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Nem Uber, nem 99: apps regionais correm para dominar o interior do Brasil

Aplicativos regionais que preenchem lacunas de grandes empresas podem ter preços um pouco mais altos, mas prometem não deixar passageiros na mão

Ana Marques
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Nem Uber, nem 99: apps regionais correm para dominar o interior do Brasil (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Nem Uber, nem 99: apps regionais correm para dominar o interior do Brasil (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

A crise no setor de mobilidade é destaque no noticiário há, pelo menos, um ano. Depois de terem atingido seu auge, Uber e 99 fazem malabarismo para evoluir o modelo de negócio e contornar problemas em proporções globais. A alta de combustíveis é um dos fatores que tem levado ao cancelamento de corridas e à insatisfação de passageiros — mas há outros.

Nessas lacunas deixadas por empresas multinacionais, os serviços menores, com atuação local, expandem sua presença no país. São plataformas que se adaptam à realidade de cada município para entregar o que as gigantes não conseguem.

Mas como ficam essas pequenas empresas em meio ao agravamento da crise de combustíveis? Elas conseguem driblar a alta nos preços para continuar crescendo no interior do Brasil?

O Tecnoblog conversou com representantes desses serviços para entender melhor o panorama dos aplicativos de mobilidade regionais em meio ao cenário conturbado do setor. O desenrolar dessa história você confere nas linhas a seguir.

Ocupando um espaço pouco explorado

Em um papo com Alécio Cavalcante, CEO da Ubiz Car, conseguimos ter uma visão clara do espaço ocupado por aplicativos regionais no país. O executivo explica que uma das principais limitações que empresas grandes encontram em cidades menores é a cultura. Mas além disso, há particularidades que apenas gerentes locais conseguiriam endereçar.

A confiança necessária

Em lugares mais afastados dos centros urbanos, predomina uma cultura de fidelidade a hábitos tradicionais — as pessoas costumam a ir a um mesmo barbeiro, ao mesmo mercado, mesmo médico, e por aí vai. A razão por trás dessa escolha é a confiança que é depositada, muitas vezes por várias gerações, em um serviço ou pessoa.

Carro em estrada de terra (Imagem: Fernando Brasil/Unsplash)

Segundo Cavalcante, é especialmente por isso que pessoas de municípios menores têm maior resistência a plataformas como Uber e 99 — elas ainda não criaram a identificação necessária. Alécio diz que a Ubiz Car entendeu essa dor e tenta transformar um serviço de esfera global em algo regional. A empresa atua em 20 cidades do Brasil — especialmente no interior do Sudeste (12 operações em MG) e Nordeste.

“Quando você fala de uma empresa do tamanho da Uber, você pensa no modelo de negócio deles, que é muito mais difícil de ajustar para uma cidade só. É uma limitação. Imagine como é para um gigante se locomover — é muito mais doloroso do que para uma empresa pequena, que consegue trazer essa modificação de forma mais rápida. Se ela [Uber] fizesse uma modificação pensando em uma cidade menor, teria que pensar também em todo o território.”

Nesse sentido, a Ubiz Car promete um atendimento diferenciado, não só por aplicativo, mas também com uma central de atendimento (por ligação telefônica) regional, para quem não é familiarizado com tecnologias mais recentes. A empresa criou ainda uma identidade visual que permite ao passageiro estabelecer um vínculo com os motoristas e veículos parceiros.

“As pessoas passaram a olhar para o motorista não como um caroneiro, mas como um profissional, que é o que ele é”, explica Cavalcante.

Alécio Cavalcante e Lucas Alencar, sócios da Ubiz Car (Imagem: Divulgação/Ubiz Car)

Fábio Lucas, CEO da Bora 94 — empresa que atua em Marabá, Parauapebas, Sorocaba, Itu, Votorantim e Araguaína — concorda que a grande diferença entre plataformas regionais e as multinacionais é a adaptação às realidades locais. Ele destacou alguns pontos de foco de sua companhia:

“Sobre segurança, fazemos uma análise mais forte no cadastramento dos motoristas para os passageiros se sentirem mais seguros, além da realização de sorteios, promoções e campanhas, com a presença em um escritório físico no centro da cidade, passando mais credibilidade tanto ao passageiro quanto ao motorista.”

Marcelo Trevisol, responsável pela plataforma de corridas On Mobi, que tem sede em Saquarema, no Região dos Lagos (RJ), contou que por lá as pessoas também reagiram com desconfiança, em um primeiro momento. Ex-motorista da Uber e bombeiro militar, Trevisol lançou seu próprio aplicativo, inicialmente chamado SaquaDriver, com o objetivo de atender ao público de forma localizada, criando os laços necessários para cativar os passageiros da região, que não eram tão abertos às big techs.

E deu certo: para atender à alta demanda de corridas no aplicativo, Trevisol precisou expandir os serviços e permitir o cadastro de motoristas de cidades vizinhas — foi quando a companhia virou On Mobi, que funciona em toda a Região dos Lagos.

