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Camarão que dorme a onda leva

Finada rede social passa a faixa para o Google+ – que nunca deslanchou

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5 anos atrás

Depois de uma década a serviço da internet mundial, o Orkut finalmente vai fechar as portas. O Google anunciou o fim da rede social nesta segunda-feira (30). Em 90 dias, permanecerá na internet somente um grande arquivo com o que foi publicado nas comunidades. Já vai tarde? Para especialistas em mídia digital ouvidas pelo Tecnoblog, o Orkut não foi capaz de se reinventar. Associe isso à adesão massiva ao Facebook e logo se entende por que o Google foi suplantado no campo das redes sociais.

Acabou!

Acabou!

O fim começou com a falta de planejamento, como explica a publicitária, professora e especialista em mídias digitais Patrícia Moura. “Depois de somar uma enorme base de brasileiros, o Google não soube o que fazer com aquilo no médio e longo prazo. O Orkut levou mais de três anos pra fazer as primeiras alterações significativas, como novo layout, a abertura do código para aplicativos e a chegada de games sociais como o Buddy Poke.”

Mas a vaca já tinha ido para o brejo? Segundo Patrícia, conhecida como Miss Moura nas redes sociais, sim: “Quando estas mudanças foram implementadas, já havia um desejo de migrar de rede entre os early adopters e os influenciadores. O processo de migração já estava iniciado.”

A planner e professora de marketing digital Dani Rodrigues ressalta que a primeira rede social do Google teve um papel importante na internet brasileira. “Foi um grande laboratório de comunicação digital social. Testamos linguagens, formatos e formas de relacionamento. Foi quase um letramento em redes sociais”, afirma. Entretanto, com o passar do tempo, o Orkut deixou de atender usuários e marcas.

Entre todos os problemas que o Orkut enfrentou nesta década de existência, Patrícia elenca dois mais latentes.

Primeiro deles, a monetização. Palavra que assusta muitos blogueiros por aí, ela indica a capacidade de uma página ganhar dinheiro. “O Orkut não soube inovar neste quesito. Havia um entendimento de que as marcas (empresas, instituições, personalidades etc.) não eram queridas pelo consumidor. Por outro lado, mesmo sabendo disso, a rede investiu em publicidade tradicional, enquanto o Facebook apostava na conversação.” Eis o pulo do gato de Mark Zuckerberg.

Em segundo lugar, a segurança. Patrícia destaca que o Ministério Público tomou a rede social como bode expiatório para a questão da pedofilia. Em apenas um mês – abril de 2008 – a Polícia Federal identificou 117 pedófilos com base em perfis no Orkut. Segundo a especialista, as multas, os processos e a repercussão negativa na imprensa ajudaram a depreciar a imagem da rede social.

E como fica a situação do Google a partir de agora?

Bom, o Orkut que ninguém usava sai do ar em 30 de setembro. Parece que todos os esforços vão se concentrar no Google+, que, acredite, era usado por ainda menos pessoas no Brasil. Dados da Serasa Experian mostram que a finada rede social aparecia em oitavo lugar no ranking brasileiro, com 0,49% dos acessos aos sites do tipo. Na sequência, o Google+, com 0,46%. O levantamento foi feito em maio de 2014. A título de curiosidade, o Facebook lidera com 63,19% de participação em visitas.

Na visão de Dani Rodrigues, o Google+ não oferece nenhum atrativo que faça as pessoas usarem a rede social. “Considerando as dezenas de redes sociais por aí, se a nova não tiver um diferencial que mude a vida das pessoas, não há razão para ter adesão. Adoro uma frase do professor Clay Shirky que fala mais ou menos assim: recursos tecnológicos por si só não significam muita coisa. Eles passam a fazer sentido quando alteram comportamentos.”

Ela cita como exemplo o Facebook. Um namoro não é real ou sério se o status de relacionamento não for modificado na rede social de Zuckerberg. Já no Instagram, afirma Dani (e todos sabemos que é verdade): “as pessoas precisam postar a foto do almoço de domingo como se isso deixasse o prato mais gostoso”. Jogo da seleção? “Não basta assistir. É preciso cornetar no Twitter!

Quem dera

Quem dera

Parece que a perspectiva para o Plus não é das melhores. O próprio Google começou a tomar providências: vai mexer nos resultados de busca para não exibir as fotos de autores dos conteúdos postados. Estas fotos eram aproveitadas do Google+. Vic Gundotra, executivo que esteve à frente da nova rede social desde o início, decidiu deixar a empresa depois de oito anos. Não deve ser por acaso.

“Se olharmos para o nosso cotidiano, o G+ não estabelece nenhum vínculo, nem emocional, nem racional. Nada perto disso. Usamos o Hangout [a ferramenta faz parte do Plus], sem dúvida. Mas se ele sumir, temos alternativas”, diz Dani, que ainda complementa: “O Google+ nasceu sem propósito”. Ela parece estar coberta de razão, para desespero do Google.

Camarão que dorme a onda leva, já diz a música.