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O curioso caso do Freedom Phone, celular para conservadores contra “censura”

Freedom Phone custa US$ 500, mas é muito parecido com celular chinês de US$ 120; PatriApp Store, loja de apps "sem censura", poderia expor usuário a malware

Felipe Ventura Por

O que é o Freedom Phone? Para alguns, é a promessa de ter uma vida online sem censura, longe das estruturas de poder erguidas pelo Google, Apple, Facebook e outras empresas. Para outros, é só um celular Android chinês de US$ 120 sendo revendido por US$ 500 para se aproveitar de conservadores que não entendem muito de tecnologia. Vamos tentar entender isso melhor.

Freedom Phone (Imagem: Divulgação)

Freedom Phone (Imagem: Divulgação)

O que é o Freedom Phone?

O Freedom Phone se encaixa em um contexto no qual conservadores famosos alegam que redes sociais como Facebook e Twitter reduzem o alcance de suas postagens. Essas empresas não teriam medo de apagar posts de um presidente – caso de Jair Bolsonaro – nem mesmo de banir totalmente o perfil, como foi com Donald Trump. Por isso, algumas pessoas tentam buscar maior “liberdade de expressão” recorrendo a serviços alternativos como Parler e Gettr.

Na última quarta-feira (14), o Freedom Phone começou a chamar bastante atenção – é quando Erik Finman passou a divulgar o aparelho no Twitter. Ele alega ter se tornado um milionário por ter comprado US$ 1 mil em bitcoin em 2012; a criptomoeda se valorizou fortemente desde então.

“Os chefões da big tech estão violando sua privacidade, censurando sua voz, e acho que isso é muito errado”, diz Erik no vídeo de divulgação. A resposta a tudo isso, claro, é o Freedom Phone, que teria estes diferenciais:

  • o FreedomOS, sistema operacional que seria “o primeiro baseado em liberdade de expressão”;
  • o Trust, que promete proteger a privacidade do usuário;
  • a PatriApp Store, loja de apps “sem censura”;
  • apps pré-instalados como a rede social Parler, os canais de TV conservadores OAN e Newsmax, além do navegador Brave, Signal e Telegram.

Freedom Phone roda LineageOS?

O site oficial dá a entender que o FreedomOS é um sistema operacional novo, mas o Tecnoblog encontrou vários sinais indicando que esta é uma leve modificação do LineageOS – sistema livre e de código aberto baseado no Android.

Um desses sinais é o ícone da câmera, que aparece nas imagens de divulgação do Freedom Phone – ele é idêntico ao que o LineageOS usa. Esse símbolo é diferente da Google Camera, assim como dos apps de câmera presentes em distribuições do Android focadas em privacidade (como o GrapheneOS ou CalyxOS).

Câmera do Freedom Phone tem mesmo ícone do LineageOS (Imagem: Divulgação)

Câmera do Freedom Phone tem mesmo ícone do LineageOS (Imagem: Divulgação)

O mesmo vale para outros ícones: Mensagens, Calculadora, Agenda, E-mail, Contatos, Arquivos, Música – todos são os mesmos símbolos utilizados pelo LineageOS.

Há até mesmo um aplicativo, o AudioFX, que é feito especificamente para essa versão do Android. Ele não aparece nas imagens de divulgação do Freedom Phone, mas consta em um vídeo de Anna Khait, comentarista conservadora que divulgou o celular numa live do YouTube:

Apps no Freedom Phone (Imagem: Reprodução / YouTube)

Apps no Freedom Phone (Imagem: Reprodução / YouTube)

Para comparar, estes são os ícones do LineageOS:

LineageOS 17.1 baseado no Android 10 (Imagem: Reprodução / XDA Developers)

LineageOS 17.1 baseado no Android 10 (Imagem: Reprodução / XDA Developers)

Outro sinal é o Trust, listado como um dos diferenciais no Freedom Phone. Um recurso de segurança com o mesmo nome foi lançado no LineageOS em 2018, com o objetivo de melhorar a privacidade e segurança dos usuários. Ele avisa se o sistema está atualizado, facilita ativar a criptografia, e permite desativar acesso a novos dispositivos USB quando o celular está bloqueado (para impedir invasões).

Vale notar que existem algumas diferenças bem pequenas entre o “FreedomOS” e o LineageOS: por exemplo, a tela de boot mostra o logotipo do próprio Freedom Phone. Fora isso, ambos os sistemas parecem idênticos – inclusive, eles não vêm com aplicativos do Google por padrão, nem mesmo a Play Store. (É possível adicionar a loja durante a instalação do LineageOS.)

Celular é fabricado pela chinesa Umidigi

OK, então o Freedom Phone talvez esteja rodando o LineageOS – mas o sistema é bem bacana, e leva versões atuais do Android para diversos celulares antigos. Esse aparelho para conservadores talvez valha o preço?

