Gamer também tem suas próprias gírias

Relembre algumas notáveis expressões do palavreado de um jogador.

Izzy Nobre
Por

Uma das primeiras coisas que uma subcultura desenvolve é um dialeto próprio. Skatistas tinham suas gírias características, assim como os surfistas — ou pelo menos era o que a revista Veja tentava nos convencer sempre que faziam matérias sobre essa turma. Eles costumavam colocar um infográfico no cantinho da página, com as “traduções” dos termos mais comumente usados.

Até hoje lembro de uma dessas reportagens; segundo a qual o termo “morte horrível” significava pros surfistas tombar da prancha e ter o corpo rudemente jogado contra a própria pela força das ondas.

Tais termos surgem naturalmente para descrever situações do microcosmo da “tribo” que os verbetes da língua-mãe não compreendem. E, como os memes linguísticos que são, tais termos se modificam e se espalham até atingir massa crítica e se tornarem lugar comum entre toda a comunidade.

E nós, gamers, temos diversos termos proprietários. Como, por exemplo…

“Defusar”

Como muitos termos da esfera gamer, este aqui surgiu da aportuguesação de uma expressão gringa. “Defusar” vem dos primórdios das lanhouses, na época áurea do icônico CounterStrike.

Quando jogando no time dos CTs — na falta de um termo lusófono apropriado para o time de policiais de elite, vai a sigla gringa mesmo —, algumas fases exigiam do time a desativação de um explosivo. DE_DUST vem à mente imediatamente.

É como rever um velho amigo, não é?

Ao chegar no local onde a bomba se encontrava, o jogador policial equipado com as ferramentas de desativação desse artefato podia desarmá-la. Os dizeres “defusing bomb” e “the bomb has been defused” apareciam, respectivamente, no caso de uma neutralização bem sucedida.

“Bomb” é tão próximo do termo português que dispensa adaptação, mas “defusing” era um pouco menos familiar. A turma “traduziu” rapidinho pro já tradicional “defusar”, um verbo ausente do Aurélio mas com significado claro (isso é, claro pra nós gamers) de desabilitar ou desativar algo.

“Destravar”

Este aqui é um termo mais antigo cuja persistência é um fenômeno linguístico curioso. Tal qual a imagem dos disquetes nos botões de salvar documentos ou a expressão “caiu a ficha”, o “destravar” continua sendo usado mesmo décadas após a obsolescência do fenômeno que gerou o termo. Até hoje se fala de “destravar” Xbox 360 ou PSP, mas as tais “travas” hoje em dia são na verdade metáforas.

Acontece o seguinte. Existem nos dias de hoje métodos hitech para controlar o tipo de software que o dono de um console pode acessar — digamos, bloqueios regionais, métodos draconianos de DRM ou uma poderosa criptografia que impede que código não-assinado rode no seu videogame —, nos velhos tempos essa “trava” era literal.

Nos SNES vendidos na América do Norte e no Brasil, por exemplo, havia duas travinhas, ambas inexistentes nos consoles japoneses. Isso se refletia em dois sulcos na parte traseira dos cartuchos comercializados no lado de cá — um detalhe que não aparecia nos jogos asiáticos.

Esses sulcos permitiam que apenas os cartuchos próprios para o mercado norte-americano fossem utilizados com os consoles gringos. Um cartucho japonês não encaixava no SNES americano até o fim, sendo literalmente bloqueado.

A solução era abrir o console e, sem a finesse do “destravamento” contemporâneo que se resume a driblar linhas de código, enfiar uma faca ou serrar as travinhas.

E aí, o console estava “destravado”. Sem as odiadas travas.

“Macroar”

Outro termo que veio de primórdios — dessa vez, do MMO.

A turma de mais idade lembra de Ultima Online, o vovô dos MMORPGs. O jogo (como tantos MMOs) exigia que o jogador executasse repetidas ações monótonas pra acumular riquezas ou habilidades que então tornariam o game mais interessante.

E o que a turma espertinha fazia? Apelava pra programas de macro. Macro, para os  não entendidos, é um método de pseudo-programação designado para executar ações preestabelecidas. Em vez de realmente minerar no jogo, o sujeito carregava seu programa de macro preferido, rodava a rotina necessária para que seu personagem executasse as mesmas ações ad infinitum (em outras palavras, “deixava macroando”)e ia dormir.

Na manhã seguinte, contanto que nenhuma variável quebrasse o ciclo de repetição de ações, o sujeito acordava mais rico em dinheirinho virtual.

“Tilt”

Esta aqui é um termo cuja origem acho fascinante. Assim como o “destravar”, o termo se dá graças a um fenômeno atualmente inexistente. Ao contrário do “destravar”, no entanto, o “tilt” não teve a mesma longevidade e meio que caiu em desuso. Mas vale a menção.

O termo vem das máquinas de pinball, os famosos fliperamas. O jogo permitia que o jogador intervisse na trajetória da bola dando um “encontrão” na máquina. O problema é que alguns jogadores eram um pouco mais entusiasmados que outros, e davam sopapos na máquina que ameaçavam sua integridade física.

Para penalizar esse tipo de comportamento, máquinas tinham um sensor que tolerava até uma certa intensidade de pancada. Se o safanão aplicado pelo jogador ultrapassasse o limite permitido pela máquina, os flippers eram desativados e a palavra “TILT” aparecia no monitor da máquina.

“Tilt” significa “inclinação” em inglês; era uma forma de dizer ao jogador “ei, você tá inclinando muito a máquina, pega leve!”. Pra nós, no entanto, o termo virou sinônimo de “quebrou” — afinal, tudo que sabíamos é que o termo acompanhava a desativação dos flippers. De forma pavloviana fomos condicionados a compreender o termo como “ih, deu pau!”.

E por isso “deu tilt” era aplicado a aparelhos a quais o termo não se aplicava de forma literal, como consoles ou até mesmo computadores.

Existem muitas outras expressões típicas do vernáculo gamer. Quais você consegue enumerar?

Relacionados

Relacionados