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Uma olhada no Mate 30 e 30 Pro: e agora, Huawei?

Huawei Mate 30 e 30 Pro querem oferecer câmeras ainda melhores e muito desempenho, mas é difícil competir sem Google

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19/09/2019 às 21h22

Huawei Mate 30 Pro

Direto de Munique — O Mate 30 Pro é o novo celular premium da Huawei, com o melhor processador da empresa, um conjunto de câmeras poderosas com a grife da Leica e uma tela OLED enorme com laterais bem curvadas. Mas, no momento, nada disso importa muito: todo mundo está se perguntando como a fabricante vai lidar com o fato de não poder embutir nenhum aplicativo do Google em seus novos smartphones.

Ainda não temos respostas definitivas para isso, mas eu fui conhecer os aparelhos de perto e conto tudo nos próximos minutos.

Primeiras impressões do Huawei Mate 30 e 30 Pro em vídeo

Hands-on do Huawei Mate 30 e 30 Pro

O Mate 30 e o Mate 30 Pro compartilham muitos detalhes. Ambos vêm com o processador Kirin 990, da própria Huawei, que ficou mais eficiente e potente, principalmente para jogos. As baterias são grandes, de 4.200 e 4.500 mAh, com o mesmo carregamento rápido de 40 watts que me agradou muito no P30 Pro — e agora existe a versão sem fio do carregamento rápido, de 27 watts, para quem comprar uma base compatível.

Huawei Mate 30 Pro

As câmeras da Huawei já provaram seu valor para fotografia no P30 Pro e pouca coisa mudou. Uma das diferenças é que tanto o Mate 30 quanto o Mate 30 Pro têm zoom óptico de 3x (e não 5x como na linha P) — em compensação, a abertura da lente está bem maior (f/2,4), o que pode melhorar o desempenho em cenários noturnos. A outra novidade é que, desta vez, a Huawei deu uma atenção especial para a gravação de vídeos.

O recurso de câmera ultra-lenta chega a 7.680 fps em HD. A demonstração no palco foi bem impressionante, com as asas de um beija-flor podendo ser vistas nitidamente enquanto batiam no ar, mas é claro que a gravação foi realizada nas melhores condições possíveis de luz. Para momentos mais normais, a Huawei promete um alcance dinâmico melhor em filmagens em 4K a 60 fps, o que também deve trazer bons resultados nas gravações à noite — veremos.

Huawei Mate 30 Pro

O design dos dois aparelhos também é parecido, pelo menos na traseira. A Huawei resolveu colocar as câmeras em um calombo no formato de círculo. O círculo é grande — e ainda tem uma borda espessa que reflete a luz de maneira diferente, o que faz o calombo parecer maior ainda. O vidro tem um acabamento em gradiente: ele começa brilhante e vai se tornando fosco na parte inferior, para ficar mais resistente a marcas de dedo. Como você pode ver pelas imagens, não funcionou.

O conector para fones de ouvido foi aposentado definitivamente e a Huawei não desistiu da ideia do formato de cartão proprietário: você pode expandir a memória interna de 128 ou 256 GB, mas não com um microSD, e sim com um NM Card, que a empresa nem chegou a lançar no mercado brasileiro. A boa notícia é que, se você não precisar ampliar o armazenamento, a entrada do NM Card fica livre para um segundo chip de operadora Nano-SIM.

Huawei Mate 30

E a tela pode ser a maior diferença entre os modelos. Os dois têm leitor de impressões digitais embaixo do display, resoluções semelhantes (Full HD+), tecnologia OLED e tamanhos parecidos (6,6 polegadas no Mate 30; 6,5 polegadas no Mate 30 Pro). Mas o Mate 30 é plano, enquanto o Mate 30 Pro tem laterais curvadas. Mais curvadas do que o normal, tanto que a Huawei criou um nome para ela: Horizon Display.

Huawei Mate 30

Huawei Mate 30 Pro

O principal benefício aqui é a ergonomia: como as laterais da tela ficam dobradas, o celular se torna mais estreito e, portanto, mais confortável de segurar com uma mão só. A Huawei também colocou uma besteirinha: o botão físico de volume não existe mais e passou a ser virtual, na lateral da tela. A dúvida que fica é se a tecnologia de rejeição de palma da mão vai funcionar bem — durante meus poucos minutos de teste, tive vários toques acidentais.

Huawei Mate 30 Pro

Tá, mas nada disso interessa por enquanto

Seria muito raso fazer um hands-on do Mate 30 simplesmente citando o número de megapixels da câmera ou dizendo que o Kirin 990 promete ser mais rápido que processador X ou Y.

Huawei Mate 30

Este é o lançamento de celular mais estranho que eu cubro em muito tempo (e olha que estou fazendo isso há quase 10 anos). Primeiro porque nem sabemos se o aparelho chegará a ser vendido no Brasil: alguns acontecimentos recentes na Huawei Brasil e na Huawei Latin America (e que não posso contar publicamente agora) estão sinalizando que o baque na empresa com as sanções americanas foi maior que o esperado. Segundo porque estamos falando de um celular com Android 10, mas que não tem nada do Google. Isso seria normal na China, mas não no ocidente.

Huawei Mate 30

A história é conhecida: a Huawei entrou em uma lista negra de empresas que podem ameaçar a segurança dos Estados Unidos e, de quebra, está bem no centro da guerra comercial entre os chineses e os americanos. Como resultado, a Huawei não pode fechar negócios com empresas americanas. O Android é um sistema operacional aberto e pode ser usado livremente, mas os aplicativos do Google precisam ser licenciados.

Huawei Mate 30 Pro

Sem Google, o Mate 30 e o Mate 30 Pro são aparelhos que contam com um monte de aplicativos chineses e uma loja chamada AppGallery — que obviamente não chega aos pés do Google Play para quem é do ocidente. No evento, a Huawei até tentou mostrar números positivos de sua plataforma própria e criou um fundo de US$ 1 bilhão para incentivar o desenvolvimento de aplicativos. Mas lembra que eles não podem negociar com empresas americanas? Olhe para os aplicativos que você mais usa e veja quais não são feitos por empresas americanas. O único que eu achei foi o Telegram.

Com as restrições da Huawei, é quase impossível criar um ecossistema à altura do Android do Google. A Microsoft já tentou, tinha muito dinheiro e não sofria nenhum embargo comercial do país mais poderoso do mundo, mas o Windows Phone fracassou mesmo assim.

Huawei Mate 30

Então, você, como um bom usuário avançado de tecnologia, diz que sabe ou consegue descobrir uma forma simples de instalar o Google Play em um Mate 30. A verdade é que o usuário comum não vai saber. Como a Huawei está sob uma sanção comercial, não pode endossar ou divulgar um método não oficial de instalar a suíte do Google. Por sua vez, o Google pode bloquear esse tipo de instalação se o governo americano exigir ou para impor suas próprias regras — afinal, o Mate 30 não é um aparelho licenciado.

Huawei Mate 30 Pro

Tudo isso me fez deixar as novidades tecnológicas do Mate 30 em segundo plano. Ele pode ter a melhor câmera, o 5G mais rápido ou a interface mais bonita do mundo, mas, nessas condições, fica muito difícil seguir em frente. A Huawei pode não ter sido tão afetada na China, mas uma empresa desse tamanho não consegue sobreviver no ocidente vendendo para meia dúzia de entusiastas de tecnologia com milhares de reais no bolso para comprar um smartphone.

Como a Huawei vai resolver todo esse rolo? Eu também estou curioso para saber. Espero que da melhor forma possível (e logo).

Paulo Higa viajou para Munique a convite da Huawei.