Aí está outro problema: o site oficial do Freedom Phone conta com dez botões “Compre agora”, mas não revela a ficha técnica do aparelho. Por que alguém deveria pagar US$ 500 por um celular misterioso?

Estes são 4 dos 10 botões "Buy Now" no site do Freedom Phone (Imagem: Reprodução)

Estes são 4 dos 10 botões “Buy Now” no site do Freedom Phone (Imagem: Reprodução)

Algumas especificações foram divulgadas em um post patrocinado no site Gateway Pundit, mas elas também carecem de informações mais detalhadas:

  • tela HD de 6,3 polegadas
  • processador octa-core
  • 64 GB de memória com armazenamento expansível
  • câmera traseira de 32 MP
  • câmeras frontais e traseiras “impressionantes”
  • bateria de 4.150 mAh
  • porta USB-C
  • dual-chip (entrada para dois SIM cards)

O problema é que… essa ficha técnica deve estar errada. No vídeo de Anna Khait, é possível ver a inscrição “48MP AI Camera” na parte de trás do aparelho, então a câmera não teria 32 MP como diz a lista acima:

Câmera do Freedom Phone (Imagem: Reprodução / YouTube)

Câmera do Freedom Phone (Imagem: Reprodução / YouTube)

Usuários no Twitter repararam que o Freedom Phone tem um design terrivelmente semelhante ao de celulares da chinesa Umidigi. E Erik Finman, responsável pelo projeto, confirma ao Daily Beast que a Umidigi é de fato a fabricante.

A empresa tem dois modelos com a inscrição “48MP AI Camera” na traseira: o Umidigi A9 Pro e A9 Pro 2021. Eles são basicamente o mesmo smartphone no que se trata de design, dimensões, peso, tela (Full-HD+ de 6,3 polegadas), processador (MediaTek Helio P60) e bateria (4.150 mAh):

Umidigi A9 Pro ou A9 Pro 2021? O design deles é o mesmo (Imagem: Divulgação)

Umidigi A9 Pro ou A9 Pro 2021? O design deles é o mesmo (Imagem: Divulgação)

A diferença é que o modelo mais recente roda Android 11 e vem só na versão 8 GB + 128 GB; enquanto o A9 Pro do ano passado roda Android 10 e começa em 4 GB de RAM e 64 GB de armazenamento.

Tanto o Umidigi A9 Pro como o A9 Pro 2021 podem ser encontrados por cerca de US$ 120 no Alibaba; os preços dependem do vendedor, e são mais baixos para quem compra por atacado para revender.

Umidigi A9 Pro e A9 Pro 2021 no Alibaba (Imagem: Reprodução)

Umidigi A9 Pro e A9 Pro 2021 no Alibaba (Imagem: Reprodução)

Como PatriApp Store vai evitar malware?

Tá, algumas pessoas vão pagar US$ 500 por um celular que poderia ser adquirido direto da China por muito menos. Mas o Freedom Phone tem a PatriApp Store, que promete não banir nenhum app. No início do ano, a rede social Parler foi removida pela Apple e pelo Google de suas lojas para iPhone e Android após a invasão ao Capitólio dos EUA.

A questão é que, como estamos falando de Android, (quase) sempre há uma forma de baixar apps fora da Play Store. É o caso do próprio Parler, que segue banido pelo Google mas pode ser obtido via APK pelo site da rede social.

E, se a loja do Freedom Phone não proíbe nenhum app, como ela vai proteger os usuários contra software malicioso? “As lojas do Google e da Apple implementam um processo rigoroso de inspeção de código antes de disponibilizar os aplicativos”, explica Matthew Hickey, especialista em cibersegurança, ao Daily Dot. “E embora não seja à prova de falhas, isso ajuda a evitar que uma ampla gama de malware infecte os dispositivos.”

Um dos argumentos de venda para o Freedom Phone é evitar a “tirania” de gigantes como o Facebook. No entanto, como mostra um vídeo da comentarista Candace Owens, o Facebook e o Instagram estão disponíveis para download na PatriApp Store:

PatriApp Store do Freedom Phone tem Facebook, Instagram e Messenger (Imagem: Reprodução / Facebook)

PatriApp Store do Freedom Phone tem Facebook, Instagram e Messenger (Imagem: Reprodução / Facebook)

E como aponta Mishaal Rahman, do XDA Developers, a PatriApp Store parece ser basicamente uma versão da Aurora Store: esta loja de código aberto permite acessar os apps da Play Store sem ter uma conta do Google. A AuroraOSS avisa, no entanto, que isso “claramente viola os termos de serviço” do Google.

Freedom Phone rende comissão para quem divulga

Então, para resumir, o Freedom Phone provavelmente:

  • é um celular chinês sendo revendido com uma enorme margem de lucro;
  • roda LineageOS baseado no Android, não um sistema “baseado em liberdade de expressão”;
  • tem uma loja de apps que pode representar um risco à segurança dos usuários.