Qualidade acima de preço

Outra brecha deixada pelas grandes plataformas, principalmente nos anos mais recentes, tem sido a qualidade do serviço prestado. Já relatamos no Tecnoblog as reclamações de passageiros que não conseguem encontrar motoristas — e que, quando encontram, muitas vezes se frustram ao terem a corrida cancelada.

Motorista de aplicativo (Imagem: Viktor Bystrov/Unsplash)

Para o CEO da Bora 94, este é mais um ponto no qual as empresas regionais podem sair na frente:

“Por estarmos presentes e cientes da realidade local, conseguimos melhorar o atendimento, sendo mais rápidos e efetivos. Uma das maiores reclamações que vejo nas grandes cidades, sobre os grandes aplicativos, é a demora em encontrar um motorista e o excesso de cancelamentos de corridas. Isso não ocorre nas plataformas locais. Nosso aplicativo, por exemplo, tem índice de chamadas canceladas quase que em zero, porque os motoristas dão preferência em usar nossa plataforma. Seja pelas taxas, atendimento, parceria. O usuário do nosso aplicativo também sente isso. Além de ter um atendimento rápido, pode contar com apoio da nossa central.”

Alécio Cavalcante, da Ubiz Car, tem uma visão semelhante. Ele conta que a empresa não atende todo mundo, mas sim aqueles que buscam por maior qualidade:

“Como temos que praticar valores acima da Uber, a gente tem que entregar mais valor. A partir do momento que você recebe um serviço melhor, você está disposto a pagar um pouquinho a mais por isso.”

Wagner Pedro, autor do Tecnoblog, que mora no interior da Paraíba, confirma que a qualidade do serviço de corridas por app de sua cidade entrega uma experiência satisfatória. Segundo ele, o Elitte 83 costuma entregar carros na hora certa, e em mais de 300 corridas realizadas, apenas por três vezes enfrentou cancelamento.

O atendimento é outro quesito elogiado por Wagner — feito por WhatsApp, o suporte “costuma ser bem solícito”, contou.

O efeito da alta de combustíveis

Com o preço de combustíveis subindo no Brasil e no mundo, principalmente com os efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, motoristas de grandes empresas de mobilidade passam por um período difícil. Como as taxas cobradas por essas companhias geralmente têm percentuais maiores do que as de serviços regionais, o que sobra, de fato, para o condutor, é pouco — muitas vezes a corrida não paga um litro de gasolina.

Nesse cenário, há algumas alternativas: cobrar menos dos motoristas, aumentar o preço de corridas para passageiros ou oferecer parcerias que possam ajudar os condutores a amenizar o aumento de um de seus principais insumos de trabalho.

Crise de combustíveis impacta setor de mobilidade regional (Imagem: Reprodução/Pixabay)

Durante as entrevistas com os representantes de aplicativos regionais, notamos que a implementação de cada uma dessas opções pode variar de acordo com o público local.

“A On Mobi fez um aumento da tarifa e viu o movimento cair muito. Como uma empresa pequena, a gente acaba tendo que repassar esse aumento para o cliente também — e diminuímos a nossa taxa de comissão também, ela é de 17%, bem menos do que a de aplicativos maiores, que chegam a descontar até 50%. Tem corridas [em apps de grandes empresas] em que um motorista ganha R$ 4,50, R$ 5,70 — menos do que um litro de combustível. Não tem como a gente concorrer com isso.”

Marcelo Trevisol — On Mobi

Para o representante da On Mobi, os passageiros e as empresas têm que se conscientizar de que o preço da corrida precisa subir. “Motorista tem muita despesa com o carro: manutenção, combustível alto, IPVA, seguro, o dia que ele passa na rua, a alimentação. É tudo muito complicado”.

Marcelo também acredita que os motoristas têm uma parcela de culpa nessa história. “Eles deveriam se valorizar e não atender essas corridas que são baratas demais. Se ele colocar na ponta do lápis, não vale a pena”, avalia.

A plataforma de Trevisol não foi a única que precisou subir os preços de viagens. Daisy Gomes, CEO da Drive Tour Brasil, conta que a crise de combustíveis afetou bastante o serviço que ela representa. O serviço atua em Caruaru e Gravatá (PE).

“O impacto é enorme, comprometendo de forma assustadora os aplicativos locais. A solução utilizada na Drive foi aumentar os valores das corridas e criar promoções onde o motorista, ao atingir algumas metas, tenha tarifa zerada.”

Angelo Toniazzo, CEO da Chofer 46 — aplicativo que está presente no Sul do Brasil — diz que como suas taxas aos motoristas são menores do que de companhias como Uber e 99, os parceiros acabam conseguindo um lucro maior, o que dá uma margem um pouco mais ampla para custear fatores externos, como o preço da gasolina.

“Nosso grande diferencial é a cobrança dos motoristas, visto que temos eles como parceiros e não funcionários. Cobramos muito menos do que as grandes empresas cobram em seus valores de corridas, gerando maior faturamento aos motoristas que correm em nossos aplicativos. O faturamento médio do nosso motorista é entre R$ 4 mil e R$ 5 mil líquido.”

