Precisamos falar de cocô

O Tinder do cocô e nossa eterna necessidade de caber em sociedade

Renata Persicheto
Por

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Que atire a primeira pedra aquele que nunca, nem no mais sórdido momento de tédio de toda a sua vida, tenha levado o smartphone para aquela hora de relaxar no banheiro. Apesar de todo o tabu que gira em torno do assunto, se existe fato tão certeiro quanto a morte, é o de que, eventualmente, precisaremos fazer cocô em algum período do dia ou da noite.

Por quê, então, evitar o inevitável? Vamos falar sobre cocô. Ou, pelo menos, é o que tenta sugerir Pooductive, um aplicativo para iOS que serve basicamente para que pessoas conversem entre si enquanto assumidamente usam o banheiro.

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Com um sistema de localização muito semelhante ao do Tinder, o Pooductive permite que encontremos pessoas num raio mínimo de 5 km de distância e também possui o modo global, em que seres desprendidos de todo o mundo podem entrar num grande chat para compartilhar suas incursões ao vaso sanitário.

Foi assim que conheci Thommy, um rapaz da Eslováquia, que também escreveu um review sobre o app recentemente — e me ajudou na construção desse texto, já que aparentemente ainda não há muitos brasileiros participando das conversas globais.

Pooductive surgiu de uma ideia peculiar de dois estudantes de programação alemães, que juram ter uma proposta nobre mesmo por trás da aparência nojenta de seu projeto: de acordo com o site do aplicativo, existe a possibilidade de que empresas se interessem por sua premissa e proponham parcerias para prover saneamento básico e água limpa em países subdesenvolvidos. A ideia inicial era algo muito maior do que enxergamos hoje. Para acontecer, o aplicativo ganhou uma campanha no Kickstarter, em que visava atingir a meta de 10 mil euros, mas resultou num grande fracasso, sendo encerrada com 184 euros arrecadados.

Apesar de não permitir selfies e envios de fotos de natureza alguma, Pooductive possui algumas opções de envios de som, com temas para cada tipo de resultado obtido durante o número dois. Há, por exemplo, como enviar aos contatos a música Under Pressure, além da Marcha Imperial e outros como “descarga”, para avisar seus colegas que você já está finalizando o serviço.

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Mas vamos ao que interessa — e, a não ser que você participe de grupos muito peculiares, o interesse no cocô alheio não deve fazer parte de sua rotina. Apesar de parecer, com o perdão do trocadilho, uma merda de ideia, o desenvolvimento, criação e distribuição de Pooductive na App Store, bem como seus downloads ao redor do mundo, me deixa pensativa. Se existe produto, existe demanda, e se existe demanda de aplicativos voltados ao overshare de informações até para quem está fazendo cocô, deve ser hora de tirar a mão do bolso e colocar na consciência.

Foi curioso notar que mesmo pessoas que baixam e participam de um aplicativo voltado estritamente para conversar enquanto defecam pareciam envergonhadas com as próprias piadinhas ruins sobre seus dejetos. Ainda assim, elas insistiam. Por quê? De acordo com um estudo de 2014 do Albright College, a necessidade de compartilhar absolutamente cada passo da vida vem, principalmente, do senso de “pertencimento” que advêm do comportamento de quem compartilha.

Utilizando as redes sociais dessa forma, conseguimos expressar nosso “true self” (em linhas gerais, conceito que possuímos de que temos qualidades que deveriam ser reconhecidas, mas que normalmente não conseguimos demonstrar). Isso porque, na internet, é mais fácil sermos quem realmente somos, quer sejamos bonzinhos, descolados, valentões ou a depressão em pessoa — o que não é tão fácil assim na vida real.

O perfil das pessoas que se expressam melhor online também é associado ao que estreita laços de amizades virtuais com mais facilidade. Em suma, e sem cagar regra, o overshare, as conversas enquanto fazemos cocô e as selfies nossas de cada dia derivam, basicamente, dessa nossa eterna necessidade de caber em sociedade.

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