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Estas startups querem reduzir o desperdício vendendo comida mais barata

Em tempos de inflação nas alturas, empresas querem aumentar eficiência e evitar perdas típicas do setor para oferecer preços mais baixos

Giovanni Santa Rosa
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Os aplicativos e plataformas para combater o desperdício de comida
Os aplicativos e plataformas para combater o desperdício de comida (Imagem: Vitor Pádua / Tecnoblog)

Ir ao mercado fazer compras se tornou uma atividade emocionante: é só ver o preço de qualquer item que você sente raiva, desespero e tristeza. Segundo dados de julho de 2022, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial da inflação, acumula alta de 10,07% nos últimos 12 meses. O grupo de alimentação e bebidas foi ainda pior, somando 14,72%.

Se tudo está caro, não dá para desperdiçar nada. Algumas startups estão pensando justamente nisso: diminuir o desperdício para conseguir levar alimentos mais baratos aos consumidores.

O Brasil joga fora 27 milhões de toneladas de alimentos por ano, e o que vai para o lixo seria suficiente para reduzir a fome no país em até 30%, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

O desperdício acontece em várias etapas: colheita, transporte, seleção para vendas, vencimento de produtos e descarte dentro das casas. Com um problema tão amplo e tão sério, cada iniciativa quer solucionar uma parte diferente, de sua própria forma.

Corrida contra o tempo para não jogar fora

O SuperOpa, por exemplo, tenta evitar que produtos vençam e acabem no lixo. Fundada em 2019, a empresa opera como um marketplace para produtos próximos do vencimento, com parceiros da indústria alimentícia e do comércio que querem escoar seus itens antes de perdê-los.

Desde 2021, a startup passou a ter sua loja própria, com entregadores e centro de distribuição.

O grande diferencial são os produtos com o selo Opa. Eles têm pequenas avarias na embalagem ou data de vencimento próxima, mas são totalmente próprios para o consumo.

“São produtos de oportunidade. O selo Opa funciona como uma garantia”, explica ao Tecnoblog Cristiane Lamanna, head de marketing do SuperOpa. Ela diz que o desconto nestes produtos chega a 70%.

Carro do SuperOpa é carregado no depósito da empresa
Carro do SuperOpa é carregado no depósito da empresa (Imagem: Divulgação / SuperOpa)

Além deles, a empresa tem toda uma operação de mercado comum, com produtos de data de vencimento longa. Assim, o consumidor pode fazer toda sua compra em um único lugar, economizando com frete e aproveitando os descontos. “Um aplicativo só de oportunidades não seria atrativo”, diz a head de marketing.

Lamanna conta que carne, leite, arroz, óleo e biscoito são itens bastante fortes no app. Biscoitos e carnes, aliás, viraram uma espécie de “refúgio” do brasileiro na atual crise, avalia a executiva, e os consumidores chegam a pedir ofertas pelas redes sociais da empresa.

Mesmo assim, os produtos baratos variam. “É o que está excedente na indústria naquela semana”, explica.

E, muitas vezes, lidar com este excedente não é fácil. “É uma luta contra o tempo. Os produtos estão chegando e já tem gente catalogando e subindo preço no sistema. O que chega com a data de validade mais próxima passa na frente.”

Contêiner para retiradas no Jardim Lapena
Contêiner para retiradas no Jardim Lapena (Imagem: Divulgação / SuperOpa)

O SuperOpa também tem iniciativas para levar produtos mais baratos a quem mais precisa, neste cenário de inflação. Em parceria com a Fundação Tide Setúbal, a empresa desenvolveu uma loja geolocalizada para seu app. Ela atende apenas as imediações do Jardim Lapena, comunidade carente na Zona Leste da capital paulista. Os moradores podem fazer suas comprar e retirar gratuitamente em um contêiner instalado na vizinhança.

Rejeitados ganham uma segunda chance

Lutar contra o desperdício parece ser mesmo lidar com o inesperado. Na Diferente, nem mesmo o consumidor sabe ao certo o que vai receber. A empresa vende assinaturas de cestas de hortifruti com produtos que fogem do padrão exigido pelos supermercados.

Isso não quer dizer que eles são impróprios para consumo. Questões estéticas, por exemplo, podem fazer uma fruta ou verdura ser rejeitada. Até mesmo o tamanho pode ser um critério.

