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Nos ônibus da Marcopolo, câmeras já podem substituir retrovisores

Sistema ERV é uma opção que usa câmeras de alta resolução em vez de espelhos retrovisores nos ônibus G8, da brasileira Marcopolo

Emerson Alecrim
Por
Ônibus Marcopolo G8 (edição da imagem: Vitor Pádua)
Ônibus Marcopolo G8 (edição da imagem: Vitor Pádua)

Muitas vezes, falamos de tecnologias distantes da nossa realidade, seja por existirem somente em outro país, seja por serem experimentais. Mas outras estão mais próximas de nós do que imaginamos. O ERV é um exemplo interessante. Trata-se de uma tecnologia que substitui espelhos retrovisores nos ônibus G8, da brasileira Marcopolo.

É fácil entender a ideia. No lugar de espelhos, câmeras de alta resolução registram a movimentação nas laterais e atrás do veículo. As imagens são exibidas, em tempo real (sem atrasos), em telas verticais posicionadas na cabine do motorista.

Mas algumas perguntas ficam no ar. Será que câmeras podem mesmo substituir espelhos retrovisores? Como fica a condução no ônibus à noite ou durante a chuva? Quais as vantagens dessa tecnologia?

Para encontrar as respostas, eu conversei com Mauricio Gazzi, coordenador de engenharia da Marcopolo. Conto os detalhes a seguir.

A premiada Geração 8 (G8)

Linha rodoviária G8 (imagem: divulgação/Marcopolo)
Linha rodoviária G8 (imagem: divulgação/Marcopolo)

A Marcopolo é uma das maiores encarroçadoras de ônibus do mundo. No Brasil, a companhia é a que mais vende modelos de categoria rodoviária — popularmente conhecidos como “ônibus de viagem”.

Para se manter na liderança, a Marcopolo lançou, em agosto de 2021, a Geração 8 (G8), composta por ônibus com um ou dois pisos. Todos atraem os olhares por conta do design arrojado. Não por acaso, a linha foi uma das vencedoras da premiação internacional iF Design Award 2022.

Mas o que a linha G8 têm de bonita, tem de tecnológica. Aqui, isso é o que mais nos importa. Ainda que opcional, o ERV — Espelho de Reflexão Virtual — é uma das inovações da linha.

Ônibus Paradiso G8 1600 LD (imagem: divulgação/Marcopolo)
Ônibus Paradiso G8 1600 LD (imagem: divulgação/Marcopolo)

Não é qualquer câmera

Mesmo em celulares com modo noturno, filmagens à noite podem ficar repletas de ruídos ou com definição ruim. Isso nos faz perguntar se uma câmera pode substituir um espelho em condições de baixa iluminação, ainda mais quando as imagens têm que ser transmitidas em tempo real.

Pode, sim. De acordo com a Marcopolo, o ERV é totalmente funcional em condições de baixa visibilidade. Isso inclui tanto viagens noturnas quanto sob chuva forte ou neblina.

A explicação para isso está no fato de as câmeras terem alta resolução, serem apropriadas para uso externo e permitirem ajustes condizentes com as condições de iluminação.

Legal, né? Mas parece que esse tipo de tecnologia só serve para deixar o veículo mais caro. Não é bem assim.

Câmeras do ERV (imagem: reprodução/Marcopolo)
Câmeras do ERV (imagem: reprodução/Marcopolo)

Vantagens do ERV

Para começar, à noite ou sob condições climáticas adversas, as câmeras podem dar mais visibilidade ao motorista do que os espelhos retrovisores. Não é só por causa da alta resolução e dos ajustes de luminosidade, mas também porque as câmeras cobrem um campo de visão maior.

Tanto é assim que o ERV é recomendado principalmente por reduzir ou eliminar os chamados “pontos cegos”, problema existente até em automóveis, mas mais presente em veículos de grande porte.

Mauricio Gazzi também explica que, como as telas estão dentro da cabine, a visualização das imagens pelo motorista é facilitada. Isso porque os painéis podem ser posicionados estrategicamente, de modo a diminuir, em relação aos espelhos tradicionais, o movimento de cabeça que o condutor faz para enxergá-los.

