A evolução da linguagem digital na era dos 140 caracteres

Bia Kunze
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A internet revolucionou costumes e comportamentos de muitas maneiras. Uma delas é o trato com nosso idioma. As novas gerações possuem certa liberdade com as palavras, dando origem à abreviaturas exóticas e neologismos.

Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, não sou contra a linguagem digital.

A linguagem falada, por exemplo, é bem diferente da escrita. Toleramos melhor um “vou pegar ele” falado, mas não o aceitaríamos no lugar de “vou pegá-lo” na escrita, seguindo as normas da língua culta. O mesmo vale para para a web. São contextos diferentes, por causa de necessidades diferentes. Abreviamos as palavras para que tenhamos agilidade nos teclados, principalmente os de dispositivos móveis, que requerem maior destreza manual.

O mesmo vale para os emoticions. Nesta era dos 140 caracteres, temos que ser mais objetivos. Assim, deixamos de lado as sutilezas que uma boa prosa, nos moldes tradicionais, proporciona: transmitir emoções, sensações e sentimentos. As chances de ocorrer um mal-entendido num ambiente virtual, reparem, são muito altas. Frequentemente discussões saudáveis em fóruns, blogs e redes sociais se transformam em banhos de sangue por total inabilidade do emissor em transformar os caracteres de sua mensagem num texto expressivo. Por isso surgiram os emoticons. Eles nos ajudam muito, e o melhor — custam-nos apenas 2 ou 3 caracteres.

Notem que se alguém me contar, por exemplo, uma piadinha machista, um emoticon em minha resposta pode mudar completamente a minha intenção. Se eu responder “seu cretino!!!”, estou zangada. Se eu responder “SEU CRETINO!!!”, estou zangada e gritando. Se eu responder “seu cretino!! ;)” minha piscadinha atesta que posso não ter gostado, mas levei na esportiva. Confesso que sou até meio viciada em emoticons nos finais das sentenças. Certa época tentei cortá-los um pouco, mas desisti. Acho-os até importantes nas redes sociais, afinal, a quantidade de caracteres disponível é tão curta quanto nosso tempo para bate-papos virtuais.

Às vezes alguns desvirtuamentos da sintaxe ocorrem em prol da tão necessária agilidade na comunicação. Confesso que não teria coragem de chegar a alguém dizendo “eu axo” no lugar de “eu acho”, mas não me incomodo quando se dirigem a mim desta maneira em redes sociais.

Os neologismos também ganharam espaço na era digital. Talvez Machado de Assis venha puxar seus pés a noite sempre que você usar o verbo “trollar”. Contudo, por mais bizarros que sejam num primeiro momento, são os neologismos que mantém a língua viva. O problema é quando começam a usar a linguagem virtual fora de contexto. Por exemplo, num exame escolar, ou na comunicação corporativa. Você pode achar natural trocar os “ch” por “x” nos emails da empresa, mas certamente seu “xefe” não verá o excesso de informalidade com bons olhos.

Mas há casos que não consigo tolerar em situação alguma. É o vilipêndio da língua portuguesa. Entrar na seção de comentários dos grandes portais de notícias chega a ser chocante, pois parece que ninguém mais presta atenção no que escreve. Aliás, muitos parecem estar usando um teclado pela primeira vez. Coloco-me a pensar: será que a internet emburreceu as pessoas em massa, ou toda essa gente sempre existiu 3 a web apenas lhes trouxe maior visibilidade?

Alguns “erros” até se transformaram em hashtags no Twitter! Isso é outra coisa que não me conformo. Algum beócio certo dia escreveu “corrão” em vez de “corram”, e até quem sabe disso passa o erro pra frente, e se desculpa dizendo que virou uma expressão padrão no microblog, ou que faz parte da nova cultura digital. Uma ova! É burrice mesmo, ou qual seria a desculpa para se digitar um shift, um til, um “a” e um “o”, no lugar simplesmente de um “a” e um “m”? Papagaios sem miolos.

Sei que muitos podem estar se lixando para o que os outros acham do seu modo de escrever. Pois bem, lembrem-se que meio também é mensagem. Querendo ou não, julgamos as pessoas mais pelo modo como falam ao invés do que falam. E na web, quem maltrata a língua portuguesa fica desacreditado. E acaba sendo julgado, muitas vezes, por aquilo que nem é! Nossa presença na web hoje se tornou importante em todos os aspectos de nossa vida: pessoal, profissional, escolar…

Portanto, antes de emitir uma mensagem, tenha em mente que seu formato também impactará positiva ou negativamente nas pessoas, interferindo no resultado desejado.

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