Com tudo isso, para que comprar o Freedom Phone? Ele serve para qual objetivo? Bem, o aparelho pode não beneficiar exatamente quem compra, e sim quem vende. Vários comentaristas conservadores ganham dinheiro através de produtos próprios, como camisetas, canecas, suplementos alimentícios – e, possivelmente, uma comissão na venda desse celular.

Programa de afiliados do Freedom Phone (Imagem: Reprodução)

Programa de afiliados do Freedom Phone (Imagem: Reprodução)

Sim, o Freedom Phone tem um programa de afiliados. Funciona assim: eles divulgam o aparelho para seus seguidores junto a um código de desconto, e recebem uma comissão que pode chegar a US$ 50 em cada venda realizada.

Veículos conservadores da mídia nos EUA, como Gateway Pundit e Just The News, estão divulgando o Freedom Phone e oferecendo um cupom de desconto; comentaristas como Jack Posobiec, Dinesh D’Souza, Candace Owens e Anna Khait fizeram o mesmo. Um deles, Saul Anuzis, até posou em uma foto junto a Erik Finman, que teria começado todo o projeto:

Erik Finman e Saul Anuzis com o Freedom Phone (Imagem: Reprodução / Twitter)

Erik Finman e Saul Anuzis com o Freedom Phone (Imagem: Reprodução / Twitter)

Em 2019, Finman lançou uma startup chamada CoinBits, que permite investir valores baixos em bitcoin. Mais recentemente, ele estava investindo na Metal Pay, que prometia criar uma alternativa à criptomoeda Libra (hoje Diem) do Facebook. O rapaz de 22 anos disse ao Business Insider em junho que não está mais envolvido com essa empresa.

O que aconteceu para Finman – que diz ser milionário de bitcoin – apoiar um produto tão suspeito como o Freedom Phone? Por que ele está bloqueando usuários e escondendo dezenas de respostas no Twitter que apontam os problemas desse projeto? O Tecnoblog entrou em contato, mas não obteve resposta.

Atualizado às 12h50

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Anderson Antonio Santos Costa (@Anderson_Antonio_San)

Assim como no Gettr, há censura no Freedom Phone também. E falhas de segurança graves.

Joseilton Júnior (@Joseilton_Junior)

Todo santo dia saem de casa o otário e o malandro. Inevitavelmente, todos os dias, eles se encontram. Aí sai negócio.
Quer privacidade e viver sem censura? Larga tudo e vai viver nas montanhas ou na selva como um eremita. E ainda não há garantias

Guilherme Machado (@meioprato)

Apoio toda forma de separar o otário do seu dinheiro.

Rodrigo Dias (@rodrigodias)

O cara tem que ter muita coragem pra passar uma vergonha dessas

Rodrigo Dias (@rodrigodias)

Tudo bem, são casos e contextos distintos, mas isso me fez lembrar tbm do Cerulean Moment, que tentaram lançar com Windows Phone.

Felipe Ventura (@felipe)

Essa você desenterrou, hein Escrevi sobre isso na época:

Darllan Marinho (@Darllan_Marinho)

Isso me lembra MUITO o tal do OBA BOX, os caras pegaram um aparelho da Multilaser, instalaram um Launcher chamado BIG PHONE e vende o produto com pelo menos 100% de margem em cima alegando ser um aparelho pensado nos idosos, com interface aumentada e facilidades para os idosos.

Qualquer um pode comprar na Play Store o launcher e transformar em um OBA BOX.

Dri (@DriRSantos)

O nome tinha que ser Fake Phone ou Realidade Paralela Fone, porque essas pessoas vivem em uma outra dimensão, de tanta besteira que espalham. Capaz de quando comprar você ganhar grátis uma inscrição automática na seita QAnon.

Adriano Angelo (@Angelo)

“Por que alguém deveria pagar US$ 500 por um celular misterioso?”
Resposta: pessoas de direita.

Leandro (@lth_leandro)

Sem relação, mas acabei lembrando daqueles apps de relacionamento para os ideologicamente identificados com a esquerda. E acho que tinha um também para os de direita.
Em tempo, não usei nenhum deles.

E fiquei pensando em outros produtos, tipo “arroz anti comunista”, “feijão cirandeiro”. Acho que teria mercado.

Edilson Junior (@Edilson)

Os caras usam um celular feito na China, voltado para os conservadores americanos. Essa história toda parece uma esquete do SNL

@Boleto

E vai ter brasileirinho patriota desembolsando 3k para comprar esse ponzi, fica vendo

Raul H. (@raulxgang)

kkkkkkkkkkkk os cara pagando 500 dol num celular que vale menos da metade que isso só pra continuar postando qlqr merda problemática alegando liberdade de expressão

@doorspaulo

Rapaz, tem mocorongo nos dois lados.
Um lado acredita no comunismo/socialismo, o outro torra dinheiro com lixo.

André Gorgen (@Banana_Phone)

Achei cômico o fato do Freedom Phone ser fabricado na China.

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