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O futuro dos artistas é competir com inteligências artificiais?

Quando redes neurais entregam artes belíssimas a partir de comandos de texto, como designers, arquitetos e artistas podem reagir?

Josué de Oliveira
Por

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Eu pedi à máquina que desenhasse “O sonho da autópsia de um ser cósmico”. Após um minuto de processamento, a máquina entregou o que eu pedi.

A máquina em questão é o Midjourney, sistema automatizado que gera imagens a partir de texto. “Imagens”, aqui, em sentido amplo, indo do fotorrealismo às ilustrações abstratas. Atualmente em beta público, a ferramenta pode ser testada por qualquer com uma conta no Discord.

O futuro dos artistas é competir com inteligências artificiais? (Imagem: Vitor Pádua & Midjourney / Tecnoblog)
O futuro dos artistas é competir com inteligências artificiais? (Imagem: Vitor Pádua & Midjourney / Tecnoblog)

Atualmente, mais de 900 mil pessoas tentam explorar as potencialidades do sistema. E também seus limites. Essa era minha intenção ao pedir que ele desenhasse algo tão absurdo. Afinal, o que é um “ser cósmico”? Como se faz uma autópsia em tal ser? Eu mesmo – que não entendo nada de Artes Plásticas ou Visuais – não conseguia imaginar um desenho com essa descrição.

Então os resultados vieram. E minha impressão foi de que a máquina tinha acertado em cheio.

"O sonho da autópsia de um ser cósmico"
“O sonho da autópsia de um ser cósmico” (Midjourney)

Como a máquina aprendeu a desenhar tão bem

A parceria entre arte e sistemas computacionais não é nova. As primeiras experiências nesse sentido datam dos anos 1960, quando computadores já conseguiam entender certos padrões geométricos e criar variações a partir deles. Mas ferramentas como o Midjourney vão muito além dessas capacidades mais simples, como o exemplo acima deixa claro.

Foram os avanços mais recentes em machine learning que levaram arte computacional a este estágio. A partir de conjuntos gigantescos de dados, é possível treinar redes neurais para analisar imagens e entender seus componentes. Esse processo também possibilita que inúmeras variações de uma mesma coisa sejam aprendidas. Assim como estilos artísticos.

O pulo do gato está na etapa seguinte. É possível treinar o sistema para explorar o espaço entre os objetos catalogados e classificados, e gerar suas próprias variações deles. O termo técnico para descrever esse processo é exploração de espaço latente, como explicou o artista, professor e programador Sergio Venancio ao Tecnocast.

É assim que imagens das mais surpreendentes são geradas. O Midjourney – e outros sistemas do tipo, como o DALL-E 2 e o Stable Diffusion – vasculham os espaços entre os elementos aprendidos, e concebem novas versões e combinações entre esses elementos.

Mais explorações do espaço latente

Vejamos mais alguns exemplos.

O prompt utilizado para a arte abaixo foi “Um robô detetive descobrindo a verdade, noir, retrofuturista”. Na primeira parte do prompt, indiquei os elementos que queria na imagem. Parte da descrição é bem objetiva (“robô”, “detetive”); já “descobrindo a verdade” pode ser interpretado de diversas maneiras. A ideia era estabelecer certa atmosfera. Os dois últimos termos eram estilísticos: a imagem devia ter uma pegada retrofuturista e noir. Eis o que o Midjourney gerou:

"Um robô detetive descobrindo a verdade, noir, retrofuturista" (Midjourney)
“Um robô detetive descobrindo a verdade, noir, retrofuturista” (Midjourney)

Nesta outra, pedi uma imagem a partir do prompt “As ruínas de uma cidade outrora grandiosa, destruída pela passagem do Leviatã de areia”. Não dei nenhuma instrução estilística dessa vez:

"As ruínas de uma cidade outrora grandiosa, destruída pela passagem do Leviatã de areia" (Midjourney)
“As ruínas de uma cidade outrora grandiosa, destruída pela passagem do Leviatã de areia” (Midjourney)

É discutível se o Midjourney conseguiu captar bem a ideia por trás de cada comando (pelo menos a ideia que eu tinha em mente), mas as ilustrações não deixam de ser versões intrigantes desses prompts. E ajudam a ilustrar essa capacidade de explorar espaços e associações entre conceitos. De minha parte, posso dizer apenas que jamais teria conseguido transformar nenhuma dessas ideias num desenho minimamente coerente.

Artistas devem ficar preocupados?

A questão é que, por mais que eu seja um zero à esquerda quando se trata de arte, há muitas pessoas plenamente capazes de desenhar a partir dos prompts que criei. No entanto, artistas humanos demorariam mais tempo para criar suas versões da arte. E provavelmente não sairiam tão em conta quanto uma assinatura do Midjourney ou DALL-E 2.

Quais são as perspectivas para profissionais cujo trabalho pode ser replicado por essas ferramentas? Na opinião de Sergio Venancio, há, de fato, perigo real para eles. Mas há um antídoto: se apropriar ativamente desses sistemas.

Essas pessoas que estão trabalhando apenas para atender demandas devem se preocupar nesse sentido. “Como é que eu vou fazer agora que tem essa ferramenta competindo comigo?” (…) De repente se você é um artista que se antecipa, um designer que usa essa ferramenta a seu favor, no seu processo criativo, eu acho que tem muito jogo pra você dizer: “Eu crio em cima, me aproveito dessas ideias (…) e ofereço pra você uma imagem que é mais do que uma imagem criada por inteligência artificial.”

Sergio Venancio

Esse cenário envolveria uma preocupação maior com interpretar os resultados oferecidos pela IA e agir em cima deles. Isso é verdadeiro para artistas e designers, mas também para diversas outras áreas onde as redes neurais podem ser inseridas.

Outro exemplo dado por Venancio é a medicina. Quando uma IA treinada em diagnósticos aponta que certo paciente tem uma alta probabilidade de desenvolver câncer, o caminho do médico não é apenas tomar a informação como 100% certa. É saber interpretar os resultados, confrontá-los com outros casos, e fornecer uma opinião ainda mais embasada a partir da contribuição da inteligência artificial.

Em outras palavras, o futuro dos designers, arquitetos e artistas pode depender em grande parte de como vão se apropriar de sistemas como Midjourney e DALL-E 2. E, com a popularização destas ferramentas, talvez este seja um bom momento para começar.

Entenda como funcionam as redes neurais que geram arte

No Tecnocast 256, Sergio Venancio apresenta um histórico detalhado da arte computacional e explica os aspectos técnicos e éticos de Midjourney e DALL-E 2. Não deixe de escutar:

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Josué de Oliveira

Produtor audiovisual

Josué de Oliveira é formado em Estudos de Mídia pela UFF. Seu interesse por podcasts vem desde a adolescência. Antes de se tornar produtor do Tecnocast, trabalhou no mercado editorial desenvolvendo livros digitais e criou o podcast Randômico, abordando temas tão variados quanto redes neurais, cartografia e plantio de batatas. Está sempre em busca de pautas que gerem conversas relevantes e divertidas.

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