Outra vantagem: o ERV tem duas câmeras em cada lado. Mas por quê?

Alguns veículos contam com dois espelhos em cada retrovisor. Geralmente, um dá uma visão próxima à lateral do veículo, enquanto a outra cobre uma área maior, mostrando com mais alcance o que acontece ao lado e atrás do veículo.

Pois bem, a dupla de câmeras têm as mesmas funções, mas de modo mais pronunciado. Uma cobre uma área mais próxima do ônibus; a outra tem abertura e profundidade maiores.

Espelho à esquerda, câmeras à direita (imagem: reprodução/Marcopolo)
Espelho à esquerda, câmeras à direita (imagem: reprodução/Marcopolo)

Mas o detalhe mais interessante é que o ERV consegue cobrir um ângulo de visão de aproximadamente 48º em cada lado do veículo. Nos espelhos, o ângulo é de aproximadamente 16º.

Com isso, o motorista tem uma visão mais ampla do que acontece ao lado e atrás do ônibus, assim como lida com menos pontos cegos (em tempo, pontos que não são visíveis por limitações de ângulo ou posição do condutor).

A diferença de nitidez também é notável. Chuva e neblina são fatores que podem dificultar a visualização do espelho. Já o ERV consegue “filtrar” a interferência que essas condições causam na imagem. Para completar, as câmeras possibilitam ajustes de luminosidade para deixar as imagens visíveis até de noite.

Além disso, como as telas ficam dentro da cabine, o motorista não é atrapalhado por gotas d’água ou embaçamentos que prejudicam a visualização dos espelhos tradicionais.

Espelho à esquerda, câmeras à direita (imagem: reprodução/Marcopolo)
Espelho à esquerda, câmeras à direita (imagem: reprodução/Marcopolo)

Que conste que essa não é uma solução criada inteiramente pela Marcopolo. O ERV em si é oriundo do MirrorEye, um sistema da empresa Stoneridge focado originalmente em caminhões. O mérito da encarroçadora está em adequar, testar e validar a tecnologia para uso em seus ônibus.

Esse está longe de ser um trabalho fácil. A implementação tem que ser feita de modo a evitar que o sistema fique em desarmonia com o design do veículo, por exemplo.

Mas até nesse aspecto há vantagem. Mauricio Gazzi explica que os espelhos tradicionais devem ser projetados para a frente de modo a facilitar a visualização por parte do condutor. O problema é que esses retrovisores, mesmo tendo design aerodinâmico, acabam aumentando o atrito do veículo com o ar durante o movimento:

Somente de trocar o espelho pelo ERV, a redução do coeficiente de atrito [arrasto], Cx, é de 3%. Isso acaba voltando para o nosso cliente como uma redução de consumo [de combustível]. Se eu estou baixando o Cx, automaticamente estou reduzindo a energia que o veículo precisa gastar para romper a barreira de ar.

Isso não quer dizer que a tecnologia irá gerar uma redução de consumo de 3%, mas que ela auxilia nisso.

O executivo ressalta que, apesar de importada, a tecnologia está de acordo com as normas de visualização de retrovisores existentes no Brasil e também em outros países da América Latina nos quais a Marcopolo atua.

Telas do ERV na cabine do motorista (imagem: divulgação/Marcopolo)
Tela do ERV na cabine do motorista (imagem: divulgação/Marcopolo)
Tela do ERV na cabine do motorista (imagem: divulgação/Marcopolo)
Tela do ERV na cabine do motorista (imagem: divulgação/Marcopolo)

Disponibilidade da tecnologia

O sistema ERV está disponível em todos os ônibus rodoviários G8, tanto nas versões com um quanto com dois andares, explica a empresa.

Apesar de ter sido lançada como um atributo opcional da nova linha, Gazzi comenta que, na verdade, o ERV está disponível desde a geração anterior, chamada New G7 (que continua em produção). Coube a essa geração introduzir a tecnologia. Já a atual a promove de maneira mais ampla.

