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O que são os chans da deep web e por que eles são associados a massacres

Extremistas usan chans (fóruns anônimos) para disseminar o ódio. Qual a relação deles com massacres como o de Suzano?

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22 semanas atrás
Teclado - imagem ilustrativa (por: Pexels)

Uma linha de investigação do Ministério Público de São Paulo tenta descobrir se os autores do massacre de Suzano obtiveram informações em fóruns extremistas sobre como agir nos ataques. Se positivo, não vai ser a primeira vez: os chamados chans — fóruns anônimos, basicamente — estão relacionados a outros ataques, como o de Realengo, em 2011, e o de Toronto, em 2018.

Esses e outros atentados, incluindo o de Christchurch, na Nova Zelândia, executado na mesma semana do ataque de Suzano, são crimes de ódio. Um ódio que é alimentado de modo assustador em comunidades online, principalmente na deep web. É por isso que é importante entender o papel desses espaços como catalisadores de tanta barbárie.

O que é um chan

Embora o nome chan seja um diminutivo da palavra em inglês “channel”, as origens desse tipo de fórum remontam ao Japão. Os primeiros grupos do tipo surgiram por lá perto dos anos 2000 e, em pouco tempo, o conceito se espalhou para diversos países, incluindo Estados Unidos e Brasil.

O chan mais conhecido da atualidade é o 4chan. Criado em 2003, o site foi inspirado no Futaba Channel, também chamado de 2chan: esse fórum foi montado no Japão em 2001 e é bastante acessado por lá até hoje.

A dinâmica desses fóruns é simples: para começar, não é obrigatório ter cadastro. Todos os usuários podem postar mensagens sem se identificar. Além disso, os tópicos normalmente são iniciados com imagens que podem ter ou não relação direta com os assuntos discutidos, razão pela qual esses espaços também são chamados de imageboard.

Note que, originalmente, os chans não foram criados para abrir espaço para assuntos nefastos. Nos mais populares, é possível encontrar tópicos sobre jogos, animes e história, por exemplo. Polêmicas são bem-vindas e até estimuladas nesses sites, mas conteúdos que violam as leis são proibidos, pelo menos nos mais populares.

4chan

4chan

No que se conhece como deep web, porém, é muito mais fácil preservar o anonimato. Não é de se estranhar que uma enormidade de atividades ilegais seja encontrada por lá. No meio disso estão chans extremistas, criados especificamente para promover o ódio.

Em uma explicação bem simplificada, a web que a ampla maioria das pessoas acessa — e de onde você lê este texto — corresponde à chamada surface web. Mais abaixo está a deep web. As páginas existentes ali não são indexadas por mecanismos de busca como Google e Bing. Existe ainda a dark web. Trata-se das camadas da deep web, vamos dizer assim, que concentram páginas e redes para atividades obscuras.

Pois bem, seguindo essas definições, os chans extremistas fazem parte da dark web. Rastrear atividades ilegais é muito mais difícil ali — difícil, mas não impossível —, motivo pelo qual fóruns do tipo são relativamente comuns nessa parte da deep web.

Quem cria esses fóruns e por quê?

Momentos antes de entrar em uma van e, com ela, atropela dezenas de pessoas em uma movimentada via de Toronto, Alex Minassian publicou no Facebook a seguinte mensagem (em tradução livre): “A Rebelião Incel começou! Nós vamos derrubar todos os Chads e Stacys!”.

Essa postagem, sem sentido na primeira lida, é bastante reveladora sobre o perfil que aparentemente predomina nos obtusos fóruns da dark web: incel é uma abreviação de involuntary celibacy ou, em bom português, celibato involuntário. O termo é comumente usado em chans de língua inglesa.

De modo geral, os incels que povoam os chans são homens, muitos dos quais jovens, que têm dificuldades para arranjar parceiras para sexo ou relacionamento amoroso. Nos fóruns, não é difícil encontrar, por exemplo, participantes relatando sofrer rejeição de garotas, desejo sexual frustrado ou sentimentos de inferioridade diante de mulheres atraentes.

Homem no escuro - imagem ilustrativa (por: Pixabay)

Via de regra, essas questões estão relacionadas a fatores como timidez excessiva, baixa autoestima e dificuldades para lidar com frustações. No entanto, para os incels, a culpa por suas dificuldades para relacionamentos sexuais ou amorosos é das mulheres.

Se os fóruns servissem para os participantes relatarem suas dificuldades e buscarem apoio para superá-las, não seria necessário criá-los na deep web. É óbvio que algo de muito errado acontece ali: esses espaços são usados para alimentar o ódio pelas mulheres, inclusive com discursos que incentivam estupros, agressões e até assassinatos.

