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Joe Biden eleva orçamento da NASA para 2023. Bezos curtiu

NASA receberá US$ 1,2 bilhão a mais em relação à verba de 2022; agência deve contratar segunda empresa para construir módulo de pouso lunar

31/03/2022 às 9:54

Nesta segunda-feira (29), o presidente dos Estados Unidos Joe Biden apresentou sua proposta de requisição para o orçamento a ser gasto por agências durante o ano fiscal de 2023, e a NASA foi generosamente agraciada com um incremento de cerca de US$ 1,2 bilhão em relação a 2022, saltando de US$ 24,8 bilhões para US$ 26 bilhões.

A proposta inclui mais verba para o Programa Artemis, que prevê a volta de astronautas americanos à Lua em 2025, e um possível prêmio de consolação à Blue Origin, ao prever a construção de um segundo módulo de pouso lunar; a companhia de Jeff Bezos havia perdido a licitação para a SpaceX, no que a NASA chegou a ser processada por isso.

Lançamento do NASA SLS no Stennis Space Center (Crédito: Nathan Koga/NASASpaceFlight.com)

Lançamento do NASA SLS no Stennis Space Center (Crédito: Nathan Koga/NASASpaceFlight.com)

O US$ 1,2 bilhão de acréscimo no orçamento da NASA foi minuciosamente direcionado a diversos setores da agência espacial, ela não decide qual departamento recebe dinheiro e quanto, como é de se esperar a determinação vem do governo, mas ainda assim, nota-se que a administração Biden quer forçar o avanço dos trabalhos na retomada da exploração espacial tripulada.

Não é novidade que os EUA querem de todo jeito voltar à Lua, e o Programa Artemis, que pegou tração no governo Trump (embora ele tenha imposto janelas de tempo irreais), recebeu total atenção. O financiamento para os trajes dos astronautas, por exemplo, saltará de US$ 100 milhões para US$ 276 milhões; mais US$ 48 milhões serão alocados para exploração da Lua, Marte e outras paragens.

O documento detalha (cuidado, PDF) quanto de grana cada departamento vai receber, caso o orçamento de Biden seja aprovado, mas é importante notar que alguns setores sofreram cortes; o do sistema de lançamento, teve redução de US$ 15,3 milhões, com a cápsula Orion sendo a mais afetada. Curiosamente, a Boeing vai receber mais US$ 1 milhão para gastar com o SLS, a eterna "obra de igreja" da NASA.

Outros setores que sofreram redução são os que envolvem a ISS (-US$ 20,1 milhões) e as cápsulas Crew Dragon da SpaceX (-US$ 10,7 milhões), lembrando de novo que o governo dos EUA, especialmente o Senado e a Câmara dos Representantes, não vai com a cara de Elon Musk, por mais que sua empresa apresente resultados, por razões que já explicamos.

Por outro lado, o Programa Artemis recebeu o maior aporte de todos os departamentos da agência, com um adicional de US$ 538,3 milhões em 2023, indo de US$ 2,062 bilhões para US$ 2,6 bilhões. A projeção é que a grana continue entrando de forma substancial até 2027, podendo chegar até US$ 4,45 bilhões. O objetivo é bem claro, a Casa Branca não quer mais atrasos no programa.

A verba total destinada para a exploração do espaço profundo pela NASA, subirá de US$ 6,75 bilhões em 2022, para US$ 7,48 bilhões no próximo ano (+US$ 728,1 milhões), se o orçamento passar. Porém, vale notar que boa parte do acréscimo, US$ 290,6 milhões, está destinado a um único item da lista, o sistema de pouso lunar (Human Landing System, ou HLS).

O motivo é bem simples, Biden está propondo que a NASA contrate outra empresa para o desenvolvimento de um segundo HLS, em paralelo à Starship, da SpaceX. E não é preciso ser um gênio para descobrir quem será o principal privilegiado.

Starship, Dynetics HLS e ILV da Blue Origin em escala, com humano para referência (Crédito: John MacNeill)

Starship, Dynetics HLS e ILV da Blue Origin em escala, com humano para referência (Crédito: John MacNeill)

Em 2021, a NASA arrumou uma bela dor de cabeça ao decidir que fecharia apenas com a SpaceX, para o desenvolvimento do HLS do Programa Artemis. A explicação, dada pelo diretor Bill Nelson, foi de que a agência só tinha dinheiro para uma, devido os vários cortes impostos pelo legislativo.

Pesaram a favor da companhia de Elon Musk tanto a Starship ser não um módulo, mas uma nave completa, quanto a plataforma ser muito mais barata do que as concorrentes, o HLS da Dynetics e o ILV da Blue Origin, esta a companhia espacial de Jeff Bezos, que tem o péssimo costume de processar o governo quando preterido em licitações.

De fato, Bezos questionou a NASA pela decisão de escolher só a SpaceX (nota: a Blue Origin, fundada em 2000, 2 anos antes da SpaceX, nunca mandou nem um parafuso para o espaço), mas quando o Departamento de Contabilidade do Governo dos EUA (US Government Accountability Office, ou GAO) rejeitou sua reclamação, ele de novo processou o governo.

A NASA e a SpaceX foram legalmente obrigadas a interromper todos os trabalhos acerca da Starship enquanto a pendenga não fosse resolvida, o que se arrastou por 3 meses, acabando por adiar a data de retorno à Lua, de 2024 para 2025. No fim, Bezos perdeu de novo.

No entanto, o CEO da Blue Origin tinha outras alternativas. Ele chegou a oferecer que a Blue Origin trabalhasse de graça pelos primeiros US$ 2 bilhões de custos relativos ao ILV, o que é um péssimo negócio para a NASA, pois teria que bancar o resto da grana sozinha.

Paralelo a isso, Bezos vinha fazendo lobby para garantir um aporte adicional de mais US$ 10 bilhões ao orçamento da NASA, mesmo que isso não garantisse a escolha de sua empresa em uma nova licitação, apenas abrisse a possibilidade de que fosse possível encomendar um segundo HLS.

O orçamento proposto por Biden não chega nem aos pés da quantia idealizada por Bezos, mas os moldes da licitação são os mesmos, o ILV concorreria com o HLS da Dynetics, embora os custos de ambos sejam respectivamente 4x e 2x maiores do que o apresentado pela SpaceX, para o Starship.

Mesmo sendo duas vezes mais caro do que a proposta da Dynetics, dado que Bezos possui conexões e muito mais grana, se o orçamento for aprovado, é bem provável que a Blue Origin acabe sendo contemplada com um contrato para o segundo HLS.

Como diz o Michael, it's not personal, Sonny, it's strictly business.

Bezos chilicou, reclamou, processou, perdeu, e ainda pode rir por último (Crédito: Saul Loeb/AFP/Getty Images)

Bezos chilicou, reclamou, processou, perdeu, e ainda pode rir por último (Crédito: Saul Loeb/AFP/Getty Images)

Claro que há a possibilidade de que o orçamento proposto passe por ajustes e cortes (eu diria que estes são inevitáveis), mas na possibilidade de o adicional ao HLS ser mantido, ou mesmo incrementado, a NASA ficaria atada à obrigação de realizar nova licitação para uma segunda plataforma.

E graças ao lobby, ainda que quase exclusivamente verbal, de Jeff Bezos em prol da exploração espacial, é improvável que a Blue Origin perca a chance para a Dynetics, até porque a agência não tem cabeça para outro processo.

Fonte: NASA

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