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CD Projekt Red e a arte de por a culpa nos outros [ATUALIZADO]

Com o lançamento de Cyperpunk 2077 e o caso Devotion vs. GOG, a CD Projekt Red se revela uma empresa que não assume seus erros

17 semanas atrás

ATUALIZAÇÃO: de modo a não servir de bode expiatório para a CD Projekt Red, a Sony removeu Cyberpunk 2077 da PSN nesta quinta-feira (17), e se comprometeu a reembolsar todos os jogadores que solicitarem o dinheiro de volta, após adquirirem a versão digital  do jogo para PS4.

O texto foi atualizado para incluir a nova informação.


A CD Projekt Red é uma das desenvolvedoras de maior prestígio nos últimos tempos, uma empresa polonesa modesta que alcançou o status de AAA, batendo de frente com pesos pesados do mercado ao garantir para si a exclusividade da franquia The Witcher, numa época em que a obra de Andrzej Sapkowski não era tão conhecida.

Claro que "com grandes poderes, grandes responsabilidades", e a CD Projekt Red não vem cumprindo com as suas, especificamente no que diz respeito a assumir a culpa pelas burradas que comete, tanto no lançamento de Cyberpunk 2077, quanto no papelão com o anúncio e posterior recusa de Devotion no GOG.

Cyberpunk 2077 (Crédito: Divulgação/CD Projekt Red)

Cyberpunk 2077 (Crédito: Divulgação/CD Projekt Red)

Nota de transparência

Meio Bit publica análises opinativas em seus 16 anos de história com o intuito de ajudar os leitores a tomarem sua própria decisão de compra. Nós somos francos em nossas opiniões e destacamos pontos positivos e negativos dos produtos de igual maneira, como forma de manter a integridade e transparência do site.

Ninguém externo à redação do Meio Bit teve acesso a este texto de forma antecipada e não houve qualquer tipo de interferência ou direcionamento da CD Projekt Red, da Nvidia, ou de terceiros com relação ao seu conteúdo.

A placa de vídeo RTX 3070 usada pela jornalista Vivi Werneck no review de Cyberpunk 2077, publicado no Tecnoblog, site que pertence ao mesmo grupo editorial do Meio Bit, foi fornecida pela Nvidia em caráter de empréstimo por tempo indeterminado; ela será usada em conteúdos publicados no Tecnoblog antes de ser devolvida à empresa.

O caso Cyberpunk 2077

O jogo mais esperado de 2020 e um dos mais hypados dos últimos anos saiu, e nem todo mundo está contente. As reclamações acerca das versões de consoles, especialmente para os modelos base do PS4 (Fat e Slim) e Xbox One (original e One S), atingiram níveis estratosféricos. Basicamente Cyberpunk 2077 é injogável em tais plataformas, e também não está isento de bugs pesados no PS4 Pro e Xbox One X.

Na equipe conjunta Tecnoblog/Meio Bit, os jornalistas Paulo Higa e André Fogaça testemunharam bugs pesados com seus consoles, respectivamente PS4 Slim e PS5, onde o jogo deu crash completo e fechou. O jornalista Felipe Vinha, que estava jogando no Xbox Series X, também constatou erros cabulosos.

O consenso é que Cyberpunk 2077 foi lançado às pressas, com o ciclo de desenvolvimento que deveria ter consumido 4 anos (ele começou em 2016) ser apressado no último ano, a fim de não perder a janela de lançamento dos novos consoles, o que explicaria os vários adiamentos. A pressão pode ter vindo dos acionistas da desenvolvedora, como forma de fazer dinheiro rápido e em grande quantidade, o que de fato aconteceu.

No entanto, o backlash em torno dos bugs derrubou o valor das ações da CD Projekt Red em 29%, e os investidores podem perder até US$ 1 bilhão do próprio bolso. Eu diria que eles não estão nem um pouco contentes com isso.

Tela de erro de Cyberpunk 2077 no PS4 (Crédito: Paulo Higa/Tecnoblog)

Tela de erro de Cyberpunk 2077 no PS4 (Crédito: Paulo Higa/Tecnoblog)

A culpa das reações negativas é da própria CD Projekt Red, e ela tanto sabia o que iria acontecer, que fez de tudo para mitigar o impacto das reclamações. Em novembro, o CEO Adam Kaciński garantiu que Cyberpunk 2077 "rodava muito bem" nos consoles base, o que depois se revelou uma mentira deslavada, visto que todas as tomadas de divulgação reveladas até antes do lançamento eram de capturas ou da versão do PC, ou do PS5 e Xbox Series X.

O próximo passo contou com a ajuda involuntária da imprensa especializada. Normalmente, estúdios enviam cópias de seus jogos a sites, blogs, canais do YouTube, redações e etc. com antecedência, sob acordos de confidencialidade (NDAs) que envolvem data para queda de embargo, conteúdos que não podem ser exibidos, limitação de imagens e/ou vídeos, e etc.