Os nomes Stacys e Chads que aparecem na mensagem do assassino de Toronto têm ligação com esse ódio. A primeira denominação é usada nos fóruns para designar mulheres atraentes e sexualmente ativas. Chads designam homens fortes e viris que, portanto, são alvos do interesse das mulheres, especialmente daquelas que os incels classificam como Stacys.

O perigo que ronda esses fóruns

A misoginia dos chans da dark web é um problema grave por si só, mas as mulheres não são o único alvo. Negros, homossexuais, judeus, imigrantes, nordestinos (no caso do Brasil) e outros grupos também são atacados em discursos de ódio nesses espaços que, às vezes, acabam refletindo em ações no “mundo real”.

Há exemplos próximos de nós. Em 2012, a Polícia Federal apontou que Wellington Menezes, atirador de Realengo, obteve incentivo em um desses fóruns. Embora também tenha atirado em meninos, o autor do massacre tinha meninas como alvo principal da matança.

Como dito no início do texto, o Ministério Público de São Paulo investiga se os dois atiradores de Suzano também obtiveram apoio de um grupo extremista: existe a suspeita de que eles foram orientados por pelo menos um participante de um fórum extremista que teria sido montado pelos mesmos criadores do chan que recebeu Wellington.

Não dá para dizer que todo e qualquer tipo de ataque é planejado nesses espaços, mas é inegável que eles podem exercer grande influência em indivíduos que cogitam transformar o ódio em atos de violência, perseguição ou intolerância.

Computador / quarto - imagem ilustrativa (por: PxHere)

São ambientes tóxicos, que além de fomentar ideologias absurdas, celebram as barbáries. Notícias sobre feminicídio ou agressões a homossexuais, por exemplo, costumam ser comemoradas; autores de atentados são considerados heróis e, se morrem, viram mártires, embora também possam ser criticados se não tiverem feito um número maior de vítimas.

Fóruns que não estão na deep web também podem ser nocivos, ainda que em contextos diferentes. O recente ataque na Nova Zelândia resultou na morte de 50 pessoas e deixou outras 50 feridas. O atirador justificou tamanha atrocidade em um repugnante manifesto de 74 páginas divulgado no 8chan, espaço que já esteve envolvido em várias polêmicas, entre elas, o compartilhamento de pornografia infantil que fez o site ser punido pelo Google em 2015.

Existe solução?

Se o problema são os fóruns, basta então fechá-los ou mesmo “acabar” com a dark web — como se isso fosse simples —, certo? Não é assim. A natureza simplista e anônima dos chans acabou fazendo desses espaços ambientes perfeitos para que indivíduos com ideais extremistas disseminem as suas crenças, mas eles já atuavam antes desse tipo de fórum e, certamente, procurarão outros meios caso fiquem impossibilitados de usar os atuais.

Na raiz dos discursos de ódio e comportamentos agressivos costumam estar fatores psicológicos, sociais e até culturais. Esses são aspectos complexos, por isso, não existe nenhuma medida que, isoladamente, vai evitar outras tragédias.

Talvez ações coordenadas tragam algum efeito preventivo. Por exemplo, se as autoridades passarem a monitorar redes sociais e fóruns com mais severidade, escolas poderiam, ao mesmo, aplicar programas mais abrangentes de acompanhamento psicossocial dos alunos, afinal, a maior parte dos atos de agressividade ou violência é cometida por jovens.

Esse pode ser um ponto de partida. Mas, se essa estratégia for colocada em prática, imediatamente jogará luz sobre outro problema: se a maioria das escolas mal tem recursos para o ensino, imagine para oferecer acompanhamento psicológico ou assistência social a estudantes que se mostrem mais vulneráveis. É mesmo um problema que precisa ser tratado no âmbito da sociedade.

No curto prazo, cabe à imprensa repensar o seu papel. Nos grupos extremistas, o choque que as atrocidades causam é uma recompensa. Cobrir os ataques, revelar detalhes das vidas dos autores e retratar os fóruns como espetáculos midiáticos, como alguns veículos fizeram, potencializa o assombro e, consequentemente, contribui com as intenções dos extremistas.

É importante a imprensa como um todo fazer um exercício de autocrítica para evitar que abordagens desmedidas dessas tragédias desvirtuem a missão elementar de informar e só piore o problema.

Com informações: G1, BBC, Veja, Vox, National Post, El País, Forbes, New York Times.