Quando a inovação e a fricção andam de mãos dadas

Quando novos recursos geram camadas inesperadas de complexidade, a possibilidade de erro aumenta. Antigamente a tecnologia era mais fácil de usar?

Josué de Oliveira
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• Atualizado há 1 ano e 1 mês
Entre a fricção e a inovação (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)
Entre a fricção e a inovação (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Um dos sinais do avanço tecnológico é quando um produto que sempre funcionou de um certo jeito muda radicalmente a sua forma sem mudar o conteúdo.

Pense em fones de ouvido. Em sua forma tradicional, você encaixa o fio num aparelho e pronto. Com os fones bluetooth, no entanto, essa parte do processo foi modificada. Basta parear os fones com um dispositivo (o celular, por exemplo) para ouvir o que você quiser.

A função dos fones não mudou, apenas o meio pelo qual ela é concretizada. Além disso, dispositivos wireless tendem a ser mais práticos. Nada de fios embolados para lá e para cá, menos chance de falha por mal contato ou algum dano interno.

Mas há um revés, e se você usa fones bluetooth – ou qualquer outro dispositivo bluetooth, para ser honesto –, já deve saber qual é. O bluetooth tem vida própria. Conecta e desconecta quando quer. A experiência de ouvir sua playlist no Spotify pode virar uma aporrinhação.

O exemplo do fone ilustra o fenômeno da inovação acompanhada de fricção: quando novos produtos acrescentam camadas de complexidade ao funcionamento de algo. À medida que a tecnologia avança, ela vai rendendo dores de cabeça que antes não tínhamos.

A fricção não vai embora completamente

Um texto de Andrew Lanxon, editor do CNET, chama a atenção para como as tecnologias a nossa volta geram chateações, e por vezes minam nosso desejo de usá-las. Um exemplo citado por ele é particularmente interessante: o videogame.

Na correria do dia a dia, jogar pode ser algo reservado para ocasiões aleatórias, quando sobra um tempinho. Lanxon descreve algumas dessas ocasiões em que ligou seu Xbox para relaxar. Mas isso não foi possível: antes que qualquer jogo pudesse ser rodado, atualizações começavam a ser baixadas, seja do sistema, seja do jogo com o qual ele queria se divertir.

Passado o tempo necessário para as atualizações, a vontade de jogar já tinha ido embora.

Atualização automática do Xbox 360 (Imagem: Ronaldo Gogoni/Tecnoblog)
Atualização automática do Xbox 360 (Imagem: Ronaldo Gogoni/Tecnoblog)

Ninguém está pedindo por consoles menos potentes, ou condenando os jogos on-line. Mas tê-los vem com um preço: esses momentos em que a complexidade deles se coloca no caminho da experiência que propõem. Um tipo bem específico de fricção.

Pode parecer pouco, mas são pequenas irritações que vão se acumulando, e podem gerar uma indisposição com a tecnologia em questão. A memória desagradável das falhas do bluetooth podem nos levar de volta aos bons e velhos fones com fio (posso ou não estar dando um exemplo pessoal aqui). O impulso de jogar por uma meia horinha pode dar lugar ao desânimo.

O mais irônico é que um dos maiores objetivos das empresas é eliminar a fricção de seus produtos. Tornar o uso tão prático e intuitivo quando possível. E conseguem, em muitos casos. Mas, mesmo neles, outros empecilhos se manifestam. A fricção não se rende tão fácil.

Antigamente era (mais ou menos) melhor

Lanxon também menciona o bluetooth (é claro). Fones e caixas de som com a tecnologia funcionam muito bem – quando querem. Ele contrasta o suspense de usar esses produtos com a experiência simples e previsível de um toca-discos.

É revigorante simplesmente colocar um disco e tocá-lo, sem a necessidade de estabelecer conexões sem fio ou ter a conexão interrompida sem explicações. Eu coloco o disco no toca-discos, movo a agulha e ele simplesmente toca.

Não é preciso romantizar tecnologias antigas para entender essa sensação. Não havia fricção involuntária quando conectávamos o fone com fio num celular e a música simplesmente fluía para nossos ouvidos, sem depender da boa vontade do bluetooth. Ou quando inseríamos uma fita no videogame com a certeza de que o jogo começaria em seguida, sem longas esperas por atualizações.

Disco de Vinil (Imagem: Roman Kraft/Unsplash)
Disco de Vinil (Imagem: Roman Kraft/Unsplash)

Era também uma época em que ninguém se perguntava se um objeto do dia a dia escondia funções… diferentes. Um exemplo que discutimos no Tecnocast 274 foi o da escova de dentes smart, que conta com um aplicativo que te ajuda a escovar os dentes corretamente. Isso se você tiver paciência para lidar com todo o processo (tem bluetooth envolvido, ok?).

Isso não significa, é claro, que antigamente é que era bom. As fricções de outras épocas eram diferentes, não inexistentes. Se uma mídia física fosse danificada, consumir seu conteúdo se tornava impossível. O mesmo vale para os fones de ouvido com fio. Toda tecnologia tem um certo nível de fricção, e nós negociamos o quanto estamos dispostos a aguentar.

A questão que se coloca é: com a inserção constante de mais e mais recursos nas tecnologias a nossa volta, quantas novas camadas de complexidade surgirão? Quantas novas possibilidades de falha?

Quanto tempo até que um novo padrão apareça, tão complexo que nos fará olhar para trás e pensar: nos tempos do bluetooth é que era bom?

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