Por padrão, jogos multiplataforma são oferecidos com liberdade de escolha do sistema por parte do autor, e a princípio, a CD Projekt Red faria o mesmo com Cyberpunk 2077. Pouco depois a conversa mudou, com o estúdio restringindo as cópias de testes apenas à versão de PC, tradicionalmente a mais otimizável e menos propensa a dar erros, de acordo com a configuração do computador do usuário.

No nosso caso, a cópia de Cyberpunk 2077 revisada pela jornalista Vivi Werneck rodou em um PC parrudo, com uma GPU GeForce RTX 3070 da Nvidia. Mesmo assim o jogo apresentou bugs diversos, que foram mencionados no review e posteriormente mitigados, com patches fornecidos pela desenvolvedora e pela fabricante da placa de vídeo.

Teaser original de Cyberpunk 2077, revelado em 2012; o desenvolvimento ativo só começaria 4 anos depois (Crédito: Divulgação/CD Projekt Red)

Teaser original de Cyberpunk 2077, revelado em 2012; o desenvolvimento ativo só começaria 4 anos depois (Crédito: Divulgação/CD Projekt Red)

Tal atitude por parte da CD Projekt Red disparou todos os alarmes entre os veículos de mídia, tão logo os reviews começaram a surgir (por questões éticas e de embargo, o autor de um site não pode "trocar figurinhas" com concorrentes), visto que o caso se desenhou como uma clara manobra de manipulação da percepção pública.

Mesmo com o hype (afinal, foram 8 anos desde o anúncio original) e com a mentalidade de parte da mídia, onde o autor pensa "oba, jogo novo de graça!", o que o faz relevar problemas em troca do "presente" (claro, nós não trabalhamos assim), não dava para prever que a empresa tramaria algo do tipo.

A discrepância na quantidade de reviews listados no Metacritic (são 66 no PC, contra 13 no PS4 e 6 no Xbox One, sendo que esses últimos só apareceram depois do lançamento) se tornou gritante, e criou a percepção de que a mídia especializada foi conivente com a marmotagem da CD Projekt Red, quando na verdade ninguém sabia que apenas cópias para PC estavam sendo distribuídas aos jornalistas.

Cada um só tinha conhecimento de seu caso particular, e por conta do embargo, era vedado de comentar qualquer coisa com outros.

"A culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser!"

A citação atribuída a Homer Simpson, que nunca foi dita na série (existem similares, mas não a exata expressão) descreve o comportamento da CD Projekt Red desde o lançamento de Cyberpunk 2077. Depois que o material bateu no ventilador e começaram a chover críticas de todos os lados, a desenvolvedora veio a público e publicou um mea culpa, onde finalmente admitiu que nunca exibiu material do jogo rodando nos consoles base da geração anterior.

Na nota, a companhia falou sobre os patches de correção que serão aplicados a partir de janeiro no jogo, e ofereceu os meios para que jogadores insatisfeitos entrassem em contato com Sony e Microsoft, em busca de reembolsos.

"Pedido de desculpas" da CD Projekt Red (Crédito: Reprodução/CD Projekt Red)

"Pedido de desculpas" da CD Projekt Red (Crédito: Reprodução/CD Projekt Red)

O que a CD Projekt Red não mencionou é que a política de reembolso não fora negociada antecipadamente com as lojas digitais, como mostra o áudio da conferência de emergência com investidores (cuidado, MP3, 49 minutos), realizada nesta terça-feira (15).

O estúdio estaria tentando compartilhar sua culpa com outros, e não obstante a Sony, a Valve e a Epic Games não estão dispostas a participarem disso. Assim, tais lojas estariam negando os pedidos de reembolso (Valve através do Steam em casos específicos; Epic Games, todos os pedidos) por não serem diretamente responsáveis pela situação, e sequer terem sido contatadas pela CD Projekt Red antes que ela direcionasse os usuários.

A Sony inclusive foi além, e removeu Cyberpunk 2077 da PSN por tempo indeterminado; a empresa pretende reembolsar todos os jogadores que solicitarem formalmente, em um ato onde deixa claro que não servirá de bode expiatório para a CD Projekt Red, que continuaria lucrando com as vendas da versão digital para PS4.

A Microsoft seria a única a cumprir com os pedidos de reembolso sem problemas, o que foi contatado pelo Felipe Vinha, que conseguiu o cancelamento da compra da versão digital sem problemas. Já a CD Projekt Red mudou o discurso pouco tempo depois:

Nota da CD Projekt Red sobre reembolsos (Crédito: Reprodução/CD Projekt Red)

Nota da CD Projekt Red sobre reembolsos (Crédito: Reprodução/CD Projekt Red)

Em uma nova nota, desta vez publicada em seu newsletter em diversos idiomas, a CD Projekt Red passou a orientar os donos de PS4 ou PS5 a esperarem por novas informações a respeito de um possível pedido de reembolso junto à Sony, enquanto ela própria não mais processaria os pedidos de forma direta, opção oferecida pela mesma em caso de tudo o mais falhar para o consumidor.

