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Fortnite, Apple, Google, Epic Games e a Guerra dos Egos

A Epic Games está processando Apple e Google pela remoção de Fortnite da App Store e Play Store, mas tem alguém certo nessa história?

14/08/2020 às 13:35

Fortnite, o jogo mais popular e lucrativo do mundo se tornou o centro de uma briga entre a Epic Games, a Apple e o Google, após as gigantes tech banirem o jogo do iPhone e Android,; o motivo, a desenvolvedora lançou uma ferramenta de compras in-app que burlava o pagamento dos 30% de comissão a ambas empresas.

Epic Games / Fortnite

Afinal, alguém tem razão nessa bagunça? Vamos dar uma olhada mais de perto.

O início do rolo

No dia 13 de agosto de 2020, a Epic Games introduziu nas versões de Fortnite para iPhone e Android uma nova modalidade de compras in-app, ligada ao abatimento permanente de 20% nos preços dos V-Bucks, a moeda premium do jogo, em todas as plataformas.

Para ter acesso ao desconto nas plataformas móveis, os apps passaram a oferecer um sistema que contorna as compras por fora da App Store e Google Play Store, movimento proibido por contrato em ambas as plataformas.

Epic Games / nova modalidade de pagamento de Fortnite

Esta não é a primeira vez que uma empresa faz algo do tipo, apps como o Spotify (que já se estranhou com a maçã antes, mas falaremos da empresa de streaming depois) não possuem opção de assinatura in-app, como forma de evitar o pagamento da comissão de 30% à Apple e Google.

O problema é que este é um caso de contorno descarado nas regras de ambas as lojas, sob seus Termos de Serviço não permitem que um aplicativo ou jogo ofereçam microtransações internas sem que elas passem por suas lojas, evitando que ambas companhias tirem o seu quinhão.

Em resposta ao ato da Epic Games, Apple e Google removeram Fortnite de suas lojas móveis; os usuários que possuem o app instalado, ou que o baixaram antes e contam com ele em suas bibliotecas ainda poderão instala-lo e joga-lo, ao menos até a próxima grande atualização, que não deve demorar:

Se tudo correr conforme o esperado, a próxima temporada de Fortnite começará no dia 27 de agosto, e nessa data, as versões para iPhone e Android deixarão de funcionar, já que as atualizações providas pela Epic Games foram bloqueadas.

Epic Games / Fortnite

Claro que o ato da Epic foi um caso pensado: tão logo Fortnite foi banido das lojas, a desenvolvedora entrou com processos contra a Apple e o Google (cuidado, PDF) na Corte Distrital do Norte da Califórnia, ambos extensos e muito detalhados, onde a empresa detalha os motivos que a levam a peitar ambas gigantes tech nos tribunais.

Apesar da intenção ser a mesma em ambos (quebrar o domínio das lojas oficiais na distribuição de apps e jogos móveis), as acusações são diferentes.

O caso contra a Apple

O argumento da Epic Games contra a gigante de Cupertino se baseia sem surpresa no Jardim Murado: por design, apps para iOS e tvOS não podem ser distribuídos de forma legal por nenhum outro modo que não seja pela App Store; diferente do que acontece no Android, a Apple não permite lojas de terceiros em seu sistema.

A Epic Games afirma que a Apple atua como um monopólio do setor móvel, controlando todos os meios de distribuição e operação de seu ecossistema, dessa forma impedindo a concorrência e a inovação.

Tais práticas anticompetitivas, entre outras, levaram o CEO da Apple, Tim Cook, a ser questionado pelo Congresso dos EUA no fim de julho, junto com Sundar Pichai (Google), Mark Zuckerberg (Facebook) e Jeff Bezos (Amazon); o entendimento do comitê antitruste é que unidas, as quatro gigantes formam um oligopólio que controla diversos setores de produtos, serviços e comunicações.

A espetada da Epic na Apple foi incrementada com o lançamento do vídeo "Nineteen Eighty-Fortnite", uma paródia do clássico comercial da Apple dirigido por Ridley Scott, promovendo o lançamento do primeiro Macintosh, em janeiro de 1984.

A analogia é óbvia: na época, a IBM era o Grande Irmão a ser derrotado pela Apple, a grande empresa malvada que dominava o setor de computação, e o Mac representava a liberdade dos usuários; hoje, a maçã se tornou aquilo que dizia odiar.

É interessante lembrar, entretanto, que foi a Microsoft quem plantou uma bomba na barriga do leviatã, ao garantir para si os direitos do MS-DOS que rodaria no IBM PC-5150. A IBM acreditava que o dinheiro estava no hardware e não no software, e todo mundo viu o que se seguiu.

O caso contra o Google

A ação da Epic contra o Google é similar, mas possui contornos diferentes. Primeiro, a remoção de Fortnite da Play Store não representa um grande problema, visto que o jogo só esteve na loja de forma oficial por 4 meses.

Graças à forma que a gigante das buscas administra seu sistema móvel, usuários podem instalar o jogo através de lojas de terceiros, como a Galaxy Store da Samsung, ou manualmente através de sideloading, usando o instalador fornecido no site oficial.

Assim, a Epic Games não pode usar o mesmo argumento de monopólio da App Store contra a Play Store, mas o processo revela que o Google teria agido para impedir acordos da desenvolvedora com fabricantes de dispositivos Android, de movo a evitar que Fortnite viesse pré-instalado neles.

