Escassez de areia afeta silício dos chips e faz surgir mercado pirata

A areia é o segundo material mais explorado do mundo, perdendo para a água; material é usado em vidro, construção e até em chips

Emerson Alecrim
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Por meio de um relatório divulgado em abril, a Organização das Nações Unidas (ONU) pediu providências contra uma “crise de areia” global. Parece exagero, não? Mas a demanda por areia tem crescido em níveis alarmantes. Esse cenário gera escassez de matéria-prima na construção civil, na fabricação de vidro e na produção de chips, por exemplo. Não por acaso, grupos que “pirateiam” areia são cada vez mais comuns.

Areia (imagem: wal_172619/Pixabay)
Areia (imagem: wal_172619/Pixabay)

Talvez você esteja se perguntando se chips são feitos de areia. Não, exatamente. De maneira resumida, os chips que equipam nossos computadores ou celulares são feito de silício, um material semicondutor. O que a indústria faz, basicamente, é extrair silício da areia por meio de diversos processos.

Tudo bem até aqui, afinal, areia é um material abundante, certo? De novo: não, exatamente. Existe muita areia no mundo, mas não é qualquer tipo que é usado pela indústria de semicondutores. Os fabricantes recorrem a tipos que resultam na extração do silício mais puro possível.

Essa restrição não existe só na indústria de semicondutores. Também não é qualquer tipo de areia que pode ser usado na construção civil, por exemplo. Nesse setor, os tipos ideais muitas vezes são extraídos das margens de rios ou lagos. A areia dos desertos não serve. Você já sabe quais são as consequências possíveis: danos ambientais.

50 bilhões de toneladas por ano

De acordo com a ONU, a extração de areia, junto com a de cascalho, já atinge 50 bilhões de toneladas por ano. E olha que esse número considera somente as indústrias de vidro, concreto e materiais de construção.

O maior problema está no fato de a extração ser realizada de modo cada vez mais predatório. Impactos ambientais já são sentidos em alguns lugares. A ONU aponta, como exemplo, que a remoção exagerada de areia reverteu o curso das águas de um rio do Sri Lanka.

Também há registros de pequenas ilhas que desapareceram, de rios que encolheram e de ecossistemas que entraram em colapso por causa da extração desenfreada de areia.

Pirataria de areia

A areia é o segundo recurso natural mais explorado do mundo, ficando atrás apenas da água. “Piratas de areia” têm uma participação importante nisso. A demanda cresceu tanto que causou uma situação de escassez. Como efeito, grupos que extraem areia de maneira ilegal vêm surgindo em várias partes do mundo. A atuação deles é bastante pronunciada em países como Camboja, Vietnã e Quênia, só para dar alguns exemplos.

A Euronews aponta que a remoção irregular já foi registrada em pelo menos 70 países. Apesar disso, os governos dessas nações parecem não saber a quantidade exata de areia que é removida irregularmente de seus territórios.

Em outras palavras, o problema pode ser mais grave do que aparenta.

O problema causa escassez de chips?

Chip (imagem: divulgação/Intel)
Chip (imagem: divulgação/Intel)

O problema da extração desmedida de areia nos faz pensar na escassez global de chips que perdura desde 2020. Não há nada indicando que existe relação de uma coisa com a outra, no entanto (ainda não). A principal causa da crise no setor de semicondutores é a demanda que aumentou para além da capacidade de produção da indústria.

Mas o relatório da ONU acende um alerta sobre todos os setores, inclusive no de chips. A superexploração de areia já tem gerado consequências ambientais, o que, por si só, é um problema muito grave.

Além disso, a escassez de areia pode tornar esse material tão valorizado que a tendência é a de a remoção irregular aumentar ainda mais. Essa situação alimenta vários outros problemas, como exploração de trabalho, elevação de custos e, eventualmente, desabastecimento de matéria-prima.

Proibir a extração de areia em locações específicos (como praias), a criação de um padrão internacional de dragagem a partir do mar e mais controle sobre a demanda são algumas das medidas apontadas pela ONU para o tratamento do problema.

Mas essas só são ideias. A questão é: quando elas entrarão em prática?

Com informações: Foreign Policy, Reuters, BBC.

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