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Ellie e Abby, vítimas e vilãs em The Last of Us – Part II

Como as jornadas por vingança e sobrevivência de Ellie e Abby podem ser tão semelhantes, mesmo sob pontos de vista diferentes

Vivi Werneck

Por

Especial
Ellie e Abby, vítimas e vilãs em The Last of Us – Part II (Imagem: Vitor Pádua/Tecnoblog)

O primeiro jogo da série The Last of Us (2013) comoveu muitos jogadores ao contar a odisseia de Ellie e Joel através dos escombros de um país devastado por uma praga. Era de se esperar, portanto, que o lançamento de The Last of Us – Part II (2020) seria carregado de expectativas. O que não se esperava, ao menos por parte da Naughty Dog (desenvolvedora do game), era que uma parte importante da história vazasse. Um “nêmesis” foi criado, na época, e tinha um nome: Abby.

Antes de continuarmos, gostaria apenas de destacar que precisarei falar sobre detalhes das histórias de ambos os jogos, até para contextualizar meus argumentos. Em resumo: há spoilers aqui!

Agora voltando ao assunto… 

Muito antes da “garota musculosa que matou Joel” (isso sendo legal, porque caracterizaram ela de forma bem mais pejorativa) sequer ter tido a chance de contar sua própria versão da história, Abby já havia sido jogada aos leões. 

É claro que dado o conteúdo do vazamento, centenas de fãs, que optaram por ver o spoiler, ficaram furiosos. Alguns, inclusive, perderam a linha e foram azucrinar a vida da pobre funcionária da Naughty Dog, que simplesmente emprestou o rosto para a personagem. Laura Bailey, que interpretou Abby, também foi ameaçada na internet. Mas isso já é coisa de gente perturbada.

O que estou tentando dizer é que, na minha opinião, essa soma de fatores (vazamento + demonização precoce de uma personagem) pode ter comprometido a experiência de muitos jogadores, que já começaram o game com sangue nos olhos e, talvez, não tenham se permitido imergir numa narrativa instigante mostrando dois pontos de vista. Porque gostem alguns ou não, os holofotes de TLoU2 são divididos entre Ellie e Abby.

Mesmo me arriscando a expressar uma opinião bem impopular, a história de Abby me interessou mais. Justamente pela reviravolta de expectativa: seria ela apenas uma fria assassina sem sentimentos?

Os dois lados da mesma moeda (da vingança)

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Ellie (Imagem: Divulgação/Naughty Dog)

Quando eu estava produzindo o review de The Last of Us – Part II para o Tecnoblog, umas das coisas que mais me angustiou, além do curto prazo de jogar o game para a análise, foi não poder falar abertamente da Abby no texto (inclusive, você pode comprovar isso no link acima). Essa era uma das cláusulas do embargo do review e, na época, me senti um pouco frustrada por não poder dar a merecida voz a esta personagem.

Antes que alguém pense que vou começar uma campanha para a canonização da Abby, só gostaria de deixar claro que ela tem sim seus defeitos, assim como também tem suas qualidades (da mesma forma que a Ellie) e da mesma forma que todo ser humano.

Inclusive, a jornada por vingança dela começou anos antes de sequer Joel e Ellie saberem da sua existência. Ela teve tempo para se preparar, tanto que conquistou com seu objetivo: matar o responsável pela morte do seu pai. Ela, talvez, só não esperava o problema chamado Ellie que arrumou para si.

O motivo que criaram para Abby entrar na história pode até ter soado meio “forçado”: a garota era filha de uma das centenas de pessoas aleatórias que Joel matou no primeiro jogo (imagina a quantidade de gente que não queria a cabeça dele!). Nessa, ela poderia ser filha de qualquer um, mas escolheram meticulosamente o médico que estava a cargo de operar Ellie (o que causaria a sua morte) para fazer experimentos e tentar criar uma possível cura para a praga.

Abby viu seu pai morto no chão do centro cirúrgico e, como (quase) qualquer pessoa num contexto pós-apocalíptico e sem acesso a um bom psicólogo (inclusive, Ellie e Abby precisam muito de terapia), a única maneira que ela encontrou de enfrentar o seu luto foi jurar vingança a quem assassinou a pessoa que ela mais amava na vida.

Abby (Imagem: Divulgação/Naughty Dog)

Sentiu que essa frase se encaixa muito bem com a jornada de Ellie também? E isso é intencional mesmo. Toda a dupla narrativa de TLoU2 é criada para que você acompanhe desde o início, antes delas perderem a figura paterna, como cada uma das duas lida com esta situação tão traumática. 

E o ponto de partida, a motivação, para ambas iniciarem seus próprios ciclos de vingança, talvez seja a maior semelhança entre suas personalidades: elas precisam, necessitam, de uma resolução. Agora, os detalhes sutis de como as duas conduziram esse caminho, que só levou a mais dor, traumas e destruição, são o que podem ter passado despercebidos por alguns.

