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Contrast é um puzzle que deixa todo seu potencial nas sombras

Tudo no jogo é atraente: proposta, visual, história... Mas algo se perde no caminho

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Depois de muito tempo enrolando e tentando adiar minha volta para o clima noir de Contrast, finalmente tomei coragem e voltei para encerrar o jogo.

Não tomei coragem porque o jogo é assustador ou porque estava em uma parte muito difícil e desestimulante. Foi porque o jogo não é apenas diferente do que eu esperava – e, gente, como eu esperei por esse jogo. Sendo delicada, parece que ele não foi terminado a tempo. Me parafraseando em um momento de sangue quente, é o jogo mais mal feito do mundo (mas talvez eu tenha exagerado um pouco nisso aí).

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A primeira vez que vi Contrast foi na E3, no anúncio do PS4 e seus jogos, entre os indies destacados. Ele foi lançado em novembro do ano passado para PS3, PS4, Xbox 360 e PC. A versão que joguei é do Steam, onde está atualmente por R$ 24.

No jogo, você controla Dawn, uma moça misteriosa que consegue andar nas sombras e está sempre pronta para ajudar Didi, uma garotinha que faz de tudo para resolver os problemas em casa. Seu pai, que não se dá bem com dinheiro, abandonou a família e depois de um tempo, voltou com mais um plano mirabolante para salvá-la das dívidas e, desta vez, ficar para sempre. Só que a mãe de Didi não o quer de volta e é em meio a essa turbulência toda (e outras) que o jogo ocorre.

O primeiro problema do jogo está nos personagens: a falta de carisma das protagonistas é atordoante. Didi tinha tudo para ser parecida com Clementine (de The Walking Dead): uma história pesada para uma criança, problemas com os quais ela não tem maturidade para lidar e muita força de vontade e empenho para resolvê-los. Em vez disso, aparece como uma garotinha mimada e petulante que, em vez de solucionar as coisas que lhe aparecem, insiste em problemas que não são seus.

Já Dawn, a protagonista, parece ter uma história bem interessante, mas se torna basicamente um brinquedo de Didi. No final do jogo, quando conhecemos uma pontinha de sua origem, fica o lamento de não ter sido melhor aproveitada.

Isso se repete também quanto à história do próprio jogo: é só próximo ao final que algumas informações começam a pipocar e tudo fica meio subentendido. Só que há uma história forte, que vai muito além de problemas familiares e triângulos amorosos, e merecia ser melhor trabalhada em mais algumas horas de jogo.

Dawn: olhar e personalidade vazios

Dawn: olhar e personalidade vazios

Esse sentimento é algo que perpetua Constrast: quanto potencial desperdiçado.

A ideia de um puzzle que intercala 3D e 2D quando Dawn corre pelas sombras é ótima. Eles têm alguns momentos óbvios e outros complicados, fazendo com que a dificuldade do jogo oscile constantemente, mas não há empolgação que supere o quanto o jogo é quebrado: de bugs frequentes a escolhas duvidosas de game design, é impossível ignorar as falhas. Não se surpreenda ao, repetidas vezes, prender Dawn entre paredes ou no chão, fazê-la flutuar em cima de elementos do cenário, mandá-la pular e o jogo ignorar seu comando, entre outros problemas que tornam o gameplay uma tarefa, não um prazer.

Some a isso a duração: Contrast acaba meio de repente e, apesar de ter um final bonitinho, merecia algumas horas a mais, como já disse; dá para zerar em cinco ou seis horas. Mas, como isso também significaria mais algumas horas de nervoso tentando fazê-lo funcionar do jeito que deveria, talvez tenha sido melhor parar por aí.

A impressão que dá é que o tempo acabou antes do desenvolvimento e a Compulsion Games teve que lançar desse jeito mesmo.

Mas nem tudo é tristeza em Contrast. Enquanto na parte técnica ele é sofrível, o lado visual é lindo – mas isso você já deve saber de ver os trailers.

A atmosfera noir é sedutora e os traços dos personagens lembram um Tim Burton mais contido, mas que combina bastante com o resto do visual. O mundo é bem construído, com ruas estreitas e sinuosas, prédios baixos com arquitetura tradicional dos anos 20 e ambientes internos igualmente bonitos.

Mas nada disso ultrapassa o suficiente; na prática, poderia ter sempre um pouco mais: mais lugares para explorar (os únicos onde se pode entrar são os que fazem parte da história principal do jogo), mais espaço no mundo, mais liberdade, mais gente – numa vila tão boêmia, só há duas pessoas na rua: Dawn e Didi, que deveria estar dormindo a essas horas – mais tempo.

O único ponto que eu descreveria como realmente impecável é a trilha sonora, toda trabalhada no jazz. Meu destaque pessoal fica com as músicas que têm voz. É a cantora Laura Ellis que empresta a sua para as canções. A principal, Kat’s Song, que toca no menu do jogo e é tão deliciosa que dá vontade de desistir de jogar só para ouvir mais uma vez a voz dela.

Contrast une um visual atraente com uma excelente trilha sonora e uma proposta interessantíssima, mas fica devendo no pacote final. Na superfície, porque seu gameplay esbarra em incontáveis bugs e glitches que tornam a experiência frustrante. Mas, quanto mais para o fundo você vai, começa a perceber que tudo falta: falta em game design, história, duração, mecânica – ele seria muito mais empolgante com missões stealth, por exemplo, que teriam espaço na história do jeito que ela é agora e, intercalando com os puzzles, trariam um dinamismo mais legal. Só alguns movimentos a mais para Dawn e mais rapidez já fariam uma grande diferença.

A impressão que fica é que sobrou potencial e faltou tempo (e recursos, provavelmente) para desenvolvê-lo até se tornar o que todo mundo esperava que Contrast viria a ser.

Ficha técnica

  • Plataforma: PC, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360
  • Lançamento mundial:15 de novembro de 2013
  • Preço sugerido: R$ 24,99 (Steam)
  • Desenvolvedor: Compulsion Games
  • Distribuidor: Focus Home Interactive

Comentários

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Vinícius Melo
Engraçado pensar que eu estava tão empolgado quanto você, se não mais, para esse jogo. inclusive comprei ele com valor cheio, nem esperei entrar em promo como normalmente faço com minhas compras no steam, sinto dizer que me arrependi bastante e ainda não tive o gás que vc teve para voltar a jogá-lo. A jogabilidade ser ruim me desanimou de primeira, mas resolvi insistir para pode absorver a história e o visual que prometiam bastante, até me desanimar com as duas... o jogo tem sombras muito esquisitas, feias e pasme, claras, para um jogo que tem elas nas premissas básicas, além disso a história é esquisita e não nos envolve... sei que ainda vou dar uma seunda chance, vou tentar jogar e tal, mas a principio estou desapontado (e levemente chateado por ter gasto grana nele kkkkkk
Luis Henrique Torres Bigode
Você gosta de Puzzles Giovana Penatti? É um estilo de jogo que gosto bastante porém joguei poucos. Alguns foram Portal, Limbo, The Cave e tô jogando agora Trine. Quais mais vc indica?
Eduardo Sugahara
Também acho uma pena. Vi o trailer desse jogo há algum tempo e achei lindo. Fiquei com receio de comprar devido às avaliações negativas. Pelo jeito, muitas delas estavam corretas. =/