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A trajetória de Street Fighter V: um capítulo de teimosia

Acompanhando Street Fighter desde os oito anos de idade, em arcades, o jogador cresceu com a franquia até ver o nascer de SFV: eis uma trajetória de persistência

Ricardo Syozi

Por

Especial
Street Fighter V
As aventuras e desaventuras de Street Fighter V (Imagem: Guilherme Reis / Tecnoblog)

Quando um pequeno garoto de apenas oito anos colocou pela primeira vez uma ficha em um arcade, em 1992, mal sabia que sua vida mudaria para sempre. Na companhia dos amigos, ele apertou o botão start e entrou na tela de seleção de personagens de Street Fighter 2: Champion Edition. O personagem escolhido foi M. Bison e depois de apenas um round, o garoto estava apaixonado.

Durante anos, a trajetória do menino nos fliperamas foi seguindo a evolução da franquia da Capcom. Tudo isso culminou em 16 de fevereiro de 2016, quando, o já então garoto-adulto-de-32-anos, viu Street Fighter V ser lançado.

Ato um: o treinamento nas ruas

Street Fighter 2
A paixão começou em Street Fighter 2 (Imagem: Guilherme Reis / Tecnoblog)

Durante boa parte de sua infância e adolescência, a série de jogos de luta de Ryu e Chun Li marcou uma forte presença na vida do garoto. Jogando edições variadas como a de Mega Drive, Super Nintendo, 3DO, as piratinhas do Nintendinho e aquela versão nada excelente de Master System, o pequeno fã cresceu em volta de hadoukens e spinning bird kicks.

Assim como muitas crianças apaixonadas por games na década de 90, o menino garantia suas escapadas da escola para se enfiar nos fliperamas, quais eram cheios de pessoas pouco confiáveis, para gastar o dinheiro do lanche em algumas fichas. Quando possível, conseguia pagar por uma ou duas horas nas locadoras de jogos para experimentar outros títulos.

Super Street Fighter 2Street Fighter AlphaStreet Fighter the Movie, a série VSStreet Fighter 3 e Street Fighter IV. Cada um desses jogos esteve em algum momento de forma ativa na vida do jogador, transpondo os anos 90, para os anos 2000 até próximo de 2010. A franquia já era parte de sua personalidade, a felicidade materializada.

Sendo assim, era de se esperar que a empolgação estivesse gigantesca com o iminente anúncio de Street Fighter V. O jogador já não era mais nenhum garoto, seus quase 30 anos indicavam experiência, mas uma alegria de criança nos olhos sempre que o assunto era videogames. Em 6 de dezembro de 2014, a notícia de que a próxima empreitada da Capcom seria exclusiva do PlayStation 4 fez com que ele tomasse uma óbvia decisão: comprar o console.

Ato dois: a desolação

Street Fighter V
SFV chegou para o jogador (Imagem: Guilherme Reis / Tecnoblog)

Um mês após adquirir o console, a pré-compra de Street Fighter V estava garantida e, como bônus, uma versão beta do game seria liberada aos entusiastas. A campanha de marketing era animadora, com trailers que acendiam o shoryuken da nostalgia por conta dos personagens veteranos e brilhavam os olhos com novos nomes como Necalli e F.A.N.G.

Quando a beta foi liberada, o título se mostrou bonito e divertido. Por outro lado, a conexão das partidas deixaram a desejar, frustrando vários fãs ao redor do mundo, inclusive o nosso jogador. O seu otimismo se manteve vivo apesar disso, ele tinha certeza de que ainda estava prestes a jogar o melhor game que a franquia Street Fighter poderia oferecer.

Porém, o lançamento oficial não foi lá muito grandioso.

Logo de cara, parecia que SFV havia sido lançado às pressas. O elenco inicial de 16 personagens oferecia boas opções para diferentes gostos, mas sem as partidas online para trazer uma salvação, tudo o que restava era um modo de sobrevivência entediante e algumas histórias rasas entre cada lutador.

Nada de um modo arcade para encarar um chefão no final do percurso ou uma história mais robusta como as apresentadas em títulos como Mortal Kombat X ou Injustice: Gods Among Us. Não era raro ver outras pessoas reclamando nas redes sociais. Uma reivindicação justa, sem dúvida.

