Limite de linhas do Excel fez empresa suspeitar de fraude em compra de startup

JP Morgan comprou startup por US$ 175 milhões, mas limite de linhas em planilha do Excel fez empresa suspeitar de ter sido enganada no negócio

Emerson Alecrim
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Em 2021, o JP Morgan comprou a Frank, uma startup de crédito estudantil. Com o negócio, a expectativa era a de absorver uma base de 4,2 milhões de clientes. Mas a companhia afirma ter descoberto que esse número é falso, razão pela qual abriu um processo judicial. O detalhe mais surpreendente é o que levou a suposta fraude a ser descoberta: o limite de linhas em uma planilha do Excel.

Dólares (imagem ilustrativa: Sharon McCutcheon/Unsplash)
Dólares (imagem ilustrativa: Sharon McCutcheon/Unsplash)

Os Estados Unidos não têm um sistema de ensino superior gratuito. É por isso que o crédito estudantil é bastante difundido por lá. A Frank foi fundada em 2016 por Charlie Javice como uma fintech focada justamente em ajudar estudantes a obter financiamento.

Apoiada por grandes investidores e empresas de capital de risco, a Frank ganhou escala a ponto de chamar a atenção do JP Morgan, que comprou a startup em 2021 por US$ 175 milhões. Charlie Javice, que tinha 24 anos quando a Frank foi fundada, passou a ser tida como uma empreendedora visionária.

Agora, pulemos para este começo de 2023. De empresária de sucesso, Javice passou a ser vista com desconfiança. O JP Morgan acusa a fundadora da Frank de inventar uma planilha com mais de 4 milhões de clientes para fechar o negócio.

De acordo com o processo judicial que o JP Morgan abriu contra Javice, a Frank tinha menos de 300 mil clientes reais quando a sua aquisição foi anunciada.

Prédio do JP Morgan em Hong Kong (imagem: divulgação)
Prédio do JP Morgan em Hong Kong (imagem: divulgação)

Excel “dedo-duro”

Antes de fechar o negócio, o JP Morgan pediu a Javice provas de que a Frank tinha mais de 4 milhões de clientes. No início, a empresária teria se negado a fazer isso por causa das leis de privacidade. Diante da insistência do JP Morgan sobre as provas, mais tarde, Javice forneceu a lista com mais de 4 milhões de nomes.

O alarme começou a soar no início de 2022. O JP Morgan queria testar a qualidade da lista de clientes com uma campanha de marketing por email. Para isso, a companhia pediu para Charlie Javice e Olivier Amar (diretor de crescimento do negócio) a lista de clientes da Frank.

Mas a companhia já não tinha essa lista? Não, exatamente. Por causa das preocupações de privacidade apontadas por Javice, o JP Morgan concordou em validar as informações dos clientes por meio da Acxiom, empresa especialista em gerenciamento de dados. Com isso, o JP Morgan não teria acesso direto a dados de identificação pessoal da lista.

Em janeiro de 2022, a Frank já pertencia ao JP Morgan. Era de se esperar então que Javice e Amar fornecesse a lista com mais de 4 milhões de clientes enviada à Acxiom, que já estava pronta. Mas, no processo, o JP Morgan afirma que a lista demorou quase três semanas para ser entregue.

Charlie Javice (imagem: Business Insider)
Charlie Javice (imagem: Business Insider)

Não bastava simplesmente pedir a lista à Acxiom porque o arquivo não continha campo de email. Quando a nova lista finalmente chegou, um problema estranho chamou a atenção do JP Morgan: apenas 28% dos emails da campanha foram entregues, um número muito baixo.

Foi quando um funcionário notou um detalhe suspeito: a lista tinha 1.048.576 linhas. E qual o problema? Esse é o número exato de linhas que o Excel permite criar em uma planilha. Era coincidência demais.

Uma investigação interna teve início. Com base nela, o JP Morgan afirma ter descoberto que Javice pagou US$ 18 mil a um professor de ciência de dados para ele criar a falsa lista com mais de 4 milhões de clientes. A companhia também afirma que a lista obtida em janeiro de 2022 foi gerada a partir de uma base de dados comprada da ASL Marketing por Amar.

Os próximos capítulos dessa novela devem ocorrer nos tribunais. A defesa de Charlie Javice nega as acusações e afirma que o processo é uma tentativa do JP Morgan de encobrir rastros por não ter conseguido contornar leis de privacidade ao comprar a Frank.

Javice também entrou com uma ação judicial contra o JP Morgan. Entre as acusações dadas por ela está uma suposta tentativa do JP Morgan de tirá-la da empresa sem pagar uma compensação milionária.

Por que o Excel tem limite de 1.048.576 linhas?

A Microsoft nunca explicou abertamente o porquê desse número. Mas, provavelmente, esse é um limite de segurança, que diminui o risco de a planilha ser corrompida por excesso de dados ou algo do tipo.

O Excel suporta até 1.048.576 linhas e 16.384 colunas desde o Office 2007. É um limite por planilha, não por arquivo. As versões anteriores tinham limites menores: 65.536 linhas e 256 colunas até o Excel 2003; 16.384 linhas e 256 colunas até o Excel 95.

Excel (imagem: divulgação/Microsoft)
Excel (imagem: divulgação/Microsoft)

Por que não um número “redondo”, como 1.000.000? Por que os limites são estabelecidos com base na potência de 2. O limite de 16.384 colunas corresponde a 2^14. Já o limite de 1.048.576 linhas corresponde a 2^20 ou a 1.024 multiplicado por 1.024.

O fato é que esses limites já causaram outras ocorrências inusitadas. Um exemplo recente vem da Inglaterra. Em 2020, o serviço de saúde local deixou de contabilizar quase 16 mil testes de COVID-19 porque um laboratório gerou uma lista de resultados em um arquivo CSV que tinha mais de 1.048.576 linhas. As linhas excedentes não foram lidas pelo Excel.

Com informações: Forbes, Business Insider.

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