Câmeras no lugar de retrovisores em ônibus New G7 (imagem: divulgação/Marcopolo)
Câmeras no lugar de retrovisores em ônibus New G7 (imagem: divulgação/Marcopolo)

A Marcopolo também oferece a tecnologia em ônibus urbanos elétricos. Um exemplo é o Attivi Express. Aqui, as câmeras são tão ou mais impressionantes, pois o modelo é articulado e pode alcançar um comprimento de 22 metros.

Como a tecnologia é relativamente nova e tem custos maiores em relação aos retrovisores tradicionais, normalmente, empresas interessadas compram um ou outro ônibus com ERV para realizar testes.

Mas Gazzi conta que essa é uma tecnologia stand-alone, ou seja, que pode ser instalada ou removida a qualquer momento, sem afetar outras características do veículo. Não é preciso que o ônibus saia de fábrica com o ERV instalado, portanto.

“Todo motorista que tem contato com o ERV em uma situação de chuva, por exemplo, vira fã da solução em questão de minutos”, continua Gazzi. As vantagens são numerosas, como ficou claro. O complicador, por ora, é o custo.

O executivo não fala em valores, até porque o preço de um ônibus depende de vários fatores, como configuração interna e volume de compra. Mas ele reconhece que a tecnologia é muito mais cara que os retrovisores tradicionais.

É justamente o fator custo que, no momento, impede a Marcopolo de oferecer a tecnologia como um opcional nos ônibus urbanos convencionais. Mas Gazzi destaca que, se algum cliente de operação urbana tiver interesse no ERV, a companhia pode levar a ideia para esse tipo de veículo.

O Attivi Express também opera com câmeras em vez de espelhos (imagem: divulgação/Marcopolo)
O Attivi Express também opera com câmeras em vez de espelhos (imagem: divulgação/Marcopolo)

Questão de segurança

Tecnologias com ar futurista sempre chamam a atenção. Mas, não raramente, elas aparecem como itens de luxo ou excentricidades, ou seja, não são realmente úteis.

Não é o caso aqui. Quando perguntei a Mauricio Gazzi sobre a principal razão para o ERV ser adotado por uma empresa, ele frisou: “a segurança”. O próprio lista alguns fatores que corroboram essa afirmação:

O ângulo de visão lateral, a visibilidade à noite e na chuva, a distância com a qual você enxerga para trás [do veículo]. Não é somente a questão da abertura [ângulo da câmera], mas de considerar a partir de que momento consigo perceber que um carro está vindo.

É claro que o ERV não é a única tecnologia que a Marcopolo incorporou à nova geração de seus veículos. Faróis full LED (também opcionais) e um painel para o motorista com duas opções de tela sensível a toques estão entre os outros atributos da linha.

Mas, na minha opinião, as câmeras no lugar dos retrovisores se destacam. Segurança no trânsito nunca é demais, principalmente em veículos de grande porte — para você ter noção, no Brasil, um ônibus de dois andares pode ter até 15 m de comprimento.

Paradiso G8 1800 DD com ERV (imagem: divulgação/Marcopolo)
Paradiso G8 1800 DD com ERV (imagem: divulgação/Marcopolo)

O preço ainda é um problema. Mas, de acordo com a Marcopolo, já há empresas adquirindo ônibus com ERV. Como já dito, a maioria o faz para testar a tecnologia. Mas, se a ideia for aprovada e a demanda aumentar, pode acontecer de a solução ficar mais acessível.

Tem sido assim com o câmbio, por exemplo. Hoje, ônibus rodoviários com câmbio automatizado são muito mais comuns no Brasil do que eram em um passado recente.

Emerson Alecrim

Autor / repórter

Emerson Alecrim cobre tecnologia desde 2001 e entrou para o Tecnoblog em 2013, se especializando na cobertura de temas como hardware, sistemas operacionais, negócios e transportes. Formado em ciência da computação, seguiu carreira em comunicação, sempre mantendo a tecnologia como base. Participa do Tecnocast, já passou pelo TechTudo e mantém um site chamado InfoWester.

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