Ellie e Abby: vítimas e vilãs  

Qual o porquê da decisão de matar Joel no início do segundo título? Essa resposta pode até soar bem fria, mas entendi o que quiseram fazer acontecer: precisava existir uma razão fortíssima para Ellie deixar a então estabilidade de Jackson, onde já vivia há anos, além do início de um romance com Dina, para cair no mundo de novo. Resumidamente: sem esse motivo, não existiria jogo.

Agora, querido(a) leitor(a)… A forma com que isso foi mostrado para o jogador me causa agonia só de lembrar. Ellie imobilizada e gritando no chão, incapaz de fazer qualquer coisa para salvar a vida do seu pai e, ainda, vê-lo ser morto daquela forma. Sim, Joel sempre foi e sempre será um pai para ela. Foi uma cena fortíssima, cruel e propositalmente pensada para gerar ódio e repulsa… Pela demônia musculosa de trança.

Estava, enfim, definida a vilã do jogo: Abby! “Vou te caçar até o inferno se for preciso, sua miserável”. No início, eu também tinha pensado assim.

Quando a chave vira, ou seja, quando o gameplay é transportado de Ellie para Abby é que as emoções entram em ebulição (e confusão): “como assim eu tenho que jogar com essa assassina?”. E nossa… Que viagem de descobrimento dessa personagem que foi! E não é que ela não era todo esse demônio que pintaram? E não é que ela era apenas mais um ser humano quebrado por dentro e tentando sobreviver como vários outros naquele mundo fictício? Mais uma história a ser contada?

Porque apesar de The Last of Us – Part II mostrar a jornada de Ellie em busca de vingança, esse jogo também conta a história de Abby e, por favor, se permita conhecê-la.

Ao contrário de Ellie, que tivemos todo um primeiro jogo para conhecê-la com calma ainda adolescente (sem contar o ótimo DLC Left Behind), admito que foi um pouco difícil no início criar muita afeição com a história de Abby, mesmo conhecendo seu drama pessoal da perda do pai. No entanto, há momentos importantes da narrativa que te fazem vê-la com mais empatia… E até desejar o seu bem! Quem diria?

Abby e Lev (Imagem: Reprodução/The Last of Us – Part II)

Ela, por exemplo, não era obrigada, mas voltou para ajudar os irmãos Lev e Yara, após ambos a salvarem de um enforcamento. Abby também teve mais de uma oportunidade de matar Ellie e não o fez (não que, talvez, não tenha se arrependido disso depois). Já nos eventos finais do jogo, ela não queria mais lutar com Ellie; já havia constatado que tinha sofrido demais… E não queria perder o único laço de afeto que ainda tinha nessa vida: Lev. E só quando Ellie o ameaçou foi que percebeu precisar enfrentar aquela outra criatura sofrida novamente.    

Vamos virar a chave novamente?

De volta a jornada de Ellie, tudo o que eu sentia era um misto de “não faça mais isso! Só vai piorar as coisas!” com “alguém, por favor, abrace essa menina!”. Dos breves momentos de ternura, em que ela tocava no violão Take on Me para Dina num prédio abandonado em Seatle, ao choque e remorso de ter que usar de tortura para conseguir informações sobre sua arqui-inimiga, a antes espirituosa Ellie (que sempre sonhou ser astronauta) havia se tornado um amontoado de cacos emocionais, destruída por dentro. 

E nossa… Como me deu uma tristeza profunda vê-la assim… Ellie estava dominada, ao nível doentio, pela obsessão de se vingar e seria capaz de fazer sacrifícios para isso, até abrir mão das poucas coisas (ou das pessoas) que ainda a fazia feliz.      

Acredito que muitos imaginavam que ela iria sossegar, após os eventos desastrosos no teatro, quando Abby foi atrás dela após descobrir que Ellie havia matado seus amigos. E mais uma vez sua vida (e a da Dina, coitada) foi poupada pela inimiga. Vale destacar que mesmo grávida e passando mal, Dina não pensou duas vezes em pular na Abby para defender a namorada. Palmas para ela, que aguentou tudo isso sem sair do lado da Ellie.

E quando tudo parecia bem, e Ellie estava numa vidinha pacata e feliz na fazenda com a namorada e o bebê, eis que os fantasmas do passado voltaram para assombrar, mais precisamente um demônio (esse sim!) chamado Tommy, o irmão mais novo de Joel. Que ódio desse homem que não tinha nada que ir lá, no meio do mato, perturbar a cabeça (já perturbada o suficiente) da Ellie com o novo paradeiro de quem? Ela mesma, Abby. 

Guia de troféus The Last of Us Part II
Ellie em sua busca por vingança (Imagem: Reprodução/The Last of Us – Part II)

Só gostaria de dizer que, a esta altura do campeonato e já tendo passado várias horas jogando direto (eu fechei o game em dois dias para o review), eu só queria ver o fim. Eu já estava tão drenada emocionalmente pela montanha-russa de acontecimentos traumáticos que eu quase me juntei à Dina para enxotar o Tommy da casa a vassouradas. Vai embora e só deixa elas serem felizes, desgraça de pessoa!

