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Exclusivo: Brasileiros que operavam fazenda de bitcoin entram na mira do MPF

Sócio de envolvimento em esquema de pirâmide afirma que o chefe da quadrilha tinha uma fazenda de bitcoin; MPF pediu abertura de inquérito à Polícia Federal

Pedro Knoth Por

Em 2019, um vídeo feito pelo empresário e coach Thiago Achilles o mostrava à frente de uma suposta fazenda de bitcoin. Suspeito de participar de um esquema de pirâmide, ele afirma que Luiz Gustavo Souza de Pontes Galvanho, proprietário do Grupo Pontes, é o dono da instalação. Como apurou o Tecnoblog, esses golpes não estavam limitados a apenas um tipo de moeda. Segundo relatos de vítimas, o dinheiro do crime era investido em bitcoin. Agora, a quadrilha deve virar alvo da Polícia Federal (PF) a pedido do Ministério Público Federal (MPF).

Thiago Achilles foi para Dubai com dinheiro dos golpes de pirâmide, segundo a Polícia Civil do Rio de Janeiro (Imagem: Reprodução)

O caso da quadrilha foi revelado pelo Fantástico, da TV Globo. Os suspeitos aplicaram golpes de pirâmide e esquemas financeiros por meio de empresas de investimento, entre elas a Fácil Capital, que reuniu cerca de 400 funcionários.

Segundo as investigações da Polícia Civil do Rio de Janeiro, a quadrilha viajou a Dubai com o dinheiro ilegal obtido por meio dos golpes.

Nos Emirados Árabes Unidos, Thiago Achilles chegou a posar ao lado de carros de luxo, usando uma roupa que o conferia com uma aparência de “sheik”. Gustavo Galvanho chegou a competir em um campeonato mundial de Jiu Jitsu. Ele ficou em terceiro lugar.

Fazenda tinha mais de 300 máquinas minerando bitcoin

Quem gravou vídeos com essa alegação foi o próprio Thiago Achilles, sócio da Kawai Capital, uma das empresas do Grupo Pontes. Na gravação, Achilles aparece mostrando a suposta fazenda de Galvanho. As legendas indicam que a instalação — usada para minerar criptomoedas — está localizada no Paraguai e que o vídeo foi gravado em 2019.

Em uma sequência de gravações, o empresário explica o contexto. “Acabei de postar a fazenda de mineração que eu fui convidado a ir lá e conhecer, ver presencialmente. Passei, se não me engano, dois ou três dias lá, vendo né? Assistindo aquilo ali”, diz Achilles.

“Na época, pelo que eu me lembro, eram mais de 300 máquinas. Ele [Gustavo Galvanho] me levou para conhecer, o que chamam de fazenda de mineração de bitcoin. Eu vi tudo aquilo lá e ali entendi que o negócio era sólido”, continua o ex-sócio de Galvanho. “Para quem sabe e quem entende do negócio sabe que aquilo [fazenda de bitcoin] com energia fica rodando sem parar e gerando dinheiro ‘Ad Eternum'”.

Ainda segundo o empresário, Gustavo Galvanho contou-lhe, na época, que havia comprado cerca de 1.000 máquinas para aumentar o poder de mineração de bitcoin da fazenda, e que elas estavam para chegar da China. Thiago Achilles apagou os vídeos, gravados para os Stories de sua conta de Instagram. Mas o Tecnoblog teve acesso ao material por meio de uma fonte no Ministério Público do Rio de Janeiro, órgão que chegou a coordenar a investigação sobre o caso.

MPF pede à PF abertura de inquérito contra quadrilha

O MPF pediu a abertura de um inquérito contra as empresas ligadas ao Grupo Pontes por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, estelionato e furto qualificado. Rafael Ramiro e Gustavo Galvanho ainda são suspeitos de estarem envolvidos com milícias.

Entre as empresas pertencentes ao Grupo Pontes que estão incluídas no pedido de abertura de inquérito, estão a Fácil Capital, Nação Capital, Athos 21, S.A Capital e Titanium Capital. Segundo um porta-voz do MPF, quem deve prosseguir com as investigações é a Polícia Federal (PF).

As denúncias sobre a quadrilha, contudo, são mais antigas: a primeira surgiu em 2019. De acordo com um boletim de ocorrência (BO) registrado naquele ano na 1ª DP da Polícia Civil do Rio de Janeiro, ao qual o Tecnoblog teve acesso, Gustavo Galvanho estaria usando a conta bancária do Grupo Pontes para transferir dinheiro para outras contas desconhecidas.

A denúncia foi feita por Bruno Cavalcanti de Oliveira, procurador do próprio Grupo Pontes. Segundo ele, Gustavo Galvanho bloqueou seu acesso à conta corrente da empresa, e transferiu R$ 152.435,80 para outra conta, sob a titularidade de Evelyn Mendes Aloise.

Outro BO mostra que uma das empresas operadas pelo Grupo Pontes, a Titanium Capital, que funcionava em Pernambuco, tinha um esquema de pirâmide que operava em dois tipos de “investimento”. A vítima que ofereceu essa denúncia à polícia foi o próprio fundador da Titanium, Rodrigo da Costa Moreira.

De acordo com Moreira, na primeira forma do golpe, a vítima investia na Titanium com dinheiro próprio e era prometido a ela um retorno mensal de 2%. Mas o primeiro pagamento seria recebido somente após o 1º ano com a empresa. A segunda forma de aplicar golpes obrigava clientes a pedirem um empréstimo ao banco — 10% desse empréstimo ficava com a vítima, enquanto 90% eram destinados à Titanium; ela prometia quitar as parcelas do empréstimo da vítima em até 1 ano.