Eduardo Petrelli, fundador da Diferente, conta ao Tecnoblog que os primeiros testes foram feitos com amigos e familiares, e um fato é bastante curioso: as pessoas quase sempre erravam quais eram os produtos fora do padrão. “Nem sempre é um produto feio. Às vezes é uma questão de tamanho”, afirma.

“Um produtor familiar geralmente tem um único grande comprador, uma rede varejista. Ela tem determinado tamanho de bandeja para uma berinjela. Se a berinjela é grande demais e não cabe na bandeja, por exemplo, ela não é comprada, e o produtor não tem como escoar aquele produto”, explica Eduardo.

As cestas da Diferente têm entre 20% e 50% de produtos fora do padrão para os supermercados e custam até 40% mais barato que nas redes varejistas. Todos eles, aliás, são orgânicos.

Cesta de frutas, verduras e legumes do Diferente
Cesta de frutas, verduras e legumes da Diferente (Imagem: Divulgação / Diferente)

E, como dissemos, o que vai na cesta varia. O consumidor pode cadastrar suas restrições e dizer qual a proporção desejada de frutas, legumes, verduras e temperos, mas não tem como decidir exatamente quais serão os produtos.

Petrelli diz que essa flexibilidade é necessária para conseguir incluir os produtos fora do padrão, lidar com a sazonalidade dos vegetais e fazer o preço da cesta cair.

O formato de assinatura também ajuda a trazer alguma previsibilidade para o negócio e ganhar eficiência. “A gente ‘trava’ a cesta quatro dias antes da entrega, para poder fazer as compras”, diz o fundador.

Outro ponto é que, assim como o SuperOpa, grande parte da operação é “caseira”. A Diferente, no entanto, conta com um parceiro de logística para fazer a gestão de frota e a roteirização das entregas. “Cada carro sai com 20 a 25 caixas para entrega”, diz Petrelli. Afinal, rodar vazio também é desperdício.

Tecnologia para mudar a cadeia de alimentação

Quem também se concentra em ganhar eficiência é a Frubana. Nascida na Colômbia em 2018 e com presença também no México e no Brasil, a startup trabalha no fornecimento para restaurantes e quer eliminar desperdícios. Para isso, a aposta é na tecnologia.

“Nós usamos algoritmos para prever melhor qual vai ser a demanda”, diz Antonio Capezzuto, head de expansão da Frubana. “O sistema vai ficar ainda mais preciso conforme a gente cresce.”

Com essa previsibilidade, a Frubana consegue procurar os produtores ou distribuidores já sabendo quanto precisa comprar, sem precisar fazer grandes estoques. Essa forma de repensar a cadeia permite reduzir desperdícios.

“Hoje, [o setor de alimentação] é uma cadeia de empurrar: o produtor tenta repassar sua produção para um intermediário, que tenta repassar para um varejista”, explica o executivo. “A gente quer transformar em uma cadeia de puxar, indo buscar conforme a demanda.”

Por enquanto, tem dado resultados. Capezzuto diz que a Frubana teve um crescimento de 20 vezes no faturamento durante os últimos 12 meses, atendendo 40 mil restaurantes em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Curitiba (PR) e Campinas (SP), e tudo isso com menos de 1% de desperdício, contra 17% de empresas do setor.

Para evitar perdas, a empresa faz doações ao programa Mesa Brasil, banco de alimentos que ajuda na nutrição de 100 mil pessoas. De janeiro a maio de 2022, foram 70 toneladas da Frubana para o projeto.

E a startup tem outros diferenciais, como o serviço de entregas e a facilidade de ter tudo para o restaurante em um só lugar — geralmente, os estabelecimentos têm que lidar com mais de 20 fornecedores diferentes. Com menos desperdício e mais eficiência, o preço tende a cair. “Nossa missão é comida mais barata na América Latina”, diz Capezzuto.

Giovanni Santa Rosa

Giovanni Santa Rosa é formado em jornalismo pela ECA-USP e cobre ciência e tecnologia desde 2012. Foi editor-assistente do Gizmodo Brasil e escreveu para o UOL Tilt e para o Jornal da USP. Cobriu o Snapdragon Tech Summit, em Maui (EUA), o Fórum Internacional de Software Livre, em Porto Alegre (RS), e a Campus Party, em São Paulo (SP). Atualmente, é autor no Tecnoblog.

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