Contrast é um puzzle que deixa todo seu potencial nas sombras

Tudo no jogo é atraente: proposta, visual, história... Mas algo se perde no caminho

Giovana Penatti
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Depois de muito tempo enrolando e tentando adiar minha volta para o clima noir de Contrast, finalmente tomei coragem e voltei para encerrar o jogo.

Não tomei coragem porque o jogo é assustador ou porque estava em uma parte muito difícil e desestimulante. Foi porque o jogo não é apenas diferente do que eu esperava – e, gente, como eu esperei por esse jogo. Sendo delicada, parece que ele não foi terminado a tempo. Me parafraseando em um momento de sangue quente, é o jogo mais mal feito do mundo (mas talvez eu tenha exagerado um pouco nisso aí).

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A primeira vez que vi Contrast foi na E3, no anúncio do PS4 e seus jogos, entre os indies destacados. Ele foi lançado em novembro do ano passado para PS3, PS4, Xbox 360 e PC. A versão que joguei é do Steam, onde está atualmente por R$ 24.

No jogo, você controla Dawn, uma moça misteriosa que consegue andar nas sombras e está sempre pronta para ajudar Didi, uma garotinha que faz de tudo para resolver os problemas em casa. Seu pai, que não se dá bem com dinheiro, abandonou a família e depois de um tempo, voltou com mais um plano mirabolante para salvá-la das dívidas e, desta vez, ficar para sempre. Só que a mãe de Didi não o quer de volta e é em meio a essa turbulência toda (e outras) que o jogo ocorre.

O primeiro problema do jogo está nos personagens: a falta de carisma das protagonistas é atordoante. Didi tinha tudo para ser parecida com Clementine (de The Walking Dead): uma história pesada para uma criança, problemas com os quais ela não tem maturidade para lidar e muita força de vontade e empenho para resolvê-los. Em vez disso, aparece como uma garotinha mimada e petulante que, em vez de solucionar as coisas que lhe aparecem, insiste em problemas que não são seus.

Já Dawn, a protagonista, parece ter uma história bem interessante, mas se torna basicamente um brinquedo de Didi. No final do jogo, quando conhecemos uma pontinha de sua origem, fica o lamento de não ter sido melhor aproveitada.

Isso se repete também quanto à história do próprio jogo: é só próximo ao final que algumas informações começam a pipocar e tudo fica meio subentendido. Só que há uma história forte, que vai muito além de problemas familiares e triângulos amorosos, e merecia ser melhor trabalhada em mais algumas horas de jogo.

Dawn: olhar e personalidade vazios

Dawn: olhar e personalidade vazios

Esse sentimento é algo que perpetua Constrast: quanto potencial desperdiçado.

A ideia de um puzzle que intercala 3D e 2D quando Dawn corre pelas sombras é ótima. Eles têm alguns momentos óbvios e outros complicados, fazendo com que a dificuldade do jogo oscile constantemente, mas não há empolgação que supere o quanto o jogo é quebrado: de bugs frequentes a escolhas duvidosas de game design, é impossível ignorar as falhas. Não se surpreenda ao, repetidas vezes, prender Dawn entre paredes ou no chão, fazê-la flutuar em cima de elementos do cenário, mandá-la pular e o jogo ignorar seu comando, entre outros problemas que tornam o gameplay uma tarefa, não um prazer.

Some a isso a duração: Contrast acaba meio de repente e, apesar de ter um final bonitinho, merecia algumas horas a mais, como já disse; dá para zerar em cinco ou seis horas. Mas, como isso também significaria mais algumas horas de nervoso tentando fazê-lo funcionar do jeito que deveria, talvez tenha sido melhor parar por aí.

A impressão que dá é que o tempo acabou antes do desenvolvimento e a Compulsion Games teve que lançar desse jeito mesmo.

Mas nem tudo é tristeza em Contrast. Enquanto na parte técnica ele é sofrível, o lado visual é lindo – mas isso você já deve saber de ver os trailers.

A atmosfera noir é sedutora e os traços dos personagens lembram um Tim Burton mais contido, mas que combina bastante com o resto do visual. O mundo é bem construído, com ruas estreitas e sinuosas, prédios baixos com arquitetura tradicional dos anos 20 e ambientes internos igualmente bonitos.

Mas nada disso ultrapassa o suficiente; na prática, poderia ter sempre um pouco mais: mais lugares para explorar (os únicos onde se pode entrar são os que fazem parte da história principal do jogo), mais espaço no mundo, mais liberdade, mais gente – numa vila tão boêmia, só há duas pessoas na rua: Dawn e Didi, que deveria estar dormindo a essas horas – mais tempo.

O único ponto que eu descreveria como realmente impecável é a trilha sonora, toda trabalhada no jazz. Meu destaque pessoal fica com as músicas que têm voz. É a cantora Laura Ellis que empresta a sua para as canções. A principal, Kat’s Song, que toca no menu do jogo e é tão deliciosa que dá vontade de desistir de jogar só para ouvir mais uma vez a voz dela.

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Contrast une um visual atraente com uma excelente trilha sonora e uma proposta interessantíssima, mas fica devendo no pacote final. Na superfície, porque seu gameplay esbarra em incontáveis bugs e glitches que tornam a experiência frustrante. Mas, quanto mais para o fundo você vai, começa a perceber que tudo falta: falta em game design, história, duração, mecânica – ele seria muito mais empolgante com missões stealth, por exemplo, que teriam espaço na história do jeito que ela é agora e, intercalando com os puzzles, trariam um dinamismo mais legal. Só alguns movimentos a mais para Dawn e mais rapidez já fariam uma grande diferença.

A impressão que fica é que sobrou potencial e faltou tempo (e recursos, provavelmente) para desenvolvê-lo até se tornar o que todo mundo esperava que Contrast viria a ser.

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Ficha técnica

  • Plataforma: PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360
  • Lançamento mundial:15 de novembro de 2013
  • Preço sugerido: R$ 24,99 (Steam)
  • Desenvolvedor: Compulsion Games
  • Distribuidor: Focus Home Interactive

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