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Gurus, videntes e sabichões

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10 anos atrás

Vocês estão acostumados a ler, aqui no Tecnoblog, artigos em que falo de cybercultura e a convergência de hábitos do passado com os do presente. Gosto tanto disso que vocês são brindados com alguns rabiscos meus, alguns meio borradões, feitos à mão, com papel, lápis e tinta. E depois escaneados, algo bem anos 90, para não perdermos o vínculo cultural com décadas anteriores.

Hoje, contudo, tomarei emprestado alguns desenhos alheios. Na verdade, algumas gravuras feitas na França em 1910 e colocadas em exposição na Bibliotheque Nationale de France. O tema: “visões do ano 2000”. Há alguns acertos, muitos erros, alguns divertidíssimos:

ano-2000-2ano-2000-1O que mais se vê são pessoas voando, mas confesso que minha favorita é a máquina escolar onde se jogam livros que vão direto para as cabecinhas dos alunos (por áudio? osmose?). Muito revolucionário, ainda que a máquina seja… a manivela.

Há muito mais, vocês podem visualizá-los todos aqui.

Onde eu quero chegar com isso? Atualmente, vemos gurus e videntes de TI dando pitacos (alguns pagos a peso de ouro) sobre tecnologias do futuro, os sistemas que vão vingar e os que vão fracassar, e até como nos comunicaremos num futuro próximo.

Por mais sólidos que sejam os argumentos das Mães Dinás digitais, baseando-se em estatísticas, características técnicas e modelos de negócios, não gosto de ler tais colunas. Passo longe. Dos Apple-gurus, então, penduro até uma ferradura atrás da porta. Uma coisa é exercitar a imaginação, outra é fazer previsões – alguns têm tanta certeza que chega a ser claro que o sujeito engana até a si mesmo.

Ninguém se lembra ou procura saber o que na década de 90 se achava como seriam os anos 2000. No fim de cada ano, um pai-qualquer vai à TV fazer previsões, mas no fim de ano seguinte, ninguém mais se lembra do que ele disse, nem checou se os dados se concretizaram. Do mesmo modo que, quando está para sair alguma novidade da Apple, ninguém procura saber o que os gurus do presente palpitaram no passado.

No campo da tecnologia móvel, então, os gurus baseiam-se puramente em seus gostos (ou filosofias) pessoais para dizer qual presta e qual não presta. Isso quando não há algum interesse econômico por trás. Podem notar: sempre há aquela tecnologia ou produto do momento, que é imbatível. Ou aquela novidade, que chega atropelando, que até ontem ninguém sentia falta e, de repente, vira necessidade básica. Ou então, tecnologias sólidas, com seu nicho de mercado, com base de usuários estabelecida, mas que de repente é condenada à morte, simplesmente porque não agrada ao debatedor por princípios individuais.

Eu também embarquei na área da tecnologia móvel tendo minhas preferências, que sempre defendi e enalteci. Em dado momento, senti necessidade de ampliar meus horizontes e me desamarrar de preconceitos. Para tomar um exemplo, fui conhecendo as mais diversas plataformas de dispositivos móveis – Palm, Windows Mobile, Symbian, Blackberry, iPhone, e mais recentemente Android. Antes de elogiar ou criticar cada uma, é preciso conhecê-las a fundo. Não digo abrir a tampa de um aparelho e esmiuçar seus chips, mas conhecer as pessoas que o utilizam, com que finalidade, e de que modo. Porque é para as pessoas que elas são feitas.

Assim, ao invés de declarar que tal plataforma não serve para nada, ou que aquela outra é a mais maravilhosa do mundo, confirmo que cada uma supre as necessidades de grupos específicos. Leva-se em conta os fins e as qualidades dos produtos, mas também a percepção pessoal de cada indivíduo, seu papel na sociedade e até fatores cognitivos ou físicos – como acuidade visual e coordenação motora.

O melhor de aprender mais e mais sobre cada plataforma móvel é que se conhece o quanto as pessoas são diferentes, o quanto uma mesma tecnologia pode trazer resultados tão diversos. E é isso que os gurus de TI não levam em conta ao dar seus palpites: as pessoas. Pessoas mudam, pessoas aprendem, pessoas amadurecem, pessoas envelhecem. Esse ambiente tão mutável nos impede de declarar sobre tecnologias perdedoras e vencedoras. Além disso, concorre a competência de cada empresa e a capacidade dela de levar a novidade adiante – elas também mudam, e muito rápido.

Falar de “tendências em TI” é como ser economista ou meteorogista. Você analisa possibilidades. Ingressar no campo das previsões, enaltecendo o sucesso de certas tecnologias em detrimento de outras, é puro exercício de futurologia. Prefiro que o tempo responda às nossas expectativas, e não um articulista com aura de vidente. Também prefiro ler um bom livro à coluna de horóscopo do jornal. E vocês?