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Efeito Tetris: quando elementos dos games “aparecem” no mundo real

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4 anos atrás

Efeito Tetris

Você não está mais jogando Forza Motorsport, mas ainda escuta carros de corrida acelerando. Ou se deita para dormir e vê blocos de Tetris caindo assim que fecha os olhos. Ao sair da sala, por uma fração de segundo, você tem a sensação de que um monstro de Resident Evil vai aparecer no final do corredor.

Já passou por algo parecido? Pois saiba que essas percepções irreais são relativamente comuns com quem passa várias horas ininterruptas jogando. Essas ocorrências têm até nome: Game Transfer Phenomena (GTP) — Fenômeno de Transferência de Jogo, em tradução livre. Há também uma denominação popular, por assim dizer: efeito Tetris.

Essa expressão, efeito Tetris, não foi cunhada aleatoriamente. Em 1994, o jornalista Jeffrey Goldsmith publicou uma matéria na Wired em que relata a sua curiosa experiência depois de jogar Tetris demais durante uma estadia em Tóquio: “à noite, formas geométricas caíam na escuridão enquanto eu estava deitado no tatame”. “Efeito Tetris” apareceu pela primeira vez nessa publicação para designar as sensações pós-jogo, mas os primeiros relatos sobre o assunto surgiram na década de 1980.

Hoje, com a oferta muito mais ampla de games e a disponibilização de títulos cada vez mais realistas, os relatos sobre sensações associadas a jogos se tornaram mais frequentes. Estima-se que 12% dos jogadores regulares passam por isso de alguma forma. Não por menos, o efeito Tetris virou alvo de estudos.

Duck HuntUma das pesquisas mais abrangentes vem sendo conduzida pela psicóloga Angelica B. Ortiz de Gortari, da Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido. A pesquisadora, que prefere o nome Game Transfer Phenomena por considerar “efeito Tetris” muito limitado, resume o fenômeno como sendo a associação de características de jogos com elementos da vida real que fazem a pessoa ter sensações ou pensamentos subsequentes relacionados ao game. É isso que te faz, por exemplo, enxergar cenas do jogo quando você fecha os olhos.

Na verdade, qualquer evento muito marcante pode causar sensações ou lembranças recorrentes, não precisa ser só com jogos. Quando eu passo várias horas na praia, por exemplo, as primeiras imagens que aparecem na minha cabeça quando me deito são as ondas do mar.

Robert Stickgold, psiquiatra de Harvard, fez um estudo sobre o assunto em 2000 para descobrir porque ele permanecia sentindo rochas nas mãos depois de escalar montanhas. Na ocasião, Stickgold se voltou para o Tetris por entender que o jogo ajudaria a reproduzir as sensações em laboratório.

Funcionou: depois de um longo período jogando, os voluntários que participaram do experimento passaram a enxergar peças de Tetris flutuando momentos antes de cair no sono. A parte mais curiosa é que alguns deles receberam amnésicos. Esses participantes não se lembravam do jogo, consequentemente, mas mesmo assim viam as peças flutuando ao fechar os olhos — “eu não sei o que elas são. Gostaria de lembrar, mas elas se parecem com blocos”, relatou um deles.

De fato, em relação aos jogos, as sensações podem ser mais intensas do que em outras circunstâncias, provavelmente pelo nível de concentração exigida. Por conta disso, além de imagens que aparecem quando os olhos são fechados, a pessoa pode enxergar efeitos de luz ou objetos irreais, ouvir sons característicos, interpretar objetos reais como itens virtuais (tal como a imagem de abertura do post sugere), e até esperar por ações associadas ao game.

Há também casos que podem ser um pouco mais duradouros ou atrelados a determinadas circunstâncias. Como parte do estudo, Ortiz de Gortari analisou 192 relatos sobre efeito Tetris de 155 jogadores que contaram as suas histórias em fóruns online. Em um deles, um jogador revelou que costumava ouvir a sirene de Silent Hill toda vez que anoitecia.

South Park - nerd

Note que essas sensações não são nenhum prenúncio de loucura ou qualquer coisa do tipo, ao menos não para a maioria dos indivíduos. Via de regra, mesmo as sensações mais intensas têm curta duração e acontecem alguns minutos após o término do jogo. A pessoa não perde a noção da realidade e, muitas vezes, até acha graça dessas percepções.

É verdade que algumas pessoas ficam um tanto preocupadas com isso e se perguntam se estão jogando demais ou se a repetição do fenômeno pode trazer algum problema, ainda que em um futuro distante. Esse é um dos aspectos que estão sendo avaliados pelos pesquisadores, mas tudo indica que não — a princípio, as sensações são apenas respostas do cérebro aos estímulos.

Não é difícil entender, ainda que o mecanismo do fenômeno não esteja totalmente claro: Ortiz de Gortari explica que sons, imagens e artefatos visuais que se apresentam de maneira repetitiva nos jogos normalmente são associados a ações e eventos da trama retratada ali; assim, quando a pessoa se depara com elementos similares no mundo real, o cérebro tende a responder a eles como se você ainda estivesse jogando. Mas logo a parte racional da mente percebe que aquilo não faz sentido e mantém tudo sob controle.

É como se houvesse um modo automático que faz com que, durante o game, o cérebro responda com agilidade aos estímulos. Mas esse modo automático não é desligado imediatamente após o término da jogatina, principalmente quando o envolvimento do jogador tiver sido muito grande. Por esse motivo, a pessoa pode levar algum tempo para desassociar estímulos reais dos elementos do game.

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Dor de cabeça, olhos cansados, fadiga e outras manifestações físicas são indícios confiáveis de que talvez você esteja jogando tempo demais e deva fazer uma pausa. Mas muita gente ignora esses sinais e continua jogando. Nessas circunstâncias, o efeito Tetris surge como um sintoma, não como o problema em si: a equipe de Ortiz de Gortari constatou que as sensações mais intensas se manifestam em pessoas que passam várias horas jogando, mas várias horas mesmo, às vezes durante toda a noite.

De qualquer forma, os pesquisadores continuam empenhados em descobrir se, no longo prazo, o efeito Tetris pode trazer alguma decorrência negativa para o jogador. Na dúvida, continua valendo o bom senso: se o corpo já dá sinais de cansaço ou se a diversão se transformou em impulso, é melhor continuar o jogo mais tarde.

Nesse ínterim, os pesquisadores tentam desvendar outros mistérios acerca do assunto, por exemplo: há algum tipo de jogo que pode causar sensações mais intensas? As sensações podem variar conforme a idade? O efeito Tetris pode ser benéfico de alguma forma?

No final das contas, a busca por essas e outras respostas pode dar uma forcinha à ciência na eterna missão de entender como o cérebro humano funciona. Eventualmente, o efeito Tetris poderá até ajudar na compreensão de transtornos mentais como a esquizofrenia (que tem entre seus sintomas a perda de contato com a realidade), dada a imersão que os jogos nos proporcionam em contextos fantasiosos.

Com informações: Brain Decoder, Polygon, Forbes