Mas, aparentemente, isso também foi cuidadosamente pensado para que o jogador tivesse essa sensação de resolução. Afinal, após o pandemônio que aconteceu no teatro, em que você no controle da Abby tinha que tentar matar Ellie (e minha cabeça explodindo de desespero nessa hora), de certa forma eu também precisava saber para onde ela foi. Mas ao contrário de Ellie, eu só queria saber se Abby e Lev estavam bem.

E eles não estavam, como se descobre assim que Ellie abandona Dina (numa cena de partir o coração) para continuar perseguindo sua obsessão. Abby e Lev foram capturados por uns doidos varridos e, ao tentarem fugir do cativeiro, foram pegos e deixados para morrer de fome e sede, amarrados em estacas numa praia. Se não fosse por Ellie, eles teriam certamente morrido naquela situação, já que estavam bem castigados quando ela os encontrou.

E aí é que vem a gigantesca ironia do destino e o soco no estômago do maldito ciclo de violência: Ellie, de tanto querer matar Abby, acabou sendo sua salvadora!

Mesmo ainda não tendo encontrado a paz pela morte de Joel, por um momento pareceu que ela estava disposta a deixar Abby ir embora com o menino. Agora é Ellie que, literalmente, estava com a faca na mão e poderia acabar ali com a sua longa caçada, mas não o fez e libertou os dois… Numa recaída aos sentimentos de vingança, ela ameaçou Lev para que Abby lutasse com ela mais uma vez, quase a matou afogada, mas no último momento… Também não o fez.

Mas por que Ellie teria exitado no último instante? A vitória estava ali, só mais alguns segundos e tudo estaria acabado…

Abby também não conseguia simplesmente seguir seu caminho (Imagem: Reprodução/The Last of Us – Part II)

A questão, a meu ver, e isso é 100% uma ideia da minha cabeça, é que ela finalmente entendeu naquele último instante o que Abby já havia percebido antes: que o ciclo de violência precisava ser quebrado. De que adiantaria, para as duas, ter o sangue da outra nas mãos? Elas já tinham perdido quase tudo. No caso da Ellie, ainda mais triste, ela havia perdido tudo e, por vezes, se questionou da decisão de ter largado Dina e o bebê para continuar nessa loucura.

No fim das contas, não há um final feliz para The Last of Us – Part II. O que se vê é Abby, torturada por meses, indo embora num barco com Lev (também em estado deplorável) e Ellie sozinha, voltando à antiga casa para apenas ver o lugar abandonado e com as suas coisas num quartinho. 

“Do que você tem medo?” — perguntou o pequeno Sam para Ellie, ainda adolescente no primeiro The Last of Us. “De ficar sozinha”, ela respondeu.

E foi exatamente assim que ela terminou sua jornada de vingança, ao menos no segundo jogo. Sozinha… E com dois dedos a menos (totalmente anticlímax essa observação, mas eu precisava fazê-la). Esse final foi uma facada no coração. Esse jogo me despedaçou emocionalmente.

Depois de tudo, a conclusão mais óbvia que se chega é que não tem como apontar quem é a vilã e quem é a vítima dessa história. Tanto Ellie quanto Abby sofreram horrores, passaram por todo tipo de situação traumática e estão fisicamente e emocionalmente devastadas. Cada uma foi a vítima e vilã da outra, ou seja, o que mudou foi só o ponto de vista. E o jogo foi muito feliz em nos mostrar os dois lados dessa mesma moeda. 

As duas adversárias num possível The Last of Us 3?

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Será que Ellie seguirá o próprio caminho? E para onde foi Abby? (Imagem: Reprodução/The Last of Us – Part II)

Eu, sinceramente, espero que um dia exista um The Last of Us – Part III. Fico imaginando a quantidade de outras histórias que ainda podem ser exploradas neste universo e, particularmente, gostaria muito de saber o que a Naughty Dog ainda pode explorar das personagens Ellie e Abby. 

Será que Ellie voltou para Jackson e pediu perdão para Dina? Ou será que ela resolveu seguir seu próprio caminho e deixar os cacos da antiga vida definitivamente para trás? Até porque um sinal de que ela poderia ter feito isso, foi quando abandonou todos os seus pertences no quartinho da antiga casa na fazenda, junto com o violão que Joel deu para ela.

E Abby? Será que saberemos o que aconteceu durante os meses em que ela e Lev estiveram presos com os psicopatas da praia? Será que ela ainda está em busca dos Vagalumes? E o mais importante: será que veremos o destino rir na cara das duas e colocá-las frente a frente de novo?

Nunca esperei um final feliz para The Last of Us – Part II, só não imaginava que terminaria tão triste dessa forma. Eu ainda sinto que tanto Ellie quanto Abby precisam tentar encontrar sua própria paz interior para continuarem sobrevivendo. Elas não são perversas, ainda há alguma humanidade dentro de seus corações. O que seria desumano é não podermos participar de uma possível jornada não mais de vingança, mas de redenção dessas duas personagens. Por fim, com este artigo, agora posso dizer que meu review do jogo está finalmente completo.