente, ligada ao aumento da pirataria. Ou só a isso.

Várias hipóteses podem ser levantadas a partir daí. Entre elas, a de que preços razoáveis e facilidade de acesso ao conteúdo aumentam as chances de assinaturas legítimas (o que também é um tanto óbvio).

Esse aspecto fica visível com outra percepção: a de que usuários de TV box tendem a gastar mais com serviços de internet e menos com assinatura de TV. “Os adeptos do Kodi gastam 4,2% a mais em serviços de internet do que os não adeptos”, diz um trecho do estudo.

Isso sugere que, mais do que apostar em processos judiciais ou campanhas de conscientização, as empresas do setor talvez devessem rever as suas estratégias de mercado para atacar o problema da pirataria.

Com informações: TorrentFreak.

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