Do Uber ao táxi: passageiros trocam de serviço em meio aos cancelamentos

Devido a cancelamentos, atrasos e preços altos, usuários da Uber e 99 voltam a utilizar táxi; plataforma do RJ oferece até 40% de desconto

Bruno Gall De Blasi
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Do Uber ao táxi: passageiros trocam de serviço em meio aos cancelamentos (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)
Do Uber ao táxi: passageiros trocam de serviço em meio aos cancelamentos (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

táxi permaneceu em segundo plano desde que a Uber chegou ao Brasil. Afinal, o app desembarcou no país com propostas para lá de ambiciosas, como preços competitivos e a promessa de oferecer mais qualidade. Mas, de uns tempos para cá, os amarelinhos se tornaram uma alternativa necessária aos passageiros que encaram problemas como cancelamentos constantes e aumento no tempo de espera.

Esta é a minha realidade. Desde que a crise dos apps começou, passei a olhar para o táxi com mais carinho. Até cheguei a relatar a situação em outra reportagem do Tecnoblog, quando o meu pedido de corrida foi cancelado cerca de vinte vezes no Rio de Janeiro (RJ). Depois disso, desisti e pedi o bom e velho amarelinho, que me atendeu em menos de cinco minutos.

No entanto, eu não sou o único a passar por isso. Nesta quinta-feira (5), uma pessoa de São Paulo (SP) brincou no Twitter que teve que pegar um táxi “tal qual uma neandertal” pois nenhum motorista de Uber aceitava a corrida. Tem até quem pense em desinstalar o app devido aos problemas do serviço:

“Está cada vez mais próximo o dia que vou desinstalar o Uber [do meu celular] e voltar a usar táxi nos momentos que não for conveniente andar de ônibus”, disse outra pessoa, nesta quarta-feira, na mesma rede social. “A Uber simplesmente morreu”. 

Passageiros se queixam de cancelamentos, atrasos e preços altos na Uber e 99 (Foto: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)
Passageiros se queixam de cancelamentos, atrasos e preços altos na Uber e 99 (Foto: Bruno Gall De Blasi/Tecnoblog)

Uber e 99: baixa qualidade no serviço e preços altos

A situação é reflexo dos problemas enfrentados por passageiros ao utilizar serviços como 99 e Uber. Desde 2021, os usuários dos dois aplicativos vêm relatando dificuldade para utilizar as plataformas devido aos cancelamentos constantes e demora no atendimento. Não à toa, tornou-se imperativo buscar alternativas para contornar esses problemas cotidianos.

É o caso do economista João Berdeville, que mora em São Paulo (SP). Ao Tecnoblog, ele contou que voltou a usar mais metrô e ônibus porque, às vezes, chega a ser mais rápido e mais confortável do que esperar um Uber ou táxi. Porém, quando vai para um lugar mais longe ou precisa levar algo, ele passou a dar preferência ao táxi.

A troca se deu devido à condição atual da Uber, especialmente em relação à demora e à baixa qualidade dos carros. Mas as queixas não estão limitadas apenas ao período da pandemia e à capital paulista. Ele explica que, em 2021, visitou Foz do Iguaçu e optou por não alugar um carro para usar Uber. “Foi muito difícil”, relatou. “Muitas vezes essa experiência ruim do app se reproduz em outro lugar, e por causa disso, voltei a usar muito o serviço de táxi.

A situação é parecida com a do músico Pedro Alvorada, que mora no Rio de Janeiro (RJ). “Eu usei muito o Uber e 99, só que de um tempo para cá, eles estão muito caros: o preço está praticamente igual ao do táxi”, disse. Ele também relatou a demora ao usar o serviço da Uber e que “os carros estão caindo aos pedaços”.

“Acredito que seja parte da empresa que não dá uma ajuda de custo, não dão nada”, afirmou o músico. “A gente olha para a Uber como um baita serviço, mas eles não estão aptos para isso.”

Usuários de Uber e 99 voltam a usar táxi no dia a dia (Imagem: Rodrigo Soldon Souza/Flickr)
Usuários de Uber e 99 voltam a usar táxi no dia a dia (Imagem: Rodrigo Soldon Souza/Flickr)

Da Uber e 99 para os amarelinhos

Após lidar com a situação, o músico buscou a mesma alternativa: o táxi. Em conversa com o Tecnoblog, Pedro Alvorada relatou que dois fatores motivaram a troca de serviço. “O primeiro foi tomar conhecimento que a Uber e 99 tiram uma porcentagem muito grande dos ganhos dos motoristas”, disse. O segundo está relacionado à própria experiência ao usar as novas plataformas.