Jogadores que adquiriram cópias físicas também não estão com sorte: a GameStop, por exemplo, está recusando pedidos de devolução e orienta o comprador a entrar em contato diretamente com a CD Projekt Red. Ao que tudo indica, a desenvolvedora também não negociou o processo com o varejo e deixou que outros resolvessem seus problemas.

CD Projekt Red x Devotion

Nem bem a poeira em torno de Cyberpunk 2077 começou a baixar, a CD Projekt Red se envolveu em outra polêmica, desta vez por causa de Devotion. O jogo de terror psicológico, desenvolvido pelos taiwaneses (atenção nesta parte) da Red Candle Games é uma continuação do também muito bom Detention, e chamou a atenção do público para a qualidade de sua narrativa.

Só que o game tinha um easter egg (segundo os produtores, não intencional) onde podia se ler em a mensagem "Xi Jinping, ursinho Pooh idiota", uma referência a um meme onde o premiê da China é comparado com o rotundo personagem da Disney.

O meme em questão é um assunto proibido na China, tanto que aquele episódio do John Oliver não só o transformou em persona non grata no país, como qualquer menção a ele nas redes sociais chinesas foi censurada. Mas voltemos a Devotion.

A descoberta da mensagem levou a uma explosão de comentários e avaliações negativas do jogo no Steam, que acabou removido da loja pela própria Red Candle Games, alegando "inesperados travamentos" e a submissão de Devotion a "um novo teste de qualidade".

Na prática, o estúdio perdeu contratos com as distribuidoras Indievent e Winking Entertainment, foi limado da China e se tornou um jogo proscrito, mas uma luz no fim do túnel surgiu recentemente.

Devotion (Crédito: Divulgação/Red Candle Games)

Devotion (Crédito: Divulgação/Red Candle Games)

Nesta quarta-feira (16), a Red Candle Games anunciou que Devotion voltaria a ser disponibilizado para compra, mas desta vez no GOG, a loja de jogos para computador que pertence à CD Projekt Red. Ele chegaria no dia 18 de dezembro e a notícia foi bem recebida pelos fãs e jogadores em geral.

Não demorou muito, entretanto, para a CD Projekt Red jogar um balde de água gelada na cabeça de todo mundo, e apresentar uma desculpa inacreditável:

A declaração do GOG foi entendida pelo público como subserviência ao governo chinês, visto que a CD Projekt Red não pretende arriscar perder um dos maiores mercados de games do planeta. Não é tão difícil pensar que o Partido Comunista da China, através de órgãos específicos, tenha pressionado a desenvolvedora a não listar o jogo.

No entanto, a justificativa dada de que a empresa "recebeu várias mensagens de gamers", que em tese seriam contra a listagem de Devotion, é esquisita demais. Primeiro, a reação no Twitter foi a mais negativa possível, com inúmeros gamers apontando para a surpreendente hipocrisia da CD Projekt Red em relação à Red Candle Games.

Segundo, os "gamers" mencionados seriam os mesmos que lotaram a página de Devotion no Steam com críticas, mas que na verdade se tratariam de membros do "Partido dos 50 Centavos", um grupo paramilitar voltado a defender a China e o partido nas redes sociais e serviços de internet, dentro e fora do País do Meio.

A mensagem em Devotion que causou todo o rolo (Crédito: Reprodução/Red Candle Games)

A mensagem em Devotion que causou todo o rolo (Crédito: Reprodução/Red Candle Games)

Tal movimento poderia ser rastreado pela CD Projekt Red até sua origem, mas como a empresa não quer irritar o ursi- digo, o premiê Xi, sob risco da empresa ser expulsa da China, junto com seus jogos, o melhor a fazer do ponto de vista comercial é mandar Devotion para o matadouro, de novo. E assim foi feito.

O pior na história é usar os gamers de bodes expiatórios, e que a CD Projekt Red mais uma vez joga sua culpa nas costas dos outros. Até o presente momento, não há indícios de que Devotion será acolhido por outra loja digital, ou vendido pela própria Red Candle Games de forma independente.

No mais, a CD Projekt Red fecha o ano de 2020 como uma empresa que tinha tudo para ser a grande desenvolvedora de jogos do ano, mas que será lembrada pela sucessão de trapalhadas com Cyberpunk 2077, do crunch dos funcionários aos deslizes no pós-lançamento, à recusa em lançar Devotion, e principalmente, à sua tendência incontrolável de culpar os outros por sua própria incompetência, leniência e covardia.

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