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HEY, LISTEN! Usando expressões dos games na vida real

Izzy Nobre
Por

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Toda subcultura (a “Veja” dos anos 90 chamaria de “tribo”, sem dúvida) costuma ter seu dialeto característico. Os hippies dos tempos de meus pais gostavam dos seus “falou e disse” e “é uma brasa” (creio que posso culpar o Roberto Carlos por isso), surfistas têm o “cabuloso”, presidiários cunharam o “adeva”. Às vezes as gírias se tornam tão características do grupo como um todo que acabam encapsulando a imagem completa deles.

Vou dar um exemplo aqui: dá pra imaginar a frase “Morô, aí!” sendo dita por alguém senão um hippie bem Raul Seixas-style, com a voz arrastada graças a substâncias proibidas, um cavanhaque mal aparado, óculos redondos a la John Lennon e os dedos indicador e médio posicionados perpetuamente em V?

Eu, pelo menos não, consigo. Assim que ouço uma frase tipicamente setentista, me vem à cabeça a trupe do “Caceta e Planeta” fazendo cosplay de hippie estereotípico. Este é o poder que uma expressão característica de um grupo tem.

Gamers não são exceção. Como já falei aqui no Tecnoblog, nós jogadores de videogames temos algumas expressões tipicamente nossas (e com origens interessantes que você pode descobrir clicando no link lá atrás).

Tilt, defusar, zerar e algumas outras são expressões que, quando usadas, identificam o sujeito imediatamente como um gamer. É quase um aperto de mão críptico, meio no estilo de sociedades secretas: se alguém disse “defusar” perto de você, independente do contexto (“a parada lá no trampo tava tensa mas o chefe chegou e defusou o negócio”), você imediatamente achará o uso do termo curioso e imaginará que o rapaz, assim como você, varou madrugadas em corujões de Counter-Strike.

Além destes termos derivados da forma como um mecanismo do game funciona (como é o “tilt”) ou da aportuguesação de um verbete do jogo (“defusar”), existem também as expressões que a gente adota (palavra por palavra) dos próprios personagens dos jogos. Esse tipo de hábito, a que nós brasileiros estamos acostumados quando um bordão novelístico particularmente irritante ganha popularidade fora da televisão, é uma referência ainda mais direta do seu hobby; ele identifica mais ainda porque aponta pra um jogo específico.

Recentemente vimos esse fenômeno semi-novelístico de abuso de um bordão ao ponto da insuportabilidade com o “Eu era um (insira aqui qualquer coisa) até que levei uma flechada no joelho”.  Gamers decidiram que a frase, que é uma piada recorrente em Skyrim, devia ser repetida à exaustão fora do jogo também. Houve um breve momento há alguns meses em que era impossível assistir qualquer vídeo do Youtube sem que um dos comentários mais bem votados não fosse uma variação da piada.

Felizmente o universo gamer é relativamente auto-regulado, então a moda da flecha no joelho parece ter definhado. O mesmo não pode ser dito sobre piadinhas de Chuck Norris, que continuam sendo repetidas mais ou menos 5 anos após terem perdido qualquer graça.

Aqui em casa eu e minha esposa adotamos um outro bordão usado repetidamente em um jogo. Este aqui:

(Vídeo do YouTube)

Ah, a boa e velha Navi, que nos inferniza desde Ocarina of Time. A exasperação da Navi em chamar a atenção do jogador faz a expressão se traduzir perfeitamente para inúmeras situações entre um casal.

— HEY LISTEN você não lavou a louça!
— HEY LISTEN cadê o controle remoto da TV da sala?
— HEY LISTEN você já ligou pro médico pra agendar aquela consulta?

E apesar de usarmos a frase voluntariamente, a cada repetição da expressão (talvez por causa do contexto de cobrar atenção), mais odiável ela se torna. E num ato de total crueldade, apliquei o som como toque de mensagens no celular da patroa, e em seguida enviei umas 40 mensagens para ela. Graças à forma como o celular dela reproduz o som de alerta de mensagens, o barulho resultante parecia um disco arranhado:

“HEY LIST…HEY LIST… HEY L… HEY… HEY… HEY LIST… HEY LISTEN!”

Temo ter causado uma fenda irreparável em meu casamento com o trote, mas valeu a pena.

Você já adotou alguma expressão de um game na vida real? Bônus se usou-a para enlouquecer sua/seu parceira(o).

Izzy Nobre

Ex-autor

Israel Nobre trabalhou no Tecnoblog entre 2009 e 2013, na cobertura de jogos, gadgets e demais temas com o time de autores. Tem passagens por outros veículos, mas é conhecido pelo seu canal "Izzy Nobre" no YouTube, criado em 2006 e no qual aborda diversos temas, dentre eles tecnologia, até hoje.

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