“Eu decidi olhar para o Táxi.Rio com mais carinho porque estava com falta de crédito. Eu estava com o limite estourado e eu não conseguia colocar o meu cartão de débito na Uber”, explicou. “O Táxi.Rio estava aceitando pagar com o cartão, podia fazer Pix e tudo mais, então eu comecei a usar mais”.

Mas este não foi o único problema que a plataforma resolveu. O músico afirmou que, com o aplicativo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro para o serviço de táxis, ele não precisa mais esperar muito tempo para ser atendido. “Sempre tem um táxi aqui nas redondezas”, disse. “Até mesmo tarde da noite ele vale a pena, pois não fico esperando dez, vinte minutos por um Uber – o que eu já fiquei”.

Táxi.Rio Cidades está disponível no Rio de Janeiro e em outros municípios (Imagem: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro)
Táxi.Rio Cidades está disponível no Rio de Janeiro e em outros municípios (Imagem: Divulgação/Prefeitura do Rio de Janeiro)

Táxi.Rio Cidades oferece até 40% de desconto

A alternativa parte de uma solução da Prefeitura do Rio de Janeiro. Trata-se do Táxi.Rio que, recentemente passou a se chamar Táxi.Rio Cidades, o app oficial para pedir um táxi na capital fluminense. Mas, diferentemente da 99 e da Uber, o serviço utiliza o taxímetro e um sistema mais democrático para definir os valores da viagem.

A Secretaria Municipal de Fazenda e Planejamento (SMFP) explicou ao Tecnoblog que a plataforma não tem a “imposição de algoritmos” que determinam as tarifas dinâmicas. O serviço funciona assim: ao pedir uma corrida, o passageiro pode escolher tanto viagens no preço cheio quanto corridas com descontos que variam de 10% a 40%. Enquanto isso, a plataforma mostra exatamente quantos motoristas estão disponíveis em cada opção.

Este sistema beneficia os dois lados. Isto porque os motoristas só fazem corridas se concordarem com a oferta. Ou seja, se ele selecionou que vai oferecer apenas corridas com 10% de desconto, ele não terá que aceitar viagens com uma redução de 40% no valor. Segundo a SMFP, “a oferta média de desconto em relação ao valor final das corridas é de 35%”.

Da parte do passageiro, o app oferece uma oportunidade para economizar. Pegando a minha experiência com exemplo, sempre notei que há mais motoristas nas faixas sem desconto e com oferta de 10%, reduzindo o tempo para que uma corrida seja aceite. Porém, se é uma viagem para um lugar longe – ou seja, mais cara –, volta e meia consigo pedir um táxi com 40% de desconto sem muito esforço.

Táxi.Rio permite que usuário escolha se deseja viagens com desconto de até 40% (Imagem: Reprodução/App Store)
Táxi.Rio permite que usuário escolha se deseja viagens com desconto de até 40% (Imagem: Reprodução/App Store)

Número de corridas aumentou desde 2019

A estratégia está funcionando. Segundo a secretaria, a plataforma já conta com 1,1 milhão de usuários e 37 mil taxistas cadastrados. Além disso, o fluxo de passageiros aumentou consideravelmente, mesmo com os impactos da pandemia no setor. “O número de passageiros transportados em 2019 (2 milhões) subiu 26% na comparação com 2021 (2,6 milhões)”, informaram. 

O número de corridas também subiu 89% no primeiro trimestre de 2022 em relação ao mesmo período de 2019: de 1,3 milhão para 2,46 milhões. Já tempo de aceitação das corridas teve uma queda de 38% enquanto o tempo de embarque alcançou uma redução de 17%.

O primeiro trimestre angariou outros números notáveis à plataforma. A Secretaria Municipal de Fazenda e Planejamento informou que 751 mil passageiros foram transportados nos três primeiros meses de 2022. Trata-se de um aumento de 27% em relação ao mesmo período de 2021, quando alcançou 589 mil passageiros transportados.

Parte desse sucesso foi alcançado com melhorias implementadas em 2021. Em outubro, a plataforma ganhou uma nova versão, que incluiu a inserção do pagamento ao motorista pelo Pix e maior precisão do mapa. “Após essas melhorias, observamos que houve aumento gradativo da procura pelo aplicativo”, concluiu a secretaria. 