Do dinheiro investido pelas vítimas, a Titanium repassava 70% para o Grupo Pontes. Entre 2019 e 2020, a filial conseguiu arrecadar R$ 1,5 milhão — o Grupo Pontes ficou com R$ 1,2 milhão. Mas a operação da Titanium não dava lucro, o que levou Rodrigo a suspeitar de Galvanho.

Gustavo Pontes Galvanho era dono do Grupo Pontes, alvo de um pedido de investigação do MPF (Imagem: Reprodução)

Grupo Pontes investia dinheiro de vítimas em criptomoedas

O Tecnoblog apurou que Gustavo Galvanho tinha empresas que se passavam como fundos de investimento, inclusive em criptomoedas. Além de ser o suposto dono da fazenda de bitcoin que aparece nos vídeos, ele e Thiago Achilles eram sócios em uma empresa chamada Kawai Capital.

A apresentação em PowerPoint que era usada pela Kawai para se apresentar a potenciais investidores e vítimas dizia que a empresa tinha mais de 120 colaboradores, entre eles consultores, analistas, traders, diretoria, equipe comercial e suporte. A empresa alegava que tinha mais de 6 anos de experiência com operações do mercado financeiro, incluindo operações em criptoativos.

Uma ex-funcionária da Fácil Capital, outra empresa do Grupo Pontes, conta que Gustavo Galvanho era conhecido entre os empregados por investir em criptomoedas. Para se manter no emprego, ela foi obrigada a convidar parentes e amigos para investir na Fácil.

“Eles treinavam a gente para convencer os familiares a investirem. Eu tive que convencer meu marido a investir na Fácil: ‘se você não entrar, eu vou ser demitida”. Era sua obrigação como funcionário fechar contrato com membros sua família”.

A ex-funcionária, que não quis se identificar, diz que Galvanho guardava 80% do dinheiro das vítimas em uma conta corrente, enquanto 20% eram aplicados em criptomoedas, como o bitcoin. “Em um mês ruim, a empresa faturava mais ou menos R$ 600 mil. Quando o mês era bom, a receita era maior do que R$ 1 milhão.”

Uma das vítimas se diz extremamente próxima a Thiago Achilles. Segundo ela, que também optou por permanecer anônima, o empresário afirmava que Gustavo Galvanho estava “mais rico por causa da alta do bitcoin”:

“Ele [Thiago Achilles] dizia que a empresa iria durar ‘pelo resto da vida’. Fiz mais um aporte de R$ 20 mil, depois R$ 80 mil e então mais um de R$ 100 mil reais. Quando eu fiz esse último aporte e fui olhar minha conta, não encontrei nada. Confrontei o Thiago. Ele me falou que a empresa tinha feito uma negociação com uma empresa de Dubai. Ele depois chegou a falar que Gustavo botava o dinheiro das vítimas em bitcoin.”

Quadrilha mirava em servidores públicos

Pela Fácil Capital, a quadrilha prometia retornos de 5% a 15% dependendo da quantia investida pela vítima. Uma das investidoras que sofreu golpe do Grupo Pontes chegou a injetar R$ 100 mil na empresa de uma vez. Em seguida, ela foi prometida um retorno de R$ 2.500 por mês, durante 1 ano inteiro.

O primeiro mês foi pago pela Fácil Capital. Mas depois de interromper o pagamento, a vítima pediu o dinheiro de volta. Não houve retorno, e a empresa usou a desculpa da pandemia para alegar que o valor havia sido bloqueado. A vítima chegou a assinar um contrato em uma sala junto a funcionários e gerentes. Rafael Ramiro estava presente na ocasião, recorda a vítima.

Rafael Ramiro (à esquerda) era um dos donos da Fácil Capital, empresa do Grupo Pontes (Imagem: Reprodução)

O Tecnoblog apurou que as empresas pertencentes ao Grupo Pontes tinham endereços e CNPJ em Recife, São Paulo, Santos e Rio de Janeiro — a Fácil tinha escritório na Cinelândia, no centro da cidade.

Mas as vítimas são de “todo Brasil”, como diz a ex-funcionária entrevistada pela reportagem. A quadrilha mirava especialmente servidores públicos, e havia um departamento da empresa que usava bases de dados públicas para obter CPF e score de crédito de funcionários públicos.

O sentimento geral das vítimas é de frustração com as investigações conduzidas pela Justiça:

“Fico apreensiva com meu futuro, com a minha vida. Estou preocupada de não reaver o dinheiro, dos jeitos que as coisas estão. Acho que a Justiça está conduzindo o caso com total desinteresse. As vítimas estão desempregadas, pegaram dinheiro emprestado e estão dependendo de parentes. As pessoas falam com o Gustavo [Galvanho] e dizem que ele ri e debocha.”

Procurada pelo Tecnoblog, a Polícia Federal não quis comentar sobre a investigação, afirmando que “não divulga informações sobre investigações em andamento”.

A reportagem procurou Thiago Achilles e Gustavo Galvanho, mas eles ainda não se manifestaram. O espaço continua aberto ao posicionamento. O Tecnoblog não conseguiu localizar a defesa de Rafael Ramiro.

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André Gorgen (@Banana_Phone)

Lembrei de um cara que trabalhou comigo, ele largou o emprego e foi trabalhar em uma empresa que fazia um esquema de pirâmide de bitcoin em Campinas, todo mundo falou pra ele não ir, mas a empresa pagava parte do salário em bitcoin e ele achou que ia ficar fico.
Depois de uns 2 meses lá apareceram umas matérias falando dos golpes que a empresa fazia, aí ele pediu demissão e logo depois a empresa fechou.