Ao invés de alvoroçar internet afora, nosso jogador-otimista, direcionava energia nos confrontos com adversários — fosse para testar suas habilidades ou ver até qual posição conseguiria alcançar no ranking online. Porém, mesmo dizendo que não achava tão importante a presença de modos de jogo como “Arcade” ou “História”, a decepção ao encontrar uma obra tão incompleta era inegável.

Focar no modo de treino e nas partidas online pareciam os melhores (senão únicos) caminhos para o jogador. Escolher um personagem (ou boneco, dependendo de seu gosto) e aprender os seus macetes e estratégias é algo que muitos fãs desse gênero gostam de fazer. Ainda mais quando é possível se conectar com a internet para encarar outros competidores por todo o globo.

Infelizmente, outra decepção surgiu logo quando as primeiras partidas tiveram início. A conexão simplesmente não era boa. Grande parte das partidas sofria lag, podendo cair do nada e penalizando os combatentes. Era difícil de entender como tamanha maestria da Capcom, em títulos anteriores, se perdeu no avião pelo mapa.

No fim das contas, Street Fighter V foi desolador.

Ato três: a perseverança

Luke e Balrog
Os DLCs mudaram o game (Imagem: Guilherme Reis / Tecnoblog)

Mas ele não desistiu.

Com o tempo, a Capcom lançou novos personagens via DLC, adicionou um modo história mais completo e introduziu um modo arcade mais clássico. Tudo para agradar tanto os aventureiros casuais quanto os determinados competitivos.

Sendo assim, o nosso jogador se manteve ativo em Street Fighter V em suas empreitadas “Arcade Edition” e “Champion Edition“. Experimentando o elenco variado de personagens e aprendendo contra outros fãs.

Por outro lado, a conexão das partidas online nunca ofereceu o que os fãs esperavam. Poucas melhorias ocorreram, mas nada de um servidor mais competente, por exemplo. As críticas continuaram. Em um ato de desespero, o jogador até mais que dobrou sua banda de internet e criou amarras entre o PS4 e o roteador com um cabo de rede.

Três temporadas (ou três anos) depois, uma sensação de cansaço surgiu para o jogador. As lutas, contra os servidores da Capcom ou outros competidores, não o fazia sentir que o treinamento compensava. O interesse já estava se esquivando para outras obras, o golpe só era certeiro quando um novo lutador era anunciado. Como um game as a service, a desenvolvedora sempre arranjava um jeito de puxar o fã de volta, assim foi desde Balrog até Luke em DLCs.

Campeonatos ocorreram e novas temporadas vieram em seguida, ao todo foram cinco. Até mesmo quando o mundo se deparou com a pandemia da COVID-19, o amor pela franquia de Alex e Juri continuou presente nos torneios online. Assim como muitas pessoas, não basta apenas jogar, assistir os torneios entre os melhores do mundo também é algo importante dentro dessa comunidade.

Com a última temporada em 2021, a vida útil de Street Fighter V está próxima do fim.

Ato quatro: o déjà vu

Qual será a próxima etapa da franquia? (Imagem: Guilherme Reis / Tecnoblog)

Foram mais de 600 horas durante os anos nos quais o game da Capcom esteve presente no PS4 de nosso protagonista. É verdade que a quantidade de partidas diminuiu recentemente, mas a empolgação com a franquia de luta ainda está em alta.

Conseguir realizar combos incríveis com a Sakura ou manter o jogo psicológico com o Vega foram momentos inesquecíveis nas inúmeras lutas realizadas. O jogador enfrentou amigos em reuniões, encarou poderosos oponentes online, se frustrou com os problemas e ainda acompanhou cada EVO, TRETA, Capcom Cup e diversos outros campeonatos. Viu ídolos como Daigo Umehara e PR Balrog vencerem e perderem, mas sempre se divertiu.

O sentimento de que cada jogador está mais que pronto para encarar um desafio inédito está vivo no coração de todos. Pois, mesmo com os altos e baixos de SFV, é inegável que centenas de horas de diversão foram alcançadas por quem se atreveu a se manter na ativa.

Um anúncio de um novo game da série está mais perto do que parece. Assim como muitos outros fãs de Street Fighter, o garoto que cresceu com a franquia aguarda ansiosamente o próximo capítulo para inserir uma ficha, escolher um lutador e se apaixonar por tudo de novo.

Nada está definido. Será que, para continuar nas lutas de rua, Ricardo precisará comprar um PlayStation 5?