O serviço ainda foi levado para outros municípios, justificando o novo nome do app: Campos dos Goytacazes (RJ), Maceió (AL), Miguel Pereira (RJ), Nilópolis (RJ), São João de Meriti (RJ), Teresópolis (RJ) e Volta Redonda (RJ). “Outras 65 cidades entraram em contato com o município demonstrando interesse em importar a ferramenta”, disse a entidade.

Outras melhorias estão na fila para serem implementadas. A Prefeitura do Rio de Janeiro também pensa em implementar o pagamento direto pelo aplicativo. “estudos técnicos estão sendo conduzidos para evitar fraudes nas operações”, afirmaram ao Tecnoblog. Atualmente, o pagamento pode ser feito no dinheiro, maquininha de cartão ou Pix.

A Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) ainda informou que, atualmente, o Rio de Janeiro (RJ) tem 47,4 mil taxistas cadastrados. Desse montante, 32,1 mil são permissionários e 15,2 mil são auxiliares.

Número de corridas de táxi solicitadas pelo Táxi.Rio aumentou desde 2019 (Imagem: Reprodução)
Número de corridas de táxi solicitadas pelo Táxi.Rio aumentou desde 2019 (Imagem: Reprodução)

Mas nem tudo são flores…

Apesar das vantagens oferecidas pelo táxi, o serviço ainda não agrada a todos os públicos. De fato, sempre há um carioca para contar uma história bizarra envolvendo táxis. O próprio caso dos cancelamentos já aconteceu no passado, antes mesmo de a Uber existir. Além disso, quem aqui do Rio de Janeiro se lembra das brigas entre taxistas nos aeroportos da cidade?

Felizmente, houve melhorias. Mas isto não significa que a modalidade é um mar de rosas. Nesta segunda-feira (2), mesmo, usei o Táxi.Rio para solicitar um carro em um shopping de Botafogo: na primeira tentativa, o motorista cancelou. Na segunda, o taxista seguiu viagem para Copacabana e cancelou, até que desisti e peguei um carro que estava parado na rua.

O secretário-geral da Associação Profissionais por Aplicativo (APP), conhecido como Lívio do Uber, ressalta que o táxi nem sempre é uma alternativa para todos. Ele explicou ao Tecnoblog que se você estiver na Cinelândia, no Centro, e quiser um carro para o Méier, na Zona Norte, não será muito fácil conseguir uma corrida pelos apps. E com o táxi não será muito diferente.

“[O taxista] prefere ir para a Zona Sul, que tem um pouco de trânsito, mas sabe que lá vai ter passageiro”, disse. “Na Zona Oeste e Zona Norte, os táxis continuam ‘batendo banco’, porque a disparidade de preço dos táxis para os aplicativos acaba fazendo com que as pessoas continuem insistindo em usar o app”.

De fato, este é um grande limitador. Já insisti na 99 e Uber algumas vezes porque estava indo para um lugar longe ou a bandeira dois fez os preços dispararem. É só pegar uma corrida do metrô da Barra da Tijuca até o Recreio como exemplo: ao simulá-la pelo 99Táxi na tarde desta quinta-feira (5), a corrida ficou na casa dos R$ 70. Pelo 99Pop, a viagem custava cerca de R$ 40.

Motoristas de Uber e 99 se queixam de alta no preço dos combustíveis (Imagem: Paul Hanaoka/ Unsplash)
Motoristas de Uber e 99 se queixam de alta no preço dos combustíveis (Imagem: Paul Hanaoka/ Unsplash)

Preço do combustível está por trás dos cancelamentos

Apesar dessa vantagem ao consumidor, nem sempre esta balança é justa. Perguntei ao Lívio do Uber o que está por trás dos cancelamentos e atrasos nos aplicativos. Na conversa, o secretário-geral citou os mesmos problemas levantados pelo presidente da AMASP (Associação dos Motoristas de Aplicativo de São Paulo) em 2021: valores baixos pagos por viagens e o aumento no preço dos combustíveis.

“A nossa realidade diária é muito trabalho e pouca renda. O preço do combustível aumentou de forma absurda: nesse ano, teve um reajuste no Rio de Janeiro em que o preço do GNV [Gás Natural Veicular] foi para uma média de R$ 4,60”, explicou Lívio. “Então, para encher um cilindro como o meu, gasto aproximadamente R$ 72 por dia, para você ter ideia de como a situação está difícil.”

