Brasil e o complexo de vira-lata

Bia Kunze
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As empresas, seja qual for o ramo, precisam entender que, com a internet, não existem mais fronteiras geográficas. Precisam entender que os brasileiros acompanham lançamentos mundiais e também gostam de receber as novidades no país.

Contudo, o que vemos são os produtos da vanguarda tecnológica chegarem aqui com meses de atraso. É o caso do Nokia N900, chegando por aqui quando o Maemo já é plataforma ultrapassada, enquanto o resto do mundo aguarda com expectativa os primeiros aparelhos MeeGo. Para piorar o N900 virá com interface em português de Portugal e custando R$ 2 mil. Ó raios, Nokia, nós somos brasileiros! Mas colocar uma interface para brasileiros seria perda de tempo, certo?

Quando o N97 foi lançado aqui, foi a mesma coisa. Tardio, o N900 o canibalizou. E agora o MeeGo canibaliza o N900. Bem, aguardemos o N8 para 2011 então!

As operadoras de telefonia tratam os clientes como imbecis. Entram em contato com eles oferecendo “vantagens exclusivas” para adquirir celulares que nenhum outro país mais quer, pois saíram de linha há 2 ou 3 anos…  De modo que os pobres-diabos achem que fizeram ótimo negócio. Há 6 anos houve a história de um lote de celulares defeituosos, que muita gente reclamou, e que depois se descobriu que as placas internas estavam oxidadas.

Para não dizerem que esse é um mal da área da informática, vejam o exemplo da rede mundial de cafeterias Starbucks. Embora sejam populares em vários pontos do mundo e carne de vaca nos EUA, aqui ela chegou focando os mais abastados. Há poucas lojas, e sem os serviços extras característicos como Wi-Fi – agora grátis – e cartões pré-pagos. Perguntados por que, dizem que não há interesse por aqui. Interesse de quem? Os próprios cafés são mais caros e vem em menor quantidade. Até o site brasileiro da rede consegue ser fraco: comparem o .com e o .br… Parece que foi feito pelo sobrinho da dona Maria, em um fim de semana, para descolar uns trocados. Qual a explicação?

E o que dizer da indústria automobilística? Eu venho postergando minha troca de carro há um bom tempo, à espera dos modelos elétricos. Mas me disseram para não alimentar esperanças, uma vez que nem os híbridos (salvo um ou dois modelos de luxo, importados) têm chance de dominar nossas ruas. Ainda mais agora com o pré-sal. Enquanto o planeta se desdobra pesquisando e adotando formas sustentáveis de geração de energia, cá estamos posando de auto-suficientes, que não precisamos de nada além de combustível fóssil. Resultado? Tecnologias, peças e materiais atrasados, que outros países rejeitam, tem mercado garantido em solo verde e amarelo.

A culpa é de nós mesmos. Enquanto continuarmos com nosso célebre complexo de vira-lata, continuaremos a ser tratados como refugo do mundo. Nós podemos sim, e devemos exigir melhor tratamento. Nos últimos anos nos tornamos uma economia importante, com os olhos do mundo voltados pra cá. Só falta nos darmos o devido respeito. Vejam os exemplos de nossos políticos, que nós elegemos. Vejam os Collors, os Sarneys e Malufs da vida. Elegemos e depois reclamamos! Quando surge a chance de mudar, com gente nova, o que dizemos? “Ah, vou voltar no pilantra mesmo, pois esse aí tá sem chance de vencer…”

Pesquisas eleitorais são uma arma de manipulação de quem está no poder. Deviam ser proibidas!

Uma mudança no nosso país só virá quando dermos o primeiro passo: mudando nossa mentalidade. Sejam celulares, café, carros ou políticos, não aceitemos as porcarias que nos empurrarem goela abaixo!

Bia Kunze

Ex-colunista

Bia Kunze é consultora e palestrante em tecnologia móvel e novas mídias. Foi colunista no Tecnoblog entre 2009 e 2013, escrevendo sobre temas relacionados a sua área de conhecimento como smartphones e internet. Ela também criou o blog Garota Sem Fio e o podcast PodSemFio. O programa foi um dos vencedores do concurso The Best Of The Blogs, da empresa alemã Deutsche Welle, em 2006.

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