Alécio Cavalcante conta que a Ubiz Car sentiu o impacto de forma mais leve, devido ao seu modelo de negócio. Com a atuação local, as taxas do serviço podem ser cobradas de acordo com o ticket médio de cada cidade, e a plataforma também consegue gerir melhor as parcerias e os benefícios para motoristas.

“Hoje, o combustível representa uma fatia muito grande do parceiro, e esse é um problema que enfrentamos também. Mas enquanto empresa local, nós conseguimos criar uma sinergia maior. Primeiro: conseguimos fazer parcerias regionais com postos de combustíveis para disponibilizar descontos maiores no abastecimento. Em segunda instância, como a gente entrega valor para o passageiro, podemos cobrar por isso. As nossas corridas são um pouco mais caras em relação aos concorrentes, mas temos uma taxa de aceitação maior.”

Planos de expansão: o céu é o limite?

Uma diferença clara que vemos entre as grandes empresas e os apps de atuação regional é que enquanto as multinacionais parecem estar em queda após um grande auge, os serviços locais estão só começando em uma expansão por todo o território nacional. E planos não faltam.

Delivery e novas modalidades

Mulher motorista de aplicativo (Imagem: Jan Baborák/Unsplash)

O CEO da Ubiz Car contou que a plaraforma planeja dobrar o número de cidades em que faz presença até 2023. A meta para os próximos cinco anos é estar em 250 cidades do interior — mas pode mudar, ele explica:

“Dentro dessas falhas que a Uber vem cometendo — no sentido de falta de atendimento e na condição precária dos parceiros —, obviamente, cria-se uma lacuna [nos grandes centros] que está sendo estudada, sim. Parte do nosso objetivo mudou um pouco com base nos déficits que a Uber vem apresentando nesse sentido. Mas é algo que ainda está em análise e pode vir a ser anunciado no próximo ano.”

A Bora 94 é outra empresa que está analisando caminhos para aumentar a quantidade de serviços prestados de forma regional, como conta Fábio Lucas:

“No momento, estamos analisando uma forma de expandir a atuação para a categoria de entregas via delivery, com motoboys. O app já realiza entregas de encomendas via motoristas de carro. Um diferencial que temos é a opção de passageiras mulheres chamarem apenas motoristas mulheres, gerando mais segurança e confiança.”

A modalidade exclusiva para mulheres também está nos planos da Ubiz Car, e deve começar a ser testada em breve, já no próximo mês. Alécio Cavalcante afirma que 70% dos passageiros do serviço são mulheres, mas no lado dos condutores, 85% são homens. Ele explicou ao Tecnoblog que a empresa quer incentivar a participação feminina na plataforma.

E os táxis — são o futuro?

Os táxis — categoria vista pela Uber como “o futuro” — também estão na mira dos serviços regionais. Com a deficiência no atendimento de corridas por aplicativo, é esperada também a volta da procura por táxis.

Conforme explicou o CEO da Ubiz Car, a antiga resistência aos táxis era devido ao preço: “O táxi é naturalmente mais caro por conta do modelo de viagens. Mas se ele se integra a uma plataforma inteligente, ele pode proporcionar um serviço de qualidade cobrando menos”.

Táxi (Imagem: Reprodução/Pixabay)
Táxi (Imagem: Reprodução/Pixabay)

Em alguns locais, a relação ainda é meio conturbada, como contou o representante da Chofer 46, Angelo Toniazzo: “Nossa relação com taxistas é um pouco polêmica em algumas cidades do interior. Alguns políticos estão ‘comprando’ a dor de alguns taxistas mais velhos, tentando aplicar taxas e cobranças de vistorias e laudos para os motoristas.”

Mas muitos motoristas já estão aderindo à mudança tecnológica, e mais empresas estão embarcando nessa estratégia híbrida em todo o país.

A Drive Tour Brasil trabalha com taxistas desde sua fundação, em 2018. Daisy Gomes diz que a parceria permite ao motorista de táxi rentabilizar seu retorno às praças de origem quando fossem para longe de seus pontos. “Isso traria uma economia às despesas com combustível e parte da manutenção”, explicou.

A parceria também é bem vista pela Bora 94:

“Sempre enxergamos essa parceria com os taxistas. Estavam aqui antes dos aplicativos. Nós cadastramos os taxistas em nossas plataformas, oferecendo descontos e cobranças menores para que possam atender também nossas chamadas. Assim, não se sentem lesados e ainda se tornam nossos parceiros.”

Ana Marques

Gerente de Conteúdo

Ana Marques é jornalista e trabalha com tecnologia há 6 anos. Formada pela UFRJ, já passou pelo TechTudo (Globo) e pelo hub de conteúdo do Zoom, onde cobriu eventos nacionais e internacionais, analisando celulares, fones e outros eletrônicos. Em 2019, iniciou a coluna semanal "Vida Digital" no site da revista Seleções (Reader's Digest). Antes disso tudo, cursou Farmácia e fundou uma banda de rock.

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