Lívio também ressalta que os aplicativos alteraram a fórmula para calcular o pagamento das corridas. Ele explica que, assim que a Uber chegou ao Brasil, a plataforma pagava um certo valor aliado a dois multiplicadores: tempo e por quilômetro rodado. “A taxa fixa na Uber sempre foi de 25%”, disse. “O negócio era bom porque, apesar de ser um valor alto, era fixo”. 

Mas isto mudou. O secretário-geral da APP afirma que a Uber acabou com o multiplicador de tempo e com a tarifa dinâmica, e ainda colocou as viagens com um preço fixo. “A grande razão [para os cancelamentos] hoje é essa: você não vai conseguir carro porque não compensa para a gente o deslocamento até você e depois sair dali para o seu destino”, disse. “Não somos mais remunerados pelo tempo que a gente está se deslocando”.

“Se eu for até você, aquela viagem vai me dar prejuízo, porque vou gastar muito combustível, perder muito tempo no trânsito e mais tempo conduzindo até o seu local”, complementou. Lívio também ressaltou que esta lógica é seguida pela 99.

“As maldades são as mesmas: as duas não pagam mais quilômetro-hora, as duas não pagam mais a dinâmica com multiplicador e as duas não têm mais uma taxa fixa”, disse o secretário-geral. 

99 oferece auxílio variável para motoristas que aumenta sempre que a gasolina sobe (Imagem: Divulgação/99)
99 oferece auxílio variável para motoristas que aumenta sempre que a gasolina sobe (Imagem: Divulgação/99)

O que dizem as empresas citadas?

Procurada pelo Tecnoblog, a 99 disse que tem mais de 750 mil motoristas parceiros cadastrados, incluindo taxistas. “A empresa atua em 1.600 cidades do país e esclarece que o índice de cancelamento na plataforma registrado em todo o Brasil nos últimos 12 meses está abaixo de 5%, a menor porcentagem do setor”, afirmaram. A plataforma também relembrou que lançou um auxílio variável no ganho do motorista que aumenta sempre que a gasolina sobe.

“Com isso, a empresa soma R$ 0,10 por quilômetro rodado para cada R$ 1 de aumento do combustível em todas as 1,6 mil cidades onde a empresa opera”, disse a empresa. “O objetivo é garantir que os motoristas parceiros sempre tenham ganho no serviço prestado ao passageiro.”

Uber não respondeu aos questionamentos sobre a queda na qualidade do serviço e sobre as queixas dos motoristas. Mas ressaltou a sua nova aposta global no serviço de táxis. A empresa ainda relembrou a existência do Uber Taxi no Brasil, atualmente disponível apenas em São Paulo (SP).

Uber oferece modalidade para pedir táxis em São Paulo (Imagem: Reprodução)
Uber oferece modalidade para pedir táxis em São Paulo (Imagem: Reprodução)

Amobitec (Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia) afirmou que houve um aumento na demanda por corridas com a retomada das atividades presenciais. “O maior tempo de espera verificado em alguns locais e horários, assim como tarifa mais elevada, são ocasionados pelo aumento exponencial da procura por corridas, levando a um desequilíbrio temporário entre a oferta e a demanda no mercado”, justificou.

A associação ainda falou sobre a remuneração dos motoristas. Em nota, a entidade afirmou que as empresas “acompanham com atenção a oscilação do preço dos combustíveis” e que “atuam dentro de suas características de operação”. Além disso, cada plataforma possui estratégias próprias para definir os preços com base em fatores como a distância, tempo, condições de trânsito e mais.

“Sobre os cancelamentos, os motoristas parceiros de aplicativos são profissionais independentes e, assim como os usuários, podem cancelar viagens se julgarem necessário”, explicou o grupo.

Bruno Gall De Blasi

Bruno Gall De Blasi é jornalista e cobre tecnologia desde 2016. Sua paixão pelo assunto começou ainda na infância, quando descobriu "acidentalmente" que "FORMAT C:" apagava tudo. Antes de seguir carreira em comunicação, fez Ensino Médio Técnico em Mecatrônica com o sonho de virar engenheiro. Entrou para o Tecnoblog em 2020 e também escreveu para o TechTudo e iHelpBR.

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