Epic Games

Não se engane: a briga é por dinheiro

O documento cita dois casos específicos, envolvendo a LG e a One Plus, em que o Google teria agido com força para que os acordos fossem abandonados, o que de fato aconteceu; segundo informes, a gigante teria demonstrado preocupação por ambas incluírem um app via sideloading em um aparelho por padrão, ao invés de usar a Play Store.

Assim, a LG teria sido persuadida a assinar um contrato em que comprometeu a não instalar apps em seus aparelhos por outros meios que não a Play Store; já a One Plus desistiu do acordo, exceto em unidades vendidas na Índia, que saíram da caixa com Fortnite pré-instalado.

É fato conhecido que o Android possui uma lista de apps reconhecidos como essenciais, necessários para a utilização do sistema, e ao mesmo tempo, desestimula o sideloading por empresas e mesmo por usuários, dadas as possíveis modificações que o Android 11 deverá receber.

Além disso, Google e Epic Games já quebraram o pau por causa de um bug grotesco encontrado no instalador de Fortnite em 2018, que foi reportado pela dona do Android antes do prazo padrão. Isso foi feito de forma a usar o joguinho distribuído por fora como bode expiatório, um exemplo de que sideloading é algo que os usuários devem evitar.

Casa de Fortnite, picareta de pau

É claro que a Epic Games não está levando a briga contra Apple e Google adiante por bondade, ou porque se preocupa com seus usuários. O principal motivo é dinheiro, a companhia não quer pagar os 30% da comissão a Apple e Google, e vem desde sempre arrumando briga por isso.

Da mesma forma, a empresa partiu para cima da Valve ao lançar a Epic Games Store, prometendo cobrar apenas 12% de comissão dos jogos lá disponíveis, contra os mesmos 30% pagos pelos estúdios que lançam seus jogos no Steam. Aliado a isso, a companhia costuma bater pesado para disputar o mercado, forçando desenvolvedoras a lançarem jogos com exclusividade, seja ela temporária ou permanente, de modo a incomodar.

Ao mesmo tempo, a Epic Games sinaliza com "acordos de paz" e parcerias, mas nos seus termos.

Epic Games

A Epic Games por si só não é nenhuma coitadinha: a empresa, avaliada em US$ 17 bilhões tem em Fortnite o jogo mais popular da face da Terra, que rende milhões em receita todos os dias.

Além disso o estúdio é responsável pela Unreal Engine, o motor gráfico que é um dos mais usados da indústria, que mesmo sendo de uso gratuito até US$ 1 milhão em receita do título que a use, ele é um de seus principais produtos.

Claro que o valor da Epic empalidece perto da Apple (US$ 1,87 trilhão) e Google (US$ 1 trilhão), mas é preciso lembrar que 40% da empresa pertence à chinesa Tencent Holdings, um dos maiores conglomerados de tecnologia do mundo.

A Tencent é dona de diversos outros estúdios como Riot Games (League of Legends), TiMi Software (Call of Duty Mobile) e Supercell (Clash Royale), além de ter participação em companhias como Activision Blizzard, Paradox Interactive, Ubisoft, Bluehole (PUBG), Sea Limited/Garena (Free Fire) e outros. Hoje, o capital da Tencent é de US$ 630 bilhões.

Aliados da Epic contra Apple e Google também não são o melhor exemplo de "freedom fighters". Tomemos o Spotify como exemplo:

Como dito antes, a plataforma de streaming de música já se estranhou com a Apple por conta da comissão de 30%, mas daí a se preocupar com o público é outra história. Primeiro, o Spotify paga muito pouco a artistas, em torno de US$ 0,00318 por cada execução individual de uma música.

Segundo, em julho o CEO Daniel Ek declarou que o ritmo normal de composição de um músico, que normalmente lança um álbum a cada 3 ou 4 anos, não é suficiente para o cenário atual, sugerindo uma aceleração na produção musical para sua própria conveniência.

Terceiro, a estratégia do Spotify em blindar e capitalizar em cima da mídia podcast, de forma contrária ao formato de distribuição livre via RSS, vem sendo encarado por especialistas como uma maneira de monopolizar o setor, algo que nem a Apple tentou fazer (talvez por não achar um modelo ideal).

Moral da história

A Epic está no seu direito de brigar para não pagar comissão, assim como Apple e Google estão no direito de reforçar os Termos de Serviço de suas lojas digitais. Sobre quem está certo ou errado, isso é algo que provavelmente será decidido pela comissão antitruste dos EUA, que já não anda de bom humor com ambas gigantes tech.

Por outro lado, chega a ser engraçado uma corporação gigantesca, cujo CEO Tim Sweeney foi o primeiro desenvolvedor de jogos a ficar bilionário, graças ao sucesso de Fortnite, apelar para uma paródia do comercial clássico da Apple, quando ela própria já foi pega bancando o Grande Irmão.

No fim, é uma briga de tubarões onde não importa quem vença, o público, que são os peixes pequenos, continuarão a ser o almoço. Talvez o melhor modo de se posicionar é não fazê-lo, mesmo que seja por seu joguinho preferido, que pode ser jogado em outras plataformas sem perda de progresso.

Quanto aos envolvidos na bagunça...

No mais, aguardemos os próximos capítulos.

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