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O uso de sensores pode ser um bom jeito de prevenir queda de idosos

A causa é nobre: quedas são comuns e potencialmente graves na terceira idade

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3 anos atrás

Quando a gente pensa em tecnologias para assistência ao idoso, lembramos de celulares com botões grandes (que podem ser visualizados mais facilmente) ou de monitores eletrônicos que acionam um parente em caso de emergência. Mas dá para ir muito além disso: que tal um sistema de sensores capaz de prevenir as tão temidas quedas por pessoas com mais idade?

Questão de saúde pública

Indivíduos de todas as idades estão sujeitos a cair nas mais diversas situações. Eu, por exemplo, tenho o dom de tropeçar nas minhas próprias pernas. Para o idoso, porém, as quedas são muito mais preocupantes. O que seria um tombo simples para um jovem, com um joelho ralado aqui e um hematoma ali, para uma pessoa de idade avançada pode significar uma lesão bastante dolorida, uma incapacidade importante ou mesmo a morte.

Queria eu que fosse exagero. Mas não é. Segundo a geriatra Fabíola Alves de Santana Borges, da Santa Casa de São Paulo, mais de 30% dos idosos que fraturam o fêmur morrem dentro de um ano. Quando o problema não é a gravidade da lesão, que pode causar sangramento intenso, por exemplo, são as complicações cirúrgicas, como embolia pulmonar ou infecções.

Estima-se que o mundo tenha atualmente mais de 800 milhões de pessoas com mais de 60 anos. Hoje, a expectativa de vida é muito maior que a de décadas atrás, logo, um número muito expressivo de pessoas chega à casa dos 80, 90 ou mesmo 100 anos. Como você sabe, quanto mais avançada a idade de um indivíduo, mais debilitado o seu corpo fica. Consequentemente, o risco de queda é maior.

Idoso - bengala

É verdade que fatores como herança genética, condições ambientais e estilo de vida influenciam no envelhecimento, mas ninguém escapa desse processo. Com o passar dos anos, a perda de tecido muscular se acentua, os tendões se desgastam, os ligamentos ficam mais frágeis, os ossos perdem cálcio, os pulmões inspiram um volume reduzido de ar, o coração bombeia menos sangue por vez, a visão se degrada por conta do endurecimento do cristalino e da menor recepção de luz pela retina… Ufa!

Pior que não termina por aí. Esses fatores contribuem para que o idoso tenha diminuição da velocidade de marcha, redução na capacidade de equilíbrio, menos reflexos e por aí vai, mas não são os únicos. Cair é realmente mais fácil nessa fase da vida, portanto. Como se não bastasse, a gravidade do acidente também pode ser maior, afinal, a pessoa tem poder de reação diminuído e o corpo já não é tão eficaz na recuperação.

Prevenção é o melhor remédio

O velho ditado que diz que prevenir é melhor do que remediar vale com força aqui. Há gente tentando descobrir que papel a tecnologia pode desempenhar nesse ponto. Um trabalho recente (PDF) vem de pesquisadores da Universidade de Missouri, que criaram um sistema de sensores para prevenir quedas.

Quando não for possível evitar, o sistema pode detectar uma queda, como mostra o vídeo abaixo. Assim, pode-se acionar o socorro em tempo hábil. É interessante notar que o Kinect foi usado nos testes, mas é possível implementar a ideia com outros tipos de sensores. Só para você ter ideia, se instalados na cama, sensores hidráulicos podem apontar se um idoso está levantando da cama mais do que de costume à noite, um possível sinal de infecção urinária.

Marjorie Skubic, líder de projeto, explica que os testes começaram há cerca de dez anos. Nesse meio tempo, a sua equipe instalou sensores de profundidade e câmeras em pontos estratégicos de uma casa de repouso em Columbia. Com esses sensores, os pesquisadores conseguiram detectar mudanças em padrões de caminhada e aumento de tremores nos idosos monitorados que, de tão sutis, poderiam facilmente passar despercebidos pelos cuidadores.

Apesar de sutis, essas mudanças não são desprezíveis. Os pesquisadores descobriram que uma diminuição de 5 cm por segundo na velocidade de marcha aumenta em 86,3% o risco de queda nas três semanas seguintes. Já uma diminuição de 7,6 cm no comprimento do passo eleva o risco de queda em 50,6% ao longo dos próximos sete dias.

Essas descobertas são importantes porque, ao notar alguma alteração possivelmente perigosa, a equipe médica pode intervir para prevenir o risco de queda atacando a causa da mudança. Se a diminuição da velocidade de marcha estiver sendo causada por um encurtamento muscular, por exemplo, um tratamento fisioterápico pode ser proposto.

Outro exemplo: se um idoso começa a apresentar tremores leves que não podem ser detectados facilmente apenas com a observação a “olho nu”, a equipe médica pode examiná-lo para descobrir a causa e tratá-lo antes que o problema se agrave e, eventualmente, o faça perder o equilíbrio.

Skubic explica que a sua equipe cogitou usar wearables para monitorar os pacientes, mas desistiu dessa abordagem porque muitos idosos se sentem incomodados com o dispositivo ou simplesmente não se lembram de usá-los de forma consistente.

Mas isso não quer dizer que wearables não possam ser usados. Em 2014, um grupo de pesquisadores criou palmilhas que vibram para estimular os pés e, assim, evitar quedas — a redução de sensibilidade nos pés é outro fator para a perda de equilíbrio nos idosos. A ideia é bem antiga (deve ter uns 15 anos), mas os atuais sensores permitem que as palmilhas respondam de maneira mais condizente a cada caso, além de poderem ser monitoradas via aplicativo.

Enquanto isso

Esse tipo de barra ajuda e muito a evitar quedas no banheiro

Esse tipo de barra ajuda e muito a evitar quedas no banheiro

Nenhuma dessas soluções está pronta para uso em larga escala. Uma causa tão sensível como essa necessita de mais estudos. Mas é bom saber que há gente focada nisso. Se a tecnologia pode ser usada na prevenção, nada mais desejável que as ideias sejam exploradas. O assunto só não pode ser tratado como “normal”, uma inconveniência da velhice.

Por ora, vale a pena adotar medidas para diminuir os riscos. Deixar objetos de uso frequente em lugares de fácil acesso, fixar barras de apoio no banheiro e outros cômodos, colocar corrimão nas escadas e fitas antiderrapantes nos degraus, usar tapetes antiderrapantes, manter o ambiente bem iluminado e com interruptores bem localizados (ao lado da cama, por exemplo), e instalar maçanetas do tipo alavanca nas portas são boas recomendações para evitar acidentes com